LOGINLucy Se alguém me dissesse, há um ano, que eu estaria de pé em frente a um espelho de moldura dourada, vestindo camadas de seda e renda francesa, enquanto o perfume de peônias frescas invadia meus pulmões, eu teria rido. Ou teria chorado de medo.Naquela época, a única coisa que eu esperava do futuro era o anonimato e a sobrevivência. Eu era uma sombra, um sussurro, uma mentira chamada Francine. Uma farsa, com medo da vida, com medo de ser presa, ou viver fugindo até sua morte, vivendo os dias horriveis e humilhantes como se a vida não tivesse sentido. Como se o mundo fosse um lugar cinsa vazio que mantem todo mundo sozinho, sem dinheiro e triste. Essa era a minha realidade. Uma misseravel, sozinha e desesperada, com um piguinho bem pequeno de esperança no coração, torcendo que o universo me desse uma mãozinha, um empurão pra a direção certa. Ao inves de me jogar como de costume pelo penhasco.Mas hoje, o reflexo que me devolve o olhar é o de Lucy. Uma mulher completa, amada e, acima
Lucy Se alguém me dissesse, há um ano, que eu estaria de pé em frente a um espelho de moldura dourada, vestindo camadas de seda e renda francesa, enquanto o perfume de peônias frescas invadia meus pulmões, eu teria rido. Ou teria chorado de medo.Naquela época, a única coisa que eu esperava do futuro era o anonimato e a sobrevivência. Eu era uma sombra, um sussurro, uma mentira chamada Francine. Uma farsa, com medo da vida, com medo de ser presa, ou viver fugindo até sua morte, vivendo os dias horriveis e humilhantes como se a vida não tivesse sentido. Como se o mundo fosse um lugar cinsa vazio que mantem todo mundo sozinho, sem dinheiro e triste. Essa era a minha realidade. Uma misseravel, sozinha e desesperada, com um piguinho bem pequeno de esperança no coração, torcendo que o universo me desse uma mãozinha, um empurão pra a direção certa. Ao inves de me jogar como de costume pelo penhasco.Mas hoje, o reflexo que me devolve o olhar é o de Lucy. Uma mulher completa, amada e, acima
LucyAs semanas que se seguiram foram as mais intensas e doces da minha vida. Com a ajuda dos advogados de peso do Demétrio e as provas irrefutáveis de violência que o Rafael e a Giselly ajudaram a reunir, o processo para regularizar minha situação avançou rápido. Eu não precisava mais me esconder. Pela primeira vez em anos, eu podia assinar "Lucy" em um documento oficial sem sentir que estava assinando minha própria sentença de morte.Mas a maior mudança não estava nos papéis, estava dentro daquela mansão.— Lucy! Lucy! Olha o que eu fiz na escola hoje! — a Maria Luiza entrou correndo pela sala, tropeçando nos próprios pés de tanta empolgação.Ela estendeu um desenho feito com giz de cera. No papel, havia quatro figuras grandes e duas menores.— Quem são esses, meu amor? — perguntei, puxando-a para o meu colo.— Aqui é o tio Demétrio, aqui é o Luiz, aqui sou eu e aqui é você — ela apontou com o dedinho sujo de tinta. — E esses dois aqui no cantinho são o Alfredo e a Gi. É a nossa fam
LucyVoltamos para a mansão no dia seguinte. O ar parecia diferente, como se as janelas tivessem sido abertas depois de anos de poeira acumulada. Helena se fora, e com ela, todo aquele peso de falsidade que sufocava os corredores. As crianças correram pelo jardim assim que descemos do carro, gritando de alegria por estarem de volta ao seu reino, mas eu... eu ainda me sentia estranha. Era a primeira vez que eu entrava naquela casa como Lucy.— Está tudo bem? — a voz de Demétrio soou perto do meu ouvido. Ele parou ao meu lado, observando minha hesitação.— É estranho — confessei, olhando para as minhas próprias mãos. — Por meses, eu atendi por outro nome. Eu me forcei a esquecer quem eu era para proteger a minha vida. Agora que não preciso mais me esconder, parece que estou aprendendo a andar de novo.Demétrio segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. O calor da pele dele me trouxe de volta para o presente.— Nós vamos aprender juntos — ele disse, com aquela voz grave que sempre me d
LucyO saguão do hotel de luxo para onde o Demétrio nos levou era frio e impessoal, mas parecia uma fortaleza comparado à mansão invadida pela sombra da Helena. Eu estava no quarto com o Luiz e a Maria, tentando manter a calma enquanto eles assistiam a um desenho animado, mas meus olhos não saíam da porta. Cada vez que o celular vibrava, meu estômago dava um solavanco.Demétrio estava no andar de baixo, em uma sala de conferências com Rafael e o exército de advogados. Por volta das três da tarde, ele subiu. A expressão dele não era de derrota, era de uma fúria contida, daquelas que precedem uma tempestade.— Ela está na delegacia da mulher — ele disse, fechando a porta atrás de si. — Helena entrou com a denúncia contra você, Lucy. Ela alegou que você é uma fugitiva perigosa e que eu estou sendo cúmplice.— E agora? — perguntei, sentindo o pânico subir pela garganta. — Vão me levar?Demétrio caminhou até mim e segurou meu rosto.— Não. O Rafael e a Giselly acabaram de chegar. Eles enco
LucyO sol mal tinha começado a despontar no horizonte quando ouvi o barulho de portas de armário batendo no andar de cima. O clima na mansão estava elétrico. Depois de uma noite quase sem sono, onde Demétrio e eu ficamos abraçados no sofá do escritório conversando sobre o futuro, o despertar foi um choque de realidade.Helena não era o tipo de mulher que aceitava a derrota em silêncio. Ela era uma predadora, e predadores acuados são os mais perigosos.Desci para a cozinha e encontrei o Alfredo com um semblante preocupado, servindo um café forte.— Ela está descontrolada, Francine... digo, Lucy — ele corrigiu, dando um pequeno sorriso triste. — Está jogando roupas nas malas e gritando no telefone.— Ela sabe que o cerco fechou, Alfredo — respondi, pegando uma xícara. — A Giselly e o Rafael devem ter encontrado algo grande na empresa.Antes que eu pudesse dar o primeiro gole, Helena invadiu a cozinha. Ela estava impecável como sempre, mas os olhos tinham um brilho maníaco. Ela ignorou







