FAZER LOGIN“FT”, 15 de janeiro, quinta-feira.
Arregalou os olhos.
Viu-se diante de um... “fantasma”???
O sujeito teria entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Alto, branco e loiro. Olhos azuis. Cultivava um bigode fino, no estilo dos mexicanos. Apesar do intenso calor, usava um terno preto, com gravata lilás. Na mão direita, uma pasta marrom.
→ Te matei! → gritou, surpreso → TE MATEI!!! Não pode ser! Não pode ser!!!
→ Você checou se eu estava realmente morto? → o homem falou e sua voz era extremamente parecida com a do Bruno Handel.
→ Tu morreu, cara! Puta que pariu!!!
O homem depositou a maleta no chão e tirou a gravata, o terno e camisa interna. Jogou as roupas no chão. Mostrou o torso envolto em bandagens brancas, porém com a cor rubra se destacando em alguns pontos.
Havia sangue no peito dele?
→ Fugi do hospital → ele disse →. Depois, contratei um detetive particular, em caráter de urgência. Com a descrição que forneci, ele levou apenas um dia e meio para descobrir teu endereço. Fácil, fácil.
→ Como?!? → foi o que conseguiu balbuciar.
→ Não sei e não me interessa. O cara conseguiu e isso, para mim, foi o suficiente. Paguei o detetive e o dispensei. Aluguei essa casa, na cidade de “FT”. Isso mesmo. Estamos bem longe de sua cidade, de sua casa bonita. Mais tarde, bastou ficar do lado de fora da tua residência e, quando você saiu, todo senhor de si... PAM! Nada como uma boa pancada na nuca, como nos filmes de suspense → riu, baixinho →. E tudo isso com uma rapidez impressionante. O resto, você já sabe. → mostrou a sala, com as mãos. → Uma viagem no porta-malas do carro e... isso aqui. Tornou-se meu hóspede.
Ao ouvir o sujeito, entrou em elucubrações.
Amaldiçoou-se, por não ter checado! O cara resistiu a dois tiros. Dois! Era forte demais. Amaldiçoou-se, por não ter dado um tiro na cabeça desse filho da puta! E amaldiçoou o miserável do Paulo, por tê-lo colocado nessa fria. Plano infalível! Bah!
Perguntou-se como o detetive chegara até seu endereço. O garoto do estacionamento! Os taxistas??? A garota da rodoviária? Ou seria outra testemunha? Bem, não fazia diferença, naquele momento.
Precisava ganhar tempo! Precisava bolar um meio de fugir desse inferno! Ou tentar matar esse...
→ O q-que quer de mim? → perguntou, para controlar o medo.
O homem → após ter vestido o terno e ajustado a gravata → tirou quatro fotos, de um dos bolsos do referido terno. Todas coloridas. Todas no tamanho 12x15cm. Todas mostrando o close dos rostos de quatro pessoas, de frente → três homens e uma mulher.
Postou-se a um metro de distância da cadeira.
→ Esse aqui se chama Victor Zimmermann, meu sócio → mostrou a primeira foto →. Um crápula e não vale um centavo! Para minha sorte, nossa sociedade seria desfeita no mês que vem. Cada um ia seguir seu próprio caminho. → mostrou a segunda foto → O próximo atende pelo nome de Paulo Guinler, um funcionário do alto escalão que demiti, por fraude, a cerca de seis meses. É desonesto e hipócrita. Já viu, né? → suspirou e mostrou a terceira foto → Esta é Tereza Handel, minha esposa. Estamos em processo de separação, por causa das brigas e também por causa da Ana, que você matou. → seus olhos emitiram um brilho satânico, ao pronunciar tais palavras. Depois voltou ao normal → A foto dela está aqui porque, pela intensidade do ódio que sente por mim, seria capaz, sim, de fazer uma merda dessas. → mostrou, por fim, a quarta foto → E este aqui se chama Haroldo Brestony e era dono de uma empresa concorrente, que faliu. É do tipo nervoso e brigão. Um incompetente, na verdade. E como não poderia deixar de ser, tínhamos algumas desavenças particulares, por isso o incluí na lista. Nunca se sabe.
