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A vida era como um globo de neve. Bastava um único movimento para que tudo o que parecia perfeitamente estável fosse sacudido. Durante alguns instantes, os flocos de neve dançavam violentamente, chocando-se contra as paredes de vidro, até que, pouco a pouco, voltavam a cair. Quando finalmente tudo parecia ter regressado ao seu lugar, o globo continuava parecendo o mesmo. A paisagem permanecia intacta, as pequenas casas continuavam onde sempre estiveram e a neve voltava a cobrir cada superfície.
Mas nada era realmente igual. Bastava olhar com atenção para perceber que alguma coisa havia mudado. Era assim que Silver se sentia nos últimos dias. Como se uma força invisível tivesse agarrado sua vida e a sacudido com violência, destruindo tudo aquilo que um dia acreditara ser permanente. Agora, enquanto permanecia deitada naquela cama, já não lhe restava quase nada além da solidão, da dor e da certeza de que não viveria por muito mais tempo. Era difícil acreditar que, até poucos meses antes, ela tinha sido feliz. Tinha os pais ao seu lado, um marido que acreditava amar e uma vida preenchida por cores. Lembrava-se das manhãs ensolaradas, das risadas durante os jantares em família e da maneira como sua mãe sempre insistia em abraçá-la. Lembrava-se também do dia do seu casamento, quando acreditara que estava começando a viver a melhor fase de sua vida. Então tudo começou a desaparecer. Quatro meses depois do casamento, seus pais morreram em um acidente terrível. Depois disso, seu corpo começou a adoecer. Os médicos nunca conseguiram explicar exatamente o que estava acontecendo. Exames, consultas, medicamentos e tratamentos não pareciam fazer diferença. A cada semana, Silver perdia um pouco mais de si mesma. Primeiro vieram as dores constantes. Depois, a fraqueza. Até que suas pernas simplesmente deixaram de obedecer. Agora passava a maior parte dos dias naquela cama. Às vezes, os empregados a levavam ao jardim, onde ela permanecia durante alguns minutos respirando o ar fresco e observando as flores. Eram os únicos momentos em que conseguia esquecer, ainda que por pouco tempo, que seu próprio corpo estava lentamente desistindo dela. Adrien também havia mudado. No início, ele parecia preocupado. Segurava sua mão, perguntava como ela estava e prometia que tudo ficaria bem. Depois, as visitas começaram a diminuir. Uma vez por semana tornou-se algumas vezes por mês. E, por fim, Silver passou a considerar uma visita dele um acontecimento. Talvez fosse culpa dela. Talvez tivesse se tornado um fardo. Talvez ele simplesmente não soubesse como lidar com uma esposa doente. Ela procurava justificativas porque ainda o amava. Ainda acreditava nele, até aquela noite. Silver estava perdida em seus pensamentos quando ouviu a porta do quarto se abrir. Ela virou lentamente a cabeça. Seu coração acelerou. — Elsa? Sua melhor amiga entrou no quarto. Por alguns segundos, Silver apenas a encarou. Fazia meses desde a última vez que vira Elsa. Desde que adoecera, sua amiga simplesmente desaparecera de sua vida. No início, Silver havia ligado inúmeras vezes. Depois, enviara mensagens. Chegara até a perguntar aos empregados se Elsa havia aparecido enquanto ela dormia. Nunca obteve uma resposta satisfatória. Mesmo assim, nunca conseguiu acreditar que a amizade entre elas havia terminado. Eram amigas desde a universidade. Tinham compartilhado segredos, lágrimas, sonhos e incontáveis momentos que Silver acreditava que jamais seriam esquecidos. Por isso, vê-la ali despertou algo dentro de si que há muito tempo não sentia. Esperança. — O que estás fazendo aqui? — perguntou Silver, sua voz fraca. Elsa não respondeu imediatamente. Apenas caminhou pelo quarto. Silver observou o vestido rosa que ela usava. Reconheceu-o imediatamente, era um vestido da Dior que havia comprado anos atrás. Existiam apenas cinco modelos iguais no mundo, e aquele pertencia a ela. Depois, reparou nas joias. Seu colar, seus brincos, seu anel. Tudo aquilo que reconhecia como seu estava sendo usado por Elsa. Um arrepio percorreu seu