LOGINA tarde de 13 de setembro de 2026 trouxe um céu cinzento e pesado para o Rio de Janeiro, derramando uma chuva fina e persistente que embaçava os amplos panos de vidro da cobertura na Barra da Tijuca. O temporal lá fora parecia ditar o ritmo de dentro: lento, denso, carregado de uma umidade que colava na pele e convidava ao recolhimento.
Sentada no sofá da sala, envolta por uma manta macia de tricô, Lisa tentava se concentrar nas páginas impressas de seu manuscrito. Havia um exemplar de caneta vermelha entre os dedos, pronto para corrigir os desvios de um diálogo que parecia artificial demais para a sua protagonista. No entanto, por mais que tentasse focar nas palavras, sua mente vagava. O som abafado da água batendo contra a fachada do prédio criava uma atmosfera de isolamento quase claustrofóbica, intensificada pelo silêncio que reinava no apartamento. Apenas a dois dias do prazo limite estipulado pela aposta de 15 de setembro, Marcos encontrava-se confinado no escritório integrado ao fundo da sala. A porta de vidro translúcido estava apenas entreaberta, deixando escapar uma nesga de luz branca que cortava o piso de madeira da sala de estar e permitindo que Lisa visse de relance a silhueta imóvel dele, curvada sobre a mesa e iluminada pelo brilho frio do monitor. Aos trinta e cinco anos, o homem de cabelos loiros e olhos azuis carregava nos ombros muito mais do que os relatórios trimestrais e as demandas corporativas da Albuquerque Technologies. Dentro daquele escritório, Marcos encarava a tela do computador sem conseguir absorver uma única linha de texto. Em uma aba secundária do navegador, minimizada, mas piscando discretamente na barra de tarefas, uma conversa aberta no aplicativo de mensagens exibia o lembrete implacável enviado por César na véspera: "O relógio tá zerando, meu caro CEO. A Ferrari vermelha tá estacionada te esperando. Amanhã a gente confere o saldo final." O estômago de Marcos revirou com uma náusea familiar e amarga. O prêmio que um dia, em uma tarde descontraída de praia em setembro de 2023, parecera apenas uma brincadeira pretensiosa entre amigos endinheirados agora soava como a lápide de sua própria felicidade. Ele sabia perfeitamente que já havia vencido a aposta no sentido técnico — afinal, resistira por três anos exatos ao lado de Lisa sem romper a relação, cumprindo a regra estúpida de conquistá-la. Mas a vitória tinha o gosto podre da derrota. Ele já não queria a Ferrari vermelha. Ele não dava a mínima para o carro, para o status ou para a zombaria dos amigos. Tudo o que ele queria era continuar tendo Lisa, acordar ao lado dela e continuar ouvindo sua risada todas as manhãs. E quanto mais se aproximava a data de encerramento, mais o peso da mentira sufocava sua respiração. Como seria olhar nos olhos de uma mulher tão íntegra, inteligente e emocionalmente marcada pelas perdas do passado para confessar que o homem que ela amava havia se aproximado dela por causa de um troféu de aposta? A culpa não era apenas um incômodo; era um veneno diário que corroía cada segundo daquela união. Deu dois cliques rápidos para fechar a aba do chat, como se quisesse banir a realidade da tela, embora soubesse que ela continuava cravada em sua consciência. Na sala, percebendo a demora excessiva do namorado, Lisa levantou-se do sofá com cuidado, deixando o manuscrito e a caneta sobre a mesa de centro. Ela caminhou descalça até a cozinha americana, onde preparou uma nova xícara de chá de erva-cidreira — o aroma herbal subindo suavemente no ar —, e seguiu em direção ao escritório. Um leve toque com os nós dos dedos na porta de vidro translúcido interrompeu os pensamentos de Marcos. Antes que ele pudesse responder, Lisa empurrou a porta devagar e apareceu ali, sorrindo de leve. A luz suave da sala contornava sua silhueta, destacando a pele negra uniforme, os traços marcantes e a cascata de cachos volumosos que caíam sobre os ombros da blusa de algodão. O contraste entre a leveza dela e o caos absoluto que habitava o interior de Marcos era quase doloroso de se contemplar. — Você está há horas trancado aí, Marcos — disse Lisa, com a voz suave e melodiosa, encostando-se no batente da porta e fitando-o com um misto de carinho e repreensão afetuosa. — A tecnologia vai acabar dominando o mundo, mas vai conseguir destruir o meu namorado antes disso se você não parar um pouco. Marcos forçou um sorriso, sentindo a rigidez em seus músculos faciais. Ele levantou-se da cadeira de couro preto, ajustou os punhos da camisa e caminhou até ela em passos lentos. Quando parou a centímetros de distância, suas mãos grandes envolveram a cintura de Lisa com uma firmeza possessiva, puxando-a imediatamente para perto como se buscasse refúgio na única coisa real, pura e verdadeira de sua existência. Ele enterrou o rosto na curva do pescoço dela, fechando os olhos com força e respirando fundo o perfume cítrico e leve que ela usava. — Eu só estava resolvendo algumas pendências chatas, meu amor — murmurou ele, a voz rouca abafada contra a pele dela. — Queria deixar tudo limpo, tudo resolvido para os próximos dias. Afinal... daqui a pouco nós temos uma data muito importante para comemorar. Lisa sorriu contra o ombro dele, sentindo uma onda de calor aconchegante preencher seu peito. Ela ergueu uma das mãos para acariciar os cabelos loiros de Marcos com suavidade, entrelaçando os dedos nos fios macios, completamente inconsciente de que a data que habitava a mente dele como um relógio de contagem regressiva não era o aniversário de namoro de 20 de setembro, mas sim o término do prazo da maldita aposta em 15 de setembro. — Três anos... Quem diria, né? — suspirou Lisa, levantando o rosto para fitá-lo nos olhos azuis que pareciam guardar tempestades inexplicáveis. — Passou tão rápido. E pensar que você era só aquele cara meio perdido, tentando entender o cardápio daquela cafeteria... Se me dissessem na época que eu ia encontrar o homem da minha vida ali, bem no meio da minha rotina corrida, eu não teria acreditado em uma palavra sequer. Cada palavra proferida por Lisa funcionava como um cutelo afiado cortando a consciência de Marcos. O amor genuíno, desinteressado e profundo que ela depositava nele — um amor construído sobre a simplicidade de conversas na madrugada, xícaras de chá, risadas espontâneas e uma confiança cega na sua índole, sem a menor ideia de sua fortuna multibilionária, de seu sobrenome pesado ou da aposta sórdida que dera origem a tudo — era, ao mesmo tempo, sua maior bênção e sua maior condenação. Ela o amava pelo que acreditava que ele era. E ele a amava com cada célula do seu corpo, prisioneiro de um castelo de cartas que desabaria ao menor sopro. — Eu te amo, Lisa — disse ele, com uma intensidade feroz, a voz falhando por uma fração de segundo e traindo o desespero silencioso que o consumia por dentro. — Nunca duvide disso. Nunca se esqueça disso, por favor. Surpresa com a urgência repentina e quase desesperada no tom dele, Lisa franziu o cenho em um gesto de ternura confusa, mas abriu um sorriso doce logo em seguida, interpretando aquilo apenas como o lado romântico e protetor daquele homem que ela julgava conhecer tão bem. Ela apoiou as mãos no peito largo dele, sentindo o ritmo acelerado e forte de suas batidas cardíacas. — Eu também te amo, meu homem simples — respondeu ela, rindo baixinho, com os olhos brilhando de afeto genuíno, totalmente inconsciente de que aquela palavra, dita com tanto carinho, era a ironia mais cruel e dolorosa de toda a história deles. Marcos a abraçou ainda mais forte, enterrando-a contra o seu corpo como se pudesse fundir os dois e impedir que o mundo exterior — e o dia 15 de setembro que se aproximava inexoravelmente — os alcançasse. Na sala escura, enquanto a chuva continuava a fustigar os vidros da cobertura, o tempo parecia encolher. Faltavam menos de quarenta e horas para o fim do prazo, e o segredo que ele guardava com tanto terror ameaçava ruir, levando consigo tudo o que ele mais amava na vida.O sol de 17 de setembro de 2026 nasceu tingindo o céu do Rio de Janeiro com um tom pálido, que mal conseguia aquecer a atmosfera pesada dentro do apartamento. Para o mundo exterior, a vida seguia exatamente o seu curso normal. Mas, para Lisa, o chão havia mudado de consistência; cada passo parecia exigir um cálculo mental exato para não desabar.A manhã seguiu o ritual de sempre. Lisa vestiu seu uniforme simples, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo prático e saiu para o turno na cafeteria onde trabalhava. O aroma de café torrado e pão fresco que antes lhe trazia conforto agora parecia distante, abafado pela tempestade de pensamentos que travava em sua mente.Enquanto limpava uma mesa e atendia os clientes com um sorriso educado e automático, suas mãos trabalhavam sozinhas, enquanto a mente vagava por memórias recentes. Agora, com a nova perspectiva, pequenas lembranças ganhavam um peso completamente diferente.Ela lembrou da facilidade impressionante com que Marcos
O som do edredom arrastando no colchão ainda ecoava em sua mente quando Lisa deixou o quarto às pontas dos pés. A desculpa de que iria à cozinha beber água fora o único recurso possível para escapar daquele abraço convidativo e daquela voz mansa que, naquele momento, soavam como uma zombaria cruel.Na penumbra da cozinha, o silêncio era absoluto. Lisa abriu a torneira com extrema cautela, esperando o fluxo de água esfriar antes de encher um copo de vidro. Suas mãos tremiam levemente. Ela bebeu um gole longo, tentando acalmar o nó sufocante que travava sua garganta, mas o alívio não veio. A água fria desceu pela garganta, mas não conseguiu aliviar o nó que apertava seu peito.Ela apoiou as mãos na borda da pia, olhando para a escuridão do corredor que levava ao quarto. Voltar para aquela cama era impensável. Deitar-se ao lado de Marcos, fingindo ser a mesma mulher de vinte e quatro horas atrás, exigiria uma habilidade cênica que ela simplesmente não possuía.Seus olho
A luz azulada da tela do celular era a única iluminação na penumbra do quarto. Sentada na poltrona ao lado da janela, Lisa sentia o ar denso da madrugada pesar sobre os ombros, mas o sono fugira de sua mente, substituído por uma vigília gélida e metódica. O nome na barra de pesquisa permanecia inalterado: Albuquerque.Nos documentos de Marcos e nas correspondências eventuais que chegavam ao apartamento, ela sempre vira aquele sobrenome com total naturalidade. Em um país de dimensões continentais, era lógico que houvesse milhares de pessoas compartilhando a mesma nomenclatura. No entanto, à medida que os primeiros resultados da busca começavam a se acumular, a ilusão de casualidade começou a ruir.Lisa rolou a tela devagar, deslizando o dedo pelos links com a cautela de quem pisa em terreno instável. O sobrenome não aparecia em registros corriqueiros; ele surgia associado a portais de economia, notícias corporativas de grande circulação e menções a holdings de investimentos
A garoa fina ainda caía sobre a calçada da Barra da Tijuca quando Lisa levou a mão ao bolso do casaco, tateando o tecido em busca do chaveiro. Apenas o forro vazio. Com um sobressalto seco, a memória a atingiu com força: o molho de chaves da cafeteria continuava exatamente onde ela o deixara minutos antes, sobre a mesinha do home office do apartamento, a poucos metros da porta do escritório onde Marcos conversava com os amigos.Lisa parou junto a um poste de iluminação, encarando o próprio reflexo borrado na vitrine de uma loja fechada. Uma risada amarga, curta e incrédula escapou de seus lábios.— Como eu poderia lembrar de uma chave... — sussurrou para si mesma, sentindo o peito apertar em uma dor surda. — ...quando acabei de descobrir que os últimos três anos da minha vida talvez tenham sido construídos sobre uma mentira?Ela respirou fundo, tentando conter o tremor que ameaçava desestabilizar suas pernas. Não podia se dar ao luxo de fraquejar ali na rua, muito me
O dia 16 de setembro de 2026 amanheceu com um céu de chumbo sobre a Barra da Tijuca, despejando uma garoa fina que embaçava os vidros dos prédios e empurrava os pedestres apressados sob os toldos do comércio. Dentro do apartamento, o aroma coado de café fresco misturava-se ao silêncio matutino. Lisa terminava de fechar os botões da blusa social em frente ao espelho do quarto, ajustando a gola com gestos mecânicos, enquanto tentava convencer a si mesma de que a sensação de peso em seu peito nos últimos dias não passava de cansaço acumulado.Ela era formada em Letras, escrevia seus próprios livros digitais com a esperança silenciosa de um dia ver seu nome impresso em capas de destaque, mas a realidade prática da sua rotina ainda passava por ali: a cafeteria onde trabalhava para ajudar no sustento e onde, ironicamente, conhecera Marcos quase três anos atrás. O balcão de madeira escura, o cheiro de grãos moídos na hora, o som da máquina de espresso — tudo naqueles anos estivera ent
CAPÍTULO 6 — A NOITE EM QUE TUDO MUDOUA madrugada de 16 de setembro de 2026 avançava silenciosa sobre a Barra da Tijuca. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava exatamente duas horas e quarenta minutos da manhã. Na penumbra do quarto, o ar parecia denso, carregado por uma eletricidade invisível que impedia o descanso.Marcos jazia deitado de costas, com os olhos azuis abertos e fixos no teto branco, iluminado apenas pelo reflexo difuso dos faróis dos carros que cruzavam a avenida lá embaixo. A respiração dele era lenta, controlada, mas trazia o peso de uma exaustão profunda. A pressão daquele 15 de setembro — o término oficial de um prazo que ele acompanhava de perto e que mexia profundamente com suas emoções — o esmagava por dentro, mesmo que ele guardasse a sete chaves o segredo do que realmente se passava em sua vida.Ao seu lado, Lisa mantinha os olhos fechados, mas sua mente estava em completo estado de alerta.Horas antes, quando o relógio se aproxi







