FAZER LOGINCapítulo 4 — Celine narrando
Depois daquela conversa com Valquíria, passei o restante do dia tentando entender o que estava acontecendo. Eu conhecia aquela mulher havia anos e sabia reconhecer cada uma de suas expressões, cada mudança no tom de sua voz e até o jeito como ela caminhava pela casa quando estava irritada. Por isso, era impossível ignorar que alguma coisa havia mudado. Ela estava escondendo algo. Eu tinha certeza disso. O problema era que não fazia ideia do que poderia ser. Nos dias seguintes, a tensão dentro da mansão só aumentou. Valquíria continuava recebendo ligações que fazia questão de atender longe de Margo, alguns homens apareceram novamente na propriedade e, sempre que alguém mencionava dinheiro, ela ficava visivelmente incomodada. Eu tentava não prestar atenção, mas era impossível quando a casa inteira parecia girar em torno de um problema que ninguém queria me explicar. Ao mesmo tempo, algo ainda mais estranho começou a acontecer: Valquíria passou a me tratar bem. Não bem de verdade. Não como uma mãe trataria uma filha. Mas de uma maneira artificial, cuidadosa demais, que me deixava desconfiada. Pela primeira vez em muito tempo, ela perguntou se eu havia dormido bem. Na hora do almoço, mandou que eu me sentasse. Em outra ocasião, perguntou se eu estava cansada e disse que poderia deixar algumas tarefas para o dia seguinte. Aquilo deveria ter me deixado feliz, mas só me deixou inquieta. Naquela manhã, eu estava organizando algumas roupas no quarto de hóspedes quando ouvi a voz dela atrás de mim. — Celine. Virei-me. — Sim? Ela estava parada na porta. — Você está ocupada? A pergunta me pareceu estranha. — Estou terminando de organizar. — Pode deixar isso por alguns minutos. Franzi a testa. — Aconteceu alguma coisa? Ela sorriu. — Não precisa ficar tão assustada. Eu só quero conversar. Aquela frase me deixou ainda mais desconfiada. Valquíria entrou no quarto e se sentou em uma poltrona. Apontou para a cadeira diante dela. — Sente-se. Obedeci. Fiquei com as mãos sobre o colo, esperando. — Você está com vinte e um anos, não é? — Sim. — Vinte e um… Ela repetiu como se estivesse fazendo algum cálculo. — E nunca pensou em trabalhar fora? — Já pensei. — Por que nunca procurou? Baixei os olhos. — Eu não tive muita oportunidade. — E se tivesse? Olhei para ela. — Eu gostaria. — Mesmo tendo que sair daqui? Meu coração bateu um pouco mais rápido. — Sim. — Você não gostaria de continuar morando nesta casa? Demorei alguns segundos para responder. — Eu gostaria de ter meu próprio lugar algum dia. Ela me observou atentamente. — Que tipo de lugar? Sorri sem perceber. — Um lugar pequeno. — Pequeno? — Sim. Não preciso de uma casa grande. Comecei a falar com mais entusiasmo. — Eu gostaria de ter uma janela grande, bastante luz natural e uma parede onde pudesse colocar minhas pinturas. Talvez um jardim pequeno. Não precisa ser nada luxuoso. Valquíria permaneceu em silêncio. — E o que você faria para se sustentar? — Pintaria. Ela arqueou uma sobrancelha. — Você realmente acredita que pode viver de pintura? — Eu gostaria de tentar. — Isso não é uma profissão fácil. — Eu sei. — Pode passar anos sem ganhar dinheiro. — Eu sei. — Então por que insiste nisso? Olhei para minhas mãos. — Porque quando estou pintando, sinto que estou vivendo. Ela ficou me encarando. — E você gostaria mesmo de ir embora daqui? Meu coração apertou. — Sim. A palavra saiu quase como um sussurro. Eu não queria mentir. Por mais que aquela casa fosse o único lugar que eu conhecesse, eu sonhava todos os dias em sair dali. — Por quê? Respirei