Ficou segurando as fotos, mostrando-as.
Em silêncio.
Como que esperando alguma coisa.
Nos olhos, o maquiavélico brilho do ódio!
Arrepiou-se... ao sentir o fulgor do medo percorrer suas veias!
→ O q-que quer de mim? → tornou a perguntar, quebrando o silêncio, sem olhar para as fotos.
Notou que o homem nada falou. Apenas guardou as fotos e abriu a maleta. Retirou um objeto cilíndrico → pintado de amarelo, vermelho e branco → com cerca de trinta centímetros de comprimento.
Numa das extremidades do objeto se sobressaía, perfazendo o ângulo de noventa graus, um cano fino, prateado.
Quando o homem apertou o botão vermelho → localizado na parte de cima do cilindro → uma chama azulada saiu do bico do cano, emitindo um chiado grotesco.
→ Não sei se você conhece, → o homem explicou → mas isso aqui é um maçarico portátil, com frasco descartável. Ótimo para pequenas soldas. Fácil de encontrar em qualquer loja de ferramentas → apertou mais uma vez o botão; ouviu-se o chiado →. Irei expor as coisas para você de modo claro, para que não tenha nenhuma dúvida. Preste bastante atenção às minhas palavras. Quero simplesmente que aponte uma das fotos. Só isso. Se fizer o que estou pedindo, será entregue para a polícia e cumprirá sua pena dentro da Lei. Ninguém sequer saberá que esteve nesta casa. Caso contrário, caso se recuse a colaborar, me forçará a descobrir sozinho, o que me custará tempo e dinheiro. Nesse caso, ficarei zangado, muito zangado e, como consequência, terei que queimar seu corpo, → recuou a cabeça, quando o sujeito colocou a chama a cinco centímetros de seus olhos. Chegou a sentir o calor do fogo, mortal e macabro → pedaço por pedaço. Isso dói demais, pode ter certeza. Ah, sim! E aponte a foto certa. Se eu descobrir que apontou a foto errada, dando uma de esperto, sua morte será ainda mais lenta e dolorosa → afastou o maçarico e gritou, subitamente irado →: Entendeu, seu vagabundo? ENTENDEU O QUE EU DISSE, SEU FILHO DA PUTA?
→ S-Sim... → respondeu, assustado com a fúria dele.
Louco!
Notou estar diante de um louco! Aquele homem → dominado pelo ódio → queria vingar a morte da amante! Isso significava que suas chances de escapar eram mínimas. Seria assassinado! Ou, na melhor das hipóteses, iria parar na cadeia.
Não queria morrer! Não queria ser preso!
Tinha que pensar em algo! Talvez pudesse atacá-lo. Ou se livrar das cordas. Quem sabe se passasse a noite ali...
→ Q-Quem me garante que tu não me matará, assim que eu apontar a foto? → ousou perguntar, trêmulo, numa tentativa desesperada de ganhar alguns minutos.
O homem havia voltado à calma. Era incrível o modo como conseguia dominar suas emoções.
Desligou o maçarico e disse, com frieza:
→ Minha palavra deve bastar, pois não sou um bandido, como você. Terá que confiar. → passou a mão esquerda na testa, para tirar o suor →. Esse quarto está muito quente. Além do mais, não estou aguentando esse teu fedor de mijo. É nojento! → respirou fundo e colocou a mão no peito → Minhas dores estão aumentando. Terei que retornar para o hospital ou isso se agravará. Ainda tenho uma bala alojada aqui dentro. Então, seu desgraçado? → aumentou o tom de voz → Vai apontar a porra da foto ou vai querer, antes, sentir uma demonstração da força desse maçarico? O que me diz? FALE! FALE!!!
Suspirou, em pânico.
Resignou-se com sua sorte. Havia cometido um erro, ao não matar o alvo e iria pagar por isso. O contato também pagaria, por ter contratado um assassino atrapalhado como ele. Que merda! Sentiu-se, naquele instante, um lixo, um homem que não cumpriu a missão.
Bem, no final das contas, estaria lucrando, se fosse apenas preso.