corpo. — Elsa… — murmurou. — Essas são as minhas roupas? Elsa finalmente olhou para ela, um sorriso surgiu em seus lábios. Não era o sorriso da amiga que Silver conhecia. Era frio e cruel. — Eram. Silver franziu a testa. — Como assim? Elsa aproximou-se da cama. — Eram tuas. — Ela passou os dedos pelo colar que usava. — Agora são minhas. Silver sentiu o coração apertar. — Não entendo… — Claro que não entendes. Uma segunda voz surgiu atrás dela, Silver congelou. Conhecia aquela voz, mesmo depois de tantos meses, reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Adrien entrou no quarto. Por um instante, Silver sentiu uma espécie de alívio. Seu marido. Talvez ele tivesse vindo porque soubera que Elsa estava ali. Talvez tivesse finalmente percebido que ela precisava dele. — Adrien… Ele não respondeu, apenas fechou a porta atrás de si. Silver procurou seus olhos, desesperada por encontrar algum sinal de carinho. Não encontrou. Adrien olhava para ela como se estivesse diante de uma estranha. — Tu estás demorar muito para morrer — disse ele. Silver ficou em silêncio, sentiu o sangue abandonar seu rosto. — O quê? Elsa soltou uma pequena risada. — Eu disse que ela ainda acreditava que tu a amavas. Adrien aproximou-se da cama. — E eu disse que ela era mais estúpida do que imaginávamos. Silver sentiu os olhos arderem. — Adrien, eu não estou entendendo… — É claro que não estás. — Ele soltou uma risada seca. — Passaste a vida inteira acreditando no que querias acreditar. — Eu sou tua esposa. — Foste. — Aquela única palavra pareceu atravessar seu peito. — Foste minha esposa — repetiu Adrien. — E foi exatamente por isso que tudo ficou tão fácil. Silver olhou para Elsa, depois para Adrien. — O que vocês estão dizendo? Elsa sentou-se na beirada da cama. — Queres mesmo saber? Silver assentiu lentamente. — Eu quero. Elsa inclinou-se para perto dela. — Então olha para mim e tenta lembrar de tudo o que vivemos. Silver não conseguia compreender. — Por quê? — Porque nada daquilo foi verdadeiro. — As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Silver. Elsa continuou: — Eu conheci Adrien muito antes de vocês começarem a namorar. Na verdade, nós já estávamos juntos quando ele começou a namorar contigo. Silver parou de respirar por alguns segundos. — Não… — Sim.Uma pessoa que se sente segura começa a fazer perguntas. Uma pessoa que começa a fazer perguntas pode descobrir respostas. Pousei o telemóvel sobre a mesa. Precisava impedir que isso acontecesse. Talvez eu devesse falar novamente com Silver. Aproximar-me dela como a amiga preocupada que sempre fingira ser, descobrir o que estava a acontecer dentro daquela cabeça e perceber até onde iam as suspeitas. Não podia permitir que o medo me fizesse agir precipitadamente. Foi então que ouvi a porta abrir. Adrien entrou novamente na sala. Olhei para ele e percebi imediatamente que continuava inquieto. — Pensei que tivesses ido para casa — disse. — Tentei, mas não consegui parar de pensar no que aconteceu. Aproximei-me dele e segurei-lhe a mão. — É precisamente por isso que precisas de parar de pensar com raiva. Ele respirou fundo. — Não gosto da forma como ela está a agir. — Eu também não. — Então admites que há alguma coisa errada? — Claro que há. A questão é descobrir o quê sem lhe d
Fiquei a observar Adrien desaparecer pelo corredor até ouvir a porta da entrada fechar. Só então deixei o sorriso que mantivera no rosto desaparecer. Aproximei-me lentamente da janela e fiquei a olhar para o carro dele afastar-se pela rua. Adrien estava perturbado, e isso era precisamente o que eu não queria. Um homem assustado tornava-se impulsivo, e eu conhecia-o suficientemente bem para saber que, quando sentia que estava a perder o controlo, tinha dificuldade em pensar com clareza. Silver tinha conseguido deixá-lo inseguro em apenas uma noite. Isso preocupava-me. Não porque eu me importasse particularmente com os sentimentos de Adrien, mas porque dependia dele para que tudo acontecesse como tínhamos planeado. O casamento precisava acontecer. Silver precisava continuar apaixonada por ele, precisava confiar nele o suficiente para colocar o seu património nas mãos do marido e, acima de tudo, precisava chegar ao momento certo sem suspeitar do que estávamos a preparar. Tudo tinha sid
Olhei para ela. — O que queres dizer? — Talvez tenha percebido que está prestes a casar e que deveria começar a pensar no próprio futuro. — Silver nunca pensou assim. — As pessoas mudam. — Não desta maneira. Elsa ficou em silêncio. Eu também. O problema era exatamente esse. Eu conhecia Silver. Conhecia a mulher que se apaixonara por mim, que acreditava em todas as minhas histórias e que se sentia culpada sempre que pensava que não estava a fazer o suficiente pela nossa relação. A mulher diante de mim já não era assim. Ela estava a questionar e pessoas que começam a questionar tornam-se perigosas. — O acordo pré-nupcial foi o que mais me preocupou — admiti. Elsa sentou-se no sofá. — Porque ela decidiu assiná-lo? — Sim. — Talvez seja apenas uma decisão sensata. — Para qualquer outra pessoa, seria. Para Silver, não. Elsa observou-me atentamente. — Ela recusou porque acreditava em ti. — Exatamente. — Então talvez tenha deixado de acreditar. As palavras
Saí da casa de Silver com a sensação desagradável de que alguma coisa tinha corrido terrivelmente mal. Entrei no carro e permaneci alguns segundos sem ligar o motor. A imagem dela agarrada ao braço de Cole continuava diante dos meus olhos, mas não era a proximidade entre os dois que mais me incomodava. Era a expressão no rosto de Silver quando me viu. Ela teve medo de mim. Apertei o volante com força. Silver nunca tinha tido medo de mim. Durante todo o nosso relacionamento, eu soubera exatamente como lidar com ela. Sabia quando devia ser carinhoso, quando devia demonstrar fragilidade e, principalmente, quando devia fazê-la sentir que estava a magoar-me. Silver tinha um coração demasiado sensível para suportar a ideia de ser responsável pela infelicidade de alguém que amava. Eu tinha usado isso a meu favor. Sempre. Ela me ama e acreditava que eu a amava da mesma maneira. Acreditava que as nossas diferenças sociais nunca tinham sido um problema para mim e que eu apenas queria construi
Precisava descobrir quem Adrien e Elsa realmente eram quando deixavam de representar os papéis de noivo perfeito e melhor amiga. Quando chegámos à minha casa, agradeci a Cole. — Obrigada por me ouvires. Ele desligou o motor. — Não precisas agradecer. Abriu a porta e saiu. Eu fiz o mesmo. Quando caminhávamos em direção à entrada, senti uma estranha inquietação. Não sabia explicar porquê. Assim que entrei, percebi. Adrien estava ali. O meu corpo reagiu antes que a minha mente conseguisse compreender. O coração disparou. As minhas mãos ficaram frias. A respiração tornou-se curta. Era ele. O mesmo homem que, na minha outra vida, segurara a minha mão enquanto eu morria. O mesmo homem que tinha olhado para mim sem qualquer piedade. O mesmo homem que tinha escolhido Elsa. Eu parei. Cole percebeu imediatamente. — Silver? Não consegui responder. Adrien aproximou-se. — Finalmente. Aquela voz. Apenas aquela voz foi suficiente para fazer o meu estômago revirar. Sem pensar, aproximei-me d
Às vezes, eu perguntava-me se tudo aquilo tinha realmente acontecido. Talvez a minha morte tivesse sido apenas um pesadelo tão cruel que o meu cérebro se recusava a deixá-lo desaparecer. Talvez eu ainda estivesse deitada naquela cama, doente, fraca, incapaz de me levantar, enquanto a minha mente criava uma realidade onde os meus pais continuavam vivos e eu ainda tinha tempo para mudar tudo. Mas então eu olhava para eles. Via o meu pai sentado à mesa, a conversar com a mesma naturalidade de sempre. Via a minha mãe sorrir enquanto organizava alguma coisa na cozinha. Ouvia as suas vozes pela casa. E lembrava-me de que, na minha outra vida, aqueles sons tinham desaparecido. Para sempre. Era impossível considerar aquilo apenas um sonho quando eu conseguia sentir o calor dos seus abraços. Os meus pais estavam vivos, e eu ainda conseguia andar. Apenas isso já era suficiente para me fazer querer chorar de felicidade. Também havia Kimberly. Depois de tantos anos afastadas, estar novamente