fundo. — Porque eu quero descobrir quem eu sou. Valquíria pareceu surpresa. — Você não sabe quem é? — Não completamente. Olhei pela janela. — Passei a vida fazendo o que esperavam de mim. Depois que meu pai morreu, tudo mudou. Eu só… quero ter uma oportunidade de escolher alguma coisa por mim mesma. Por alguns segundos, Valquíria não disse nada. Eu interpretei aquele silêncio como reflexão. Talvez, pela primeira vez, ela estivesse entendendo o que eu sentia. Talvez estivesse disposta a me ajudar. Era uma esperança pequena e ingênua. Mas eu tinha esperança. — Você sempre foi muito sonhadora — ela disse. Sorri. — Acho que sim. — E faria qualquer coisa para ter essa liberdade? Olhei para ela. — Eu faria qualquer coisa honesta. Valquíria sorriu. Dessa vez, porém, havia alguma coisa estranha naquele sorriso. — Entendo. Ela se levantou. — Pode voltar ao trabalho. — Está bem. Quando ela saiu, fiquei alguns segundos parada. Eu não sabia explicar por quê, mas aquela conversa tinha me deixado desconfortável. Mesmo assim, não consegui evitar uma pequena felicidade. Talvez Valquíria realmente estivesse pensando em me ajudar. Talvez aquela pergunta sobre trabalho significasse que finalmente poderia ter uma chance. No entanto, minha esperança durou pouco. Mais tarde, quando eu estava descendo as escadas com uma pilha de roupas, encontrei Margo no corredor. Ela me olhou. — O que minha mãe queria com você? — Conversar. — Sobre o quê? — Trabalho. Ela franziu a testa. — Trabalho? — Sim. — Que tipo de trabalho? — Não sei. Ela perguntou se eu gostaria de trabalhar fora. Margo ficou séria. — E você disse que sim? — Sim. — Então minha mãe vai colocar você para trabalhar fora? — Eu não sei. Ela cruzou os braços. — Engraçado. — Por quê? — Porque ela nunca se preocupou tanto com o seu futuro. Não soube o que responder. Margo se aproximou. — O que mais vocês conversaram? — Nada demais. — Você está mentindo? — Não. — Então me conta. — Eu falei que queria viver de pintura. Ela soltou uma risada. — Pintura? — Sim. — Você ainda insiste nisso? — É o que eu gosto. — Celine, seja realista. Você acha mesmo que alguém vai pagar por aqueles desenhos? Senti uma pontada no peito. — Talvez. — Você é muito ingênua. Ela pegou o celular e saiu. Fiquei olhando para ela. Margo não precisava acreditar nos meus sonhos. Eu só precisava acreditar. Naquela noite, depois do jantar, subi para o meu quarto mais cedo. Eu estava cansada, mas não conseguia dormir. Fiquei algum tempo olhando para a tela que havia escondido novamente debaixo da cama. Era uma pintura inacabada. Comecei a trabalhar nela enquanto a casa ficava silenciosa. Aos poucos, o barulho dos corredores desapareceu. Até que ouvi vozes. Parei de pintar. Era Valquíria. A voz vinha do corredor. Levantei-me e fui até a porta. Não queria escutar. Mas ouvi uma frase que me fez congelar. — Ele não pode descobrir. Fiquei imóvel. Outra voz, masculina, respondeu alguma coisa que não consegui entender. Aproximei-me da porta. — Eu preciso de mais tempo — Valquíria disse. Meu coração acelerou. — Se ele vier pessoalmente… A voz masculina ficou baixa. Valquíria respondeu: — Eu sei quem ele é. Silêncio. Então ouvi o nome. — Adalberto. O nome ficou ecoando na minha cabeça. Eu não conhecia nenhum Adalberto. Mas, pelo jeito como Valquíria pronunciou aquele nome, tive certeza de que se tratava de alguém importante. Muito importante. — Ele não vai aceitar desculpas — disse o homem. — Eu sei. — Então faça o que precisa ser feito. — E se ela descobrir? Senti meu corpo gelar. Ela? Quem? Eu? Antes que pudesse ouvir mais alguma coisa, passos se aproximaram. Corri para a cama e fingi estar procurando alguma coisa na gaveta. A porta do meu quarto se abriu. Valquíria apareceu. — Você está acordada? — Sim. Ela me observou. — Não consegue dormir? — Estava terminando uma coisa. Ela olhou para a escrivaninha. — Pintura? — Sim. Ela não respondeu. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois saiu. Assim que a porta se fechou, senti um arrepio. Alguma coisa estava muito errada. Voltei até a janela e fiquei olhando para a noite. Eu não sabia quem era Adalberto. Não sabia por que Valquíria tinha tanto medo dele. Não sabia quem era a mulher sobre quem eles estavam falando. Mas comecei a suspeitar de que tudo aquilo tinha alguma relação comigo. Naquela mesma noite, no escritório, Valquíria fechou as cortinas e colocou o telefone sobre a mesa. Diante dela estavam os documentos da dívida, algumas fotografias e informações sobre mim. Ela olhou para uma das fotografias durante alguns segundos. Depois pegou o telefone. — Eu decidi. A voz do outro lado respondeu. Valquíria respirou fundo. — Vou entregar Celine. Desligou. E, enquanto eu dormia sem saber de nada, minha madrasta acabava de tomar uma decisão que mudaria para sempre o rumo da minha vida. :::📖 Capítulo 93 — Celine narrandoEu estava começando a desconfiar seriamente de Adalberto.Não era uma desconfiança ruim. Não tinha relação com medo, traição ou qualquer coisa que pudesse me fazer pensar que ele estava escondendo algo perigoso de mim. Era simplesmente aquela sensação persistente de que havia alguma coisa acontecendo pelas minhas costas e de que, por algum motivo, ele estava decidido a não me contar.E o pior de tudo era que ele estava péssimo em esconder.Naquela manhã, por exemplo, ele estava tomando café comigo e olhando o telefone a cada poucos minutos. Quando eu entrava no cômodo, ele mudava de tela. Quando eu perguntava sobre alguma coisa, respondia rápido demais. E, quando Henrique aparecia, os dois trocavam aqueles olhares que diziam claramente que existia uma conversa da qual eu não fazia parte.Eu apoiei a xícara sobre a mesa e fiquei observando Adalberto.Ele percebeu.— O que foi?— Nada.— Você está me olhando.— Estou.— Por quê?— Porque estou tentando d
📖 Capítulo 92 — Adalberto narrandoEu nunca imaginei que chegaria o dia em que uma simples conversa sobre flores, cadeiras e iluminação seria capaz de me deixar mais nervoso do que qualquer negociação empresarial que eu já tivesse enfrentado. Mas ali estava eu, parado diante de uma mesa coberta por papéis, olhando para uma lista de fornecedores que Henrique havia preparado, enquanto tentava decidir entre duas opções de decoração para o jardim.— Você está falando sério? — Henrique perguntou pela terceira vez.Levantei os olhos.— Sobre o quê?— Sobre isso tudo.Olhei novamente para os documentos.— Claro que estou.— Você está escolhendo flores.— E?— Você nunca escolheu uma flor na sua vida.— Tem uma primeira vez para tudo.Henrique soltou uma risada.— Eu ainda não acredito que estou vendo isso.Ignorei a provocação e voltei a analisar os papéis. Eu queria uma cerimônia íntima. Nada de exageros, nada de uma festa gigantesca, nada que transformasse aquele momento em um espetáculo