E dane-se o contato!
A dor de cabeça aumentou. Precisava de um comprimido.
→ Espere! Espere! Tu não vai p-precisar d-demonstrar nada, mano. → disse, apavorado, sem tirar os olhos do cano do maçarico → Sei... sei reconhecer uma d-derrota.
PARTE QUATRO - O FIM DO MISTÉRIO “FT”, 17 de janeiro, sábado. Encontraram-se no restaurante “Hutt Levidt Paladar”, naquela manhã ensolarada. Beijaram-se nas faces. Ocuparam uma mesa discreta, nos fundos do recinto. → Tudo bem? → ela quis saber. → Tudo. → O dia está lindo. → Realmente O sol está maravilhoso. → Vamos almoçar? Comeram lagosta, com arroz, macarrão, salada, feijão e farofa. E vinho branco, como acompanhamento. Em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensam
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Estacionou a BMW a duzentos metros do ginásio. Havia dito para a esposa que precisava resolver um assunto urgente, de trabalho. Ela → acostumada a essas ausências → não questionou nem quis saber do que se tratava. Era uma excelente esposa! Vinte e tantos anos de casamento e continuava compreensiva, fiel e meiga! Fingia, inclusive, ignorar as diversas amantes que arrumava. A mulher perfeita! Olhou o relógio: 23h10min. Saiu da BMW. Usava terno preto, com gravata azul. A pistola se encontrava no coldre axilar, este oculto pelo terno. Adorava usar esse tipo de roupa.
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Contou tudo! Desde a abordagem pelo contato, o roubo do Corsa, o treinamento, os tiros, o estupro, a fuga, até a chegada na casa, já tarde da noite. → É isso aí → disse, para finalizar a conversa →. É... isso... aí. Cara, preciso de um remédio. Tô com u-uma fodida dor no c-cérebro, entende? O tal de Bruno → após ouvir o bizarro relato → não proferiu uma palavra sequer. Parecia um robô sem alma, como que perdido em sua própria loucura. Guardou o maçarico na maleta e tirou um celular e uma pistola, preta, com silenciador. Destravou a arma. Ergueu a mão armada. Virou-se. → Ca
“FT”, 16 de janeiro, sexta-feira. Enquanto isso... Vitorioso! Naquela noite, trancado na biblioteca da mansão → concentrado na elaboração do discurso → sentia-se o mais vitorioso dos homens! Nunca estivera tão satisfeito. Recapitulando os acontecimentos da semana, soubera da morte de Bruno no hotel, às oito da noite da terça-feira. Kleber → gerente de vendas da matriz → lhe dera a notícia. Estava realmente no norte do país. Portanto, bem distante das ações do assassino. Viajara para a cidade de “FT” na manhã do dia seguinte, fingindo estar chocado com o fato. Comparecera ao enterro. Claro!
“FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Arregalou os olhos. Viu-se diante de um... “fantasma”??? O sujeito teria entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Alto, branco e loiro. Olhos azuis. Cultivava um bigode fino, no estilo dos mexicanos. Apesar do intenso calor, usava um terno preto, com gravata lilás. Na mão direita, uma pasta marrom. → Te matei! → gritou, surpreso → TE MATEI!!! Não pode ser! Não pode ser!!! → Você checou se eu estava realmente morto? → o homem falou e sua voz era extremamente parecida com a do Bruno Handel. → Tu morreu, cara! Puta que pariu!!! O homem depositou a maleta no c
PARTE TRÊS - A VINGANÇA DO MORTO “FT”, 15 de janeiro, quinta-feira. Ao despertar, sentiu uma incômoda dor de cabeça. Dor chata! Como se agulhas perfurassem seu cérebro! Tentou se mexer, mas não conseguiu. Percebeu que estava amarrado a uma cadeira de aço → extremamente pesada → de espaldar alto. Cordas poderosas o prendiam por trás. Tentou de desenvencilhar, sem sucesso. → Merda! → vociferou, sem forças. Suava. O suor descia → lentamente → por seu rosto. Calculou ser quase meio-dia, com a temperatura na casa dos trinta e poucos