LOGINLucia finalmente percebeu.
— Está rindo?
Ele levantou os olhos do celular.
— Não.
— Está sim.
— Talvez.
Ela virou o rosto na direção dele, reconhecendo a voz.
— Você de novo.
— Eu poderia dizer o mesmo.
— Mas eu venho aqui quase todos os dias.
Vincenzo ficou em silêncio por um instante.
— Então eu sou o intruso.
— Ainda não decidi.
Ela voltou a atenção para o notebook, passando os dedos pelo teclado para verificar se a máquina havia voltado a funcionar. Vincenzo observou a maneira natural com que ela lidava com aquilo. Não pediu ajuda a ninguém. Não demonstrou constrangimento. Apenas esperou o computador responder e continuou de onde havia parado.
— Você trabalha aqui? — ele perguntou.
— Não.
— Então por que vem todos os dias?
Lucia apoiou o queixo na mão.
— Porque gosto daqui.
— Só isso?
— Só isso já é bastante.
Ela fez uma pausa antes de continuar:
— Em casa é muito silencioso.
Vincenzo não respondeu.
Lucia passou os dedos pela borda da caneca.
— Não que eu não goste de silêncio. Mas às vezes gosto de ouvir gente conversando, a porta abrindo, a máquina de café funcionando... Essas coisas. Aqui sempre acontece alguma coisa.
Havia uma simplicidade naquela explicação que o fez prestar mais atenção.
Para ele, silêncio significava segurança. Significava que ninguém estava chegando, que nenhum telefone estava tocando, que nenhum problema havia surgido. Para Lucia, o silêncio parecia ser justamente o contrário. Uma casa silenciosa demais lembrava-lhe que estava sozinha.
— E você consegue trabalhar com todo esse barulho? — ele perguntou.
— Com os fones, sim.
Ela apontou para os próprios ouvidos.
— Além disso, já aprendi a ignorar pessoas curiosas.
Vincenzo arqueou uma sobrancelha.
— Pessoas curiosas?
— Você, por exemplo.
— Eu fiz duas perguntas.
— Três.
Ele quase sorriu.
— Está contando?
— Estou.
Lucia sorriu também.
E, pela primeira vez desde que havia entrado naquele lugar, Vincenzo percebeu que estava gostando daquela conversa.
Não porque fosse particularmente importante. Não havia negócios envolvidos, nenhuma informação que pudesse ser útil para ele. Lucia não estava tentando impressioná-lo, não sabia quem ele era e, aparentemente, não tinha nenhum interesse em descobrir. Ela simplesmente conversava.
Isso era incomum.
Muito mais do que deveria.
O celular de Vincenzo vibrou sobre a mesa.
Ele olhou para a tela. Uma mensagem de Matteo.
“Precisamos confirmar o encontro de amanhã”.
Outra apareceu logo abaixo.
“E há uma movimentação estranha perto do armazém do norte”.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
Lucia percebeu a mudança, embora não pudesse enxergá-la.
— Problemas?
— Trabalho.
— Então você deveria atender.
— Não é urgente.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Você tem uma mania estranha.
— Qual?
— Sempre parece estar esperando que alguma coisa dê errado.
Vincenzo encarou Lucia.
A frase havia sido dita sem julgamento. Apenas como uma constatação.
— Talvez eu tenha motivos.
— Talvez.
Ela voltou a trabalhar.
E Vincenzo percebeu que aquela resposta simples havia encerrado o assunto. Lucia não insistiria. Não faria perguntas sobre seu trabalho, não tentaria descobrir o que havia na tela do celular. Respeitava o espaço dele da mesma maneira que esperava que respeitassem o dela.
Ele guardou o telefone no bolso.
— Seu computador é muito antigo?
Lucia fez uma pequena careta.
— Essa é uma maneira educada de perguntar se ele está quase morrendo?
— É.
— Então, sim. Está quase morrendo.
— Há quanto tempo você o tem?
— Alguns anos.
— E nunca trocou?
— Não é tão simples.
Ela falou sem amargura, mas Vincenzo percebeu a pequena pausa antes da resposta.
Não perguntou o motivo.
Ainda não.
Apenas tomou o último gole do café e olhou para o notebook antigo sobre a mesa.