📖 Capítulo 91 — Celine narrandoEu estava no ateliê desde cedo quando ouvi alguém me chamando do lado de fora. Naquele momento, eu estava tão concentrada em uma das telas que demorei alguns segundos para perceber que Helena havia entrado.— Celine, tem uma senhora querendo falar com você.Levantei os olhos.— Quem?— Ela disse que conheceu seu pai. Falou que era amiga da família.Meu coração apertou imediatamente.— Ela disse o nome?— Dona Beatriz.O nome não me era completamente estranho, mas também não conseguia associá-lo a uma lembrança específica. Limpei as mãos em um pano e deixei o pincel sobre a mesa.— Pode pedir para ela entrar.Helena assentiu e saiu.Poucos segundos depois, uma mulher de cabelos grisalhos entrou lentamente no ateliê. Ela devia ter pouco mais de sessenta anos. Vestia roupas simples e elegantes e carregava uma pequena bolsa nas mãos.Assim que nossos olhos se encontraram, ela parou.Seus olhos ficaram marejados.— Meu Deus…— A senhora está bem?Ela sorriu
📖 Capítulo 90 — Adalberto narrandoEu sempre acreditei que problemas deveriam ser resolvidos rapidamente. Quanto mais tempo uma situação permanecesse sem resposta, maior seria a chance de alguém tentar se aproveitar dela. Durante muitos anos, essa maneira de pensar funcionou para mim. Eu analisava uma ameaça, identificava quem estava por trás dela e agia antes que o problema crescesse.Talvez por isso Henrique tenha estranhado quando, naquela manhã, entrei na sala de reuniões e não dei a ordem que ele esperava.— Temos um problema sério — ele disse, colocando uma pasta sobre a mesa.Olhei para o documento.— Qual empresa?— A Montenegro Logística.Abri a pasta.— O que aconteceu?— Um contrato antigo está sendo questionado por um dos nossos parceiros. Eles alegam que houve descumprimento de algumas cláusulas e estão exigindo uma indenização considerável.Levantei os olhos.— Quanto?Henrique falou o valor.Era alto.Não o suficiente para colocar a empresa em risco, mas alto o bastant
📖 Capítulo 89 — Celine narrandoAcordei naquela manhã com a sensação de que o dia já havia começado antes mesmo de eu abrir os olhos. Havia uma lista enorme de coisas esperando por mim: telas que precisavam ser finalizadas, molduras que ainda precisavam ser escolhidas, documentos da galeria que eu precisava revisar, reuniões para organizar, materiais que chegariam durante a tarde e uma quantidade quase absurda de decisões que, até pouco tempo atrás, eu jamais teria imaginado que precisaria tomar. Ainda assim, quando abri os olhos e encontrei a luz entrando pela janela, sorri. Pela primeira vez, aquela correria não era consequência de um problema. Era consequência de um sonho crescendo diante de mim.Levantei, tomei um banho rápido e desci para tomar café. Encontrei Adalberto sentado à mesa, com o telefone na mão e alguns documentos ao lado. Ele levantou os olhos assim que me viu.— Bom dia.— Bom dia.Ele me observou por alguns segundos.— Você dormiu?— Dormi.— Quantas horas?— Não
📖 Capítulo 88 — Adalberto narrandoEu já tinha participado de reuniões muito mais importantes do que aquela. Já havia entrado em salas onde milhões estavam em jogo, negociado contratos capazes de mudar o rumo de empresas inteiras e enfrentado homens que tentaram me intimidar sem conseguir sequer me fazer piscar. Eu conhecia a sensação de pressão. Sabia controlar o nervosismo, esconder qualquer insegurança e tomar decisões mesmo quando todas as circunstâncias estavam contra mim.Mas naquela manhã, sentado ao volante enquanto levava Celine até a galeria, percebi que existia uma coisa capaz de me deixar mais atento do que qualquer negociação.Ela.Celine estava sentada ao meu lado, olhando pela janela e apertando as mãos sobre o colo. Desde que saímos da propriedade, ela havia falado pouco. Não era o silêncio tranquilo que eu já conhecia nela. Era ansiedade.Olhei rapidamente para ela.— Você está nervosa.Ela continuou olhando pela janela.— Não estou.— Está.— Talvez um pouco.Sorri.







