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CAPÍTULO 5

Autor: Alan Rios
last update Fecha de publicación: 2026-06-25 00:25:14

Amália fingiu que não tinha dito nada. Depois daquele “não confie em ninguém nesta casa”, ela simplesmente virou o rosto e começou a andar pelo corredor como se tivesse comentado apenas que talvez chovesse. Eu fiquei parada por um segundo, com a aliança pesando no dedo e Rafael ainda virado na nossa direção, lá dentro da sala, como se tivesse escutado cada sílaba.

O problema é que ele era cego. Supostamente cego. E mesmo assim aquela sensação de que ele percebia demais não saía de mim. Talvez fosse paranoia minha. Também, pudera. Em menos de duas horas, eu tinha saído de um hospital público, assinado um contrato de casamento com um bilionário, conhecido uma ex-noiva venenosa, sido tocada na cintura pelo meu marido falso e recebido um aviso de uma governanta com cara de quem sabia onde estavam enterrados os corpos.

Segui Amália pelo corredor. A mansão era enorme, bonita de um jeito ofensivo. Tudo brilhava, tudo parecia caro, tudo parecia pensado para fazer uma pessoa comum lembrar que não pertencia àquele lugar. Quadros grandes, vasos enormes, lustres, tapetes macios, paredes claras com detalhes dourados. Mas não era um exagero alegre. Era frio, silencioso, pesado. Casa de rico às vezes parece cenário de velório permanente.

— A senhora vai precisar de alguma coisa? — Amália perguntou, sem olhar para mim.

— Primeiro: não me chama de senhora. Segundo: preciso saber se aquilo que você falou foi paranoia sua ou se eu realmente devo começar a dormir com um olho aberto.

Ela parou diante de uma porta dupla, escura, bonita demais para ser só uma porta.

— Nesta casa, dona Lia, dormir com os dois olhos fechados é privilégio de quem não sabe de nada.

Que ótimo. A governanta falava em charada. Era só o que faltava.

— E você sabe de muita coisa?

Ela colocou a mão na maçaneta.

— Sei o suficiente para ainda estar viva.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, Amália abriu a porta. A suíte era absurda. Maior do que a casa onde eu morava com minha mãe. Tinha uma cama enorme no centro, cortinas claras, sofá perto da janela, uma lareira inútil para esse calor dos infernos e duas portas: uma para o banheiro e outra que devia ser o closet. Tudo em tons de creme, madeira escura e dourado. Bonito, sim. Mas bonito daquele jeito que dá raiva, porque eu passei meses tentando conseguir uma maca decente para minha mãe enquanto uma pessoa dormia num quarto com espaço para uma enfermaria inteira.

— Essa é a suíte do senhor Rafael — Amália disse.

— E a minha?

Ela ficou em silêncio.

Eu olhei para ela.

— Não. Não, não, não. Nem fodendo.

— Dona Lia…

— Não tem dona Lia. Eu perguntei onde é o meu quarto.

— Este é o quarto.

Eu ri. De novo. Minha vida tinha virado uma sequência de risadas nervosas.

— Claro. Porque fingir casamento não bastava. Tinha que ter pacote completo com hospedagem no quarto do marido falso.

Amália fechou a porta atrás de nós, como se aquilo não pudesse vazar.

— A família observa tudo. Funcionários também. Se a senhora dormir em outro quarto, vão saber.

Olhei para a cama. Era enorme, mas naquele momento parecia uma armadilha com lençol caro. Eu não era ingênua. Rafael podia dizer que ninguém falava em dividir cama, mas eu também não era besta de achar que um homem daquele, bonito pra caralho, frio, mandão, dormindo a três metros de mim, não ia deixar o ar estranho. Já tinha ficado estranho com a mão dele na minha cintura. Imagina com porta fechada.

— Ele dorme aqui hoje?

— Sim.

— Que maravilha. Adoro quando minha vida se transforma num sequestro com decoração de revista.

Amália não sorriu, mas os olhos dela suavizaram um pouco.

— O banheiro tem chave. A porta da suíte também. Se quiser, pode trancar por dentro.

— E ele tem cópia?

Ela demorou meio segundo a mais do que deveria.

— Essa casa é dele.

— Traduzindo: tem.

Amália saiu para verificar se minha mãe já tinha chegado à clínica, e eu fiquei sozinha. Pela primeira vez no dia, o silêncio bateu de verdade. Olhei para minha aliança, para aquela cama absurda, para meu reflexo no espelho enorme perto do closet. Cabelo preso de qualquer jeito, roupa simples, bolsa barata jogada no sofá. Uma esposa de aluguel mesmo. Que humilhação.

Entrei no closet por curiosidade e quase xinguei alto. Havia roupas femininas penduradas. Vestidos, blusas, sapatos, camisolas, peças íntimas dobradas em gavetas. Tudo no meu tamanho. Meu tamanho exato. Aquilo não me encantou. Me deu medo.

Rafael não tinha improvisado nada. Ele já tinha planejado minha presença ali. Até o que eu vestiria. Até o que eu usaria para dormir no quarto dele. Peguei uma camisola pelo cabide. Era bonita, clara, macia, discreta até. Mas na minha mão parecia uma provocação.

— Nem morta — murmurei.

— Pelo seu tom, imagino que tenha encontrado as camisolas.

Virei rápido. Rafael estava na porta do closet, com a bengala em uma das mãos e a mesma calma irritante de sempre. Eu nem tinha ouvido a suíte abrir.

— Que susto, porra.

— Você anda falando isso demais.

— E o senhor anda entrando sem avisar demais.

Ele inclinou o rosto na minha direção. O closet não era pequeno, claro, porque rico até para guardar roupa precisa de apartamento. Mesmo assim, com ele ali, o espaço pareceu diminuir. O cheiro dele ocupou tudo antes que eu conseguisse fingir indiferença.

— Encontrou as roupas — ele disse.

— Encontrei uma coleção completa de figurino para esposa comprada.

— São roupas suas.

— Minhas? Eu nem escolhi.

— Agora escolhe.

— Que generoso. O sequestro vem com figurino livre.

Ele