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Capítulo 2

Author: Gata Gorda
No dia seguinte, o clima na empresa tinha mudado por completo.

Nos corredores, na copa, em todos os cantos, havia funcionárias cochichando. Quando elas me viam, elas desviavam o olhar, mas o sorriso contido no canto da boca entregava a animação delas.

A mesa de Esther tinha se tornado o centro de todo o departamento.

Um grupo de pessoas se amontoava em volta dela. Pela boca, eles diziam que ela era "corajosa demais", mas, no rosto, o que existia era pura torcida e expectativa.

— Esther, a gente está com você!

— É isso aí, por que todo o dinheiro vai para as professoras da creche e a gente não vê um centavo?

— Pode tocar o terror tranquila, quando muita gente se mexe, ninguém é punido. Ela não vai ter coragem de mandar todo mundo embora.

Quando eu passei por ali, eu ouvi cada palavra com perfeita clareza.

Na cabeça delas, eu não passava de uma "patroa boazinha" de quem todo mundo podia tirar vantagem, apertar, chantagear.

À tarde, Camila entrou sozinha na minha sala. Os olhos dela estavam vermelhos, e ela carregava uma xícara de café na mão.

— Sra. Clara, por favor, não fica tão chateada. A Esther só deixou a fama na internet subir um pouco à cabeça. — Camila colocou o café sobre a minha mesa, com um tom de preocupação ensaiada. — Na verdade… ninguém acha de verdade que a creche é ruim. O pessoal só acha que, se virasse dinheiro, esse tipo de benefício seria mais… flexível.

Eu olhei para Camila, a funcionária por quem eu já tinha me desdobrado para ajudar:

— É mesmo? Então você também apoia fechar a creche?

O olhar de Camila vacilou por um instante. Em seguida, ela levantou o rosto de novo e forçou um sorriso:

— Claro que eu estou do seu lado! Tudo o que você fez por mim, eu lembro de cada detalhe. Eu só estou preocupada com você. Agora que saiu tanta coisa negativa na internet, isso prejudica demais a imagem da empresa. Quem sabe… você não dá um pequeno passo atrás? Começa pagando um auxílio em dinheiro, só para acalmar o pessoal? Igual enchente: abrir caminho para a água sempre funciona melhor do que tentar segurar tudo na marra, não acha?

Camila não tinha vindo aliviar meu peso. Ela tinha vindo fazer lobby por elas, testar o limite da minha paciência. Ela usava a minha própria boa vontade para tentar me empurrar em direção à ganância delas.

Nesse momento, Maia entrou às pressas, empurrando a porta com o rosto completamente pálido:

— Sra. Clara, deu ruim! O post da Esther foi compartilhado por vários influenciadores do Twitter com milhões de seguidores! Agora já entrou no Top 10 dos assuntos mais comentados!

Eu atualizei o meu celular. A informação estava correta.

O tópico em alta era:

[Chefe Mulher Cria Creche Para Explorar Funcionárias]

Abaixo do assunto, tinham começado a aparecer novos comentários anônimos. Na hora de postar, algumas pessoas tinham esquecido de desligar a localização, e o IP aparecia nitidamente como sendo da nossa região.

[Sou funcionária interna, posso confirmar que a comida da creche é péssima. Meu filho comeu lá outro dia e passou mal, teve diarreia!]

[Esse papo de "sistema estrangeiro de educação" na creche é só fachada. Quem cuida das crianças são parentes da dona da empresa, contratados só para enganar os funcionários.]

[Por causa da creche, minhas férias foram pro ralo, eu não tenho coragem de pedir dispensa, nem de ficar doente.]

Eu fiquei encarando aqueles comentários, sentindo um zumbido encher a minha cabeça.

O cardápio da creche tinha sido revisado por mim e pela nutricionista inúmeras vezes, prato por prato, ingrediente por ingrediente. Todos os alimentos eram orgânicos, de fornecimento especial. A equipe estrangeira de educação infantil tinha sido escolhida depois de eu analisar mais de uma centena de currículos enviados por três das melhores empresas de headhunting.

Quanto à acusação de que a creche "impedia" as pessoas de tirar férias, aquilo era totalmente inventado.

Eu conseguia até imaginar: talvez quem tinha digitado aquelas frases fosse justamente a funcionária que, na semana anterior, tinha segurado a minha mão e me agradecido em lágrimas por eu ter resolvido o problema de quem cuidaria do filho dela.

Elas desfrutavam sem culpa nenhuma do benefício de altíssimo nível que eu tinha criado.

Ao mesmo tempo, por causa do "dinheiro vivo" completamente fictício prometido por Esther, elas tinham virado as costas para mim e jogado lama em cima de mim.

Camila ainda continuava ao meu lado, insistindo com aquela falsa gentileza:

— Sra. Clara, olha só, quanto mais isso cresce, pior vai ficando. Me escuta só dessa vez…

Eu peguei a xícara de café em cima da mesa, caminhei até a lixeira e virei o conteúdo de uma vez ali dentro.

— Saia.

A minha voz saiu muito calma.

O rosto de Camila endureceu por um instante. Logo depois, ela trocou a expressão por um ar de mágoa:

— Sra. Clara, eu… eu juro que é para o seu bem…

— Eu pedi para você sair.

Eu repeti a frase, sem olhar para ela de novo.

Camila acabou saindo, contrariada. A sala recuperou o silêncio, mas o meu celular começou a tocar e a vibrar sem parar. Eram mensagens de parceiros comerciais, ligações de investidores, contatos da imprensa.

Mensagens privadas cheias de insultos começaram a inundar todas as minhas redes sociais.

[Capitalista nojenta, tomara que a sua empresa quebre amanhã!]

[Eu ainda achava que você era exemplo de mulher independente, no fim também subiu pisando em cima de outras mulheres!]

[Uma mulher como você não merece ser mãe!]
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