Pela primeira vez, não pensou em Lucia como a filha de Alberto Bellini.
Pensou nela simplesmente como Lucia.
E isso, por algum motivo, parecia ser muito mais perigoso.
Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando-a.
Lucia havia voltado completamente para o próprio mundo. Os dedos se moviam pelo teclado em um ritmo tranquilo, interrompendo-se de vez em quando para que ela ouvisse o que o leitor de tela dizia através dos fones. Quando alguma coisa não saía como esperava, ela inclinava levemente a cabeça, como se estivesse tentando entender onde havia cometido um erro. Às vezes, murmurava pequenas coisas para si mesma. Outras, sorria sozinha quando encontrava alguma frase que aparentemente a agradava.
Era estranho observá-la.
Não porque ela fosse cega. Vincenzo já havia entendido, desde o primeiro encontro, que Lucia não esperava que ninguém fizesse as coisas por ela. O que chamava sua atenção era justamente a maneira como ela parecia ter construído uma rotina própria, cheia de pequenos detalhes que faziam sentido apenas para ela.
O café estava quase terminando.
Ela havia deixado a caneca um pouco à direita do notebook, sempre no mesmo lugar. O celular estava ao lado esquerdo. A bolsa permanecia presa à lateral da cadeira, e o bastão dobrável estava apoiado contra a perna da mesa. Nada parecia estar ali por acaso.
Vincenzo percebeu que, quando precisava encontrar alguma coisa, Lucia não procurava às cegas. Seus dedos percorriam a superfície da mesa com segurança até encontrar o objeto desejado. Quando o celular vibrava, ela sabia exatamente onde estava. Quando alguém passava perto demais, afastava ligeiramente a cadeira sem precisar perguntar o que estava acontecendo.
Ela havia aprendido a conhecer o espaço.
E, de alguma maneira, aquilo dizia muito mais sobre ela do que qualquer explicação.
Vincenzo apoiou o braço sobre a mesa e ficou alguns segundos olhando para o próprio café vazio.
Não tinha pressa para ir embora.
A constatação o incomodou.
Lucia finalmente percebeu.— Está rindo?Ele levantou os olhos do celular.— Não.— Está sim.— Talvez.Ela virou o rosto na direção dele, reconhecendo a voz.— Você de novo.— Eu poderia dizer o mesmo.— Mas eu venho aqui quase todos os dias.Vincenzo ficou em silêncio por um instante.— Então eu sou o intruso.— Ainda não decidi.Ela voltou a atenção para o notebook, passando os dedos pelo teclado para verificar se a máquina havia voltado a funcionar. Vincenzo observou a maneira natural com que ela lidava com aquilo. Não pediu ajuda a ninguém. Não demonstrou constrangimento. Apenas esperou o computador responder e continuou de onde havia parado.— Você trabalha aqui? — ele perguntou.— Não.— Então por que vem todos os dias?Lucia apoiou o queixo na mão.— Porque gosto daqui.— Só isso?— Só isso já é bastante.Ela fez uma pausa antes de continuar:— Em casa é muito silencioso.Vincenzo não respondeu.Lucia passou os dedos pela borda da caneca.— Não que eu não goste de silêncio. Ma
Na manhã seguinte, Vincenzo acordou antes do despertador.O quarto estava escuro.Ainda era cedo.Ele ficou alguns segundos olhando para o teto antes de se levantar.A rotina não mudava.Banho.Terno.Relógio.Telefone.Café.Carro.Trabalho.Nada diferente.Até que, durante o café da manhã, seu celular vibrou.Era Matteo.“Encontramos Alberto”.Vincenzo deixou a xícara sobre a mesa.“Onde?”A resposta veio poucos segundos depois.“Em um bar. Bebendo desde ontem.”Vincenzo fechou os olhos por um instante.É claro.“Traga-o.”Depois de alguns segundos, outra mensagem apareceu.“Tem mais uma coisa”.Vincenzo esperou.“Descobrimos que ele está praticamente sem dinheiro. A dívida não foi usada para manter a casa ou pagar contas. Quase tudo foi para bebida e apostas”.Vincenzo olhou para a tela.Aquilo não o surpreendia.Mas havia outra informação no relatório que chamou sua atenção.“A filha ainda mora com ele”.Lucia.Ele deixou o celular sobre a mesa.Por algum motivo, a imagem dela na
Do lado de fora da cafeteria, Vincenzo parou por alguns segundos antes de entrar no carro.A reunião.O trabalho.Alberto.Tudo deveria ocupar seus pensamentos.Mas, contra sua vontade, a conversa continuava voltando."Sua voz é familiar."Ele abriu a porta do carro.Antes de entrar, olhou através da vitrine.Lucia continuava sentada.Ela havia aberto um pequeno caderno sobre a mesa.Passou os dedos pelas páginas, procurando alguma coisa, e então começou a escrever.Vincenzo observou por alguns segundos.Não sabia o que ela estava escrevendo.Não deveria se importar.Entrou no carro.— Para a reunião — disse ao motorista.O carro começou a se afastar.Vincenzo olhou para a cafeteria pelo retrovisor até que ela desaparecesse atrás dos outros veículos.Só então percebeu uma coisa.Naquela manhã, ele havia ido até a cafeteria apenas porque precisava de um café.Mas saiu de lá lembrando de uma mulher que, provavelmente, sequer saberia descrever seu rosto.E isso era...Inesperadamente per
Naquela noite, Vincenzo não pensou novamente em Lucia Bellini.Pelo menos foi o que disse a si mesmo.Até o dia seguinte.A manhã havia começado como todas as outras.Vincenzo chegou à empresa pouco depois das oito, atravessou o saguão sem diminuir o passo e recebeu os cumprimentos discretos dos funcionários. Alguns desviavam os olhos quando ele passava. Outros faziam um pequeno aceno com a cabeça.Ele não se importava.Já estava acostumado.No elevador, verificou algumas mensagens no celular enquanto subia.Três delas eram de Matteo.A primeira informava que um dos carregamentos chegaria naquela tarde.A segunda dizia que a reunião das onze havia sido antecipada.A terceira era sobre Alberto Bellini.Ainda não encontramos.Vincenzo leu a mensagem uma segunda vez.Guardou o telefone no bolso.As portas do elevador se abriram.— Bom dia, senhor Moretti.Ele apenas assentiu.Seu escritório estava exatamente como havia deixado na noite anterior.A mesma mesa.Os mesmos documentos.A mesm
Vincenzo Moretti não precisava levantar a voz para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava.Sentado atrás da grande mesa de madeira escura em seu escritório, ele analisava alguns documentos enquanto a cidade começava a despertar do outro lado das janelas.O relógio marcava oito e quarenta e sete.Uma xícara de café permanecia intocada ao lado de sua mão direita. Sobre a mesa havia contratos de importação, relatórios financeiros e uma pasta preta que, apesar de parecer comum, continha informações que jamais seriam encontradas nos arquivos oficiais da empresa.Vincenzo terminou de ler a última página.— Entre.A voz veio depois de duas batidas na porta.Matteo entrou e fechou a porta atrás de si.— Bom dia.Vincenzo ergueu os olhos.— O devedor?— Ainda não apareceu.Ele fechou a pasta.— E o dinheiro?— Também não.Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.Não parecia surpreso.— Quanto tempo?— Quatro semanas desde o último pagamento.— Quatro semanas não são quatr
Vincenzo Moretti não precisava gritar para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava a voz.Naquela manhã, sentado atrás da grande mesa de madeira escura de seu escritório, ele lia um relatório como se estivesse diante de qualquer outro documento comercial.O relógio na parede marcava oito e quarenta e três.Sobre a mesa havia uma xícara de café que permanecia intocada, alguns contratos, um telefone e uma pasta preta que Vincenzo ainda não havia aberto.Do lado de fora, a cidade começava a despertar.Carros passavam pelas ruas estreitas. Funcionários entravam nos prédios comerciais. Restaurantes começavam a receber suas primeiras entregas.E, para qualquer pessoa que olhasse para aquele edifício, Vincenzo Moretti era apenas o proprietário de uma empresa de importação e distribuição.Era uma explicação conveniente.E suficientemente verdadeira.— Ele chegou.Vincenzo ergueu os olhos.Seu braço direito, Matteo, permanecia junto à porta.— Mande entrar.Poucos segundos depois, um







