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Capítulo 3

Author: Gata Gorda
Eu tinha me trancado na sala do escritório a tarde inteira.

Lá embaixo, algumas vans de imprensa já estavam de plantão na porta, à minha espera.

Eu deixei escapar um sorriso de puro deboche. A partir daquele dia, eu, Clara Mendes, jurava que só seria uma empresária que corria atrás do lucro. Nada mais.

Eu peguei o ramal interno e disquei para a diretora administrativa da empresa:

— Avise todos os funcionários que amanhã, às nove da manhã, vai ter reunião geral no auditório. Sobre as reclamações recentes em relação ao benefício da creche, a empresa vai anunciar a solução final.

Do outro lado da linha, a voz da diretora soou hesitante:

— Sra. Clara, a gente… vai mesmo ceder?

— Não. — Eu encarei as luzes dos flashes lá fora, uma a uma, antes de responder. — Já passou da hora de elas pagarem pelo próprio egoísmo.

Na manhã seguinte, o auditório estava lotado.

O ar parecia carregado de excitação e expectativa, mais parecido com uma festa de comemoração do que com uma reunião de crise.

Esther estava sentada na primeira fileira, cercada por um grupo de funcionárias que eram mães, como se ela fosse alguma espécie de líder de movimento.

Ela tinha caprichado na maquiagem e, toda satisfeita, compartilhava com as outras a "experiência de luta" dela:

— Para lidar com capitalista, não pode ter coração mole. Quando a gente se junta e faz barulho, ela acaba cedendo. Espera só, hoje a empresa com certeza vai dar uma resposta que preste para a gente.

Camila estava ao lado dela, com um sorriso contido, elegante, e ela balançava a cabeça de vez em quando, concordando com tudo.

Às nove em ponto, eu entrei no auditório.

Na mesma hora, todos os olhares se voltaram para mim. Havia curiosidade, havia vontade de ver a desgraça alheia e havia uma ganância escancarada em muitos rostos.

Eu subi ao palco, ignorei o PPT projetado na tela e deixei o olhar passear por cada uma daquelas caras. Em seguida, eu me curvei profundamente:

— Primeiro, eu quero pedir desculpas a todos.

Um burburinho percorreu o salão, e logo em seguida o lugar explodiu em aplausos e gritos de comemoração.

Esther arqueou as sobrancelhas, vitoriosa, e pegou o celular, como se estivesse pronta para avisar alguém sobre a "grande vitória" dela.

Eu me endireitei e encarei o público:

— Por causa das minhas próprias suposições, eu não levei em consideração, de forma adequada, o desejo das minhas funcionárias de criarem os filhos com mais autonomia. Eu lamento profundamente o desconforto e os mal-entendidos que isso causou.

Os aplausos ficaram ainda mais entusiasmados.

Alguém lá em baixo chegou a gritar:

— Sra. Clara, o importante é reconhecer o erro! A gente entende!

Eu esperei o barulho diminuir. Então eu mudei o tom:

— Para respeitar ao máximo as escolhas individuais de cada uma e para responder ao forte apelo de vocês pela autonomia na criação dos filhos, depois de uma noite inteira de discussão da diretoria, nós decidimos…

Eu fiz uma pausa de propósito.

Todo mundo prendeu a respiração, esticou o pescoço, com os olhos brilhando.

Eu olhei para eles e anunciei, palavra por palavra:

— Primeiro: a partir de hoje, a creche interna da empresa será encerrada em caráter permanente.

O auditório veio abaixo em gritos e comemorações.

Esther e as mulheres ao redor dela se abraçaram, empolgadas.

Na cabeça delas, elas tinham vencido.

Eu ignorei a euforia e continuei com a segunda parte da decisão:

— Segundo: para compensar vocês, a empresa vai substituir o benefício da creche por um auxílio financeiro de criação dos filhos.

O silêncio foi instantâneo.

Todos voltaram a me encarar, à espera do número mágico.

Eu pigarreei de leve e revelei o valor com que elas tanto sonhavam:

— Todas as funcionárias que se encaixarem nos critérios vão receber um auxílio de duzentos reais por mês.

Assim que eu terminei a frase, o auditório inteiro ficou mudo.

O celular que Esther segurava, pronto para mandar mensagens, escorregou da mão dela e caiu no chão com um estalo. A tela se estilhaçou na hora.

Ela foi a primeira a reagir. Ela se levantou de um pulo, a voz dela saiu em um tom quase histérico:

— Duzentos reais? Clara, isso é esmola de beira de estrada? E o dinheiro do orçamento da creche? Você enfiou tudo no próprio bolso?

Eu olhei para ela com frieza:

— Orçamento? Que orçamento? A creche foi criada com o meu dinheiro pessoal. Eu banquei tudo, sem usar um centavo do caixa da empresa. Agora eu não quero mais arcar com essa despesa. Tem algum problema?

As minhas palavras deixaram todos atordoados.

Elas sempre tinham acreditado que a creche era um benefício oficial da empresa.

Elas achavam que, se gritassem o suficiente, transformariam aquele "benefício em serviço" em uma quantia em dinheiro direto na conta.

Elas nunca tinham parado para pensar que aquele "benefício" nunca tinha pertencido a elas em primeiro lugar. Aquilo tinha sido um presente meu, um agrado que eu tinha tirado do próprio bolso para oferecer.

— Impossível! — Esther gritou, completamente fora de controle. — Você está mentindo! Você é uma capitalista nojenta! Você quer ficar com todo esse dinheiro só para você!

— Pense o que você quiser. — Eu continuei com o mesmo tom neutro. — Aliás, deixo mais um aviso para todos. Por causa dessa crise de imagem, a reputação da empresa foi gravemente afetada. O nosso maior parceiro acabou de rescindir o contrato. O conselho se reuniu em caráter de urgência ontem à noite e exigiu que eu corte 30% dos custos operacionais em até 24 horas, para a gente ter fôlego diante da crise que está vindo.

Eu fiz uma pausa e deixei o olhar passear pelo auditório, agora cheio de rostos lívidos:

— Amanhã de manhã, a lista de demissões vai estar na caixa de entrada de cada um de vocês.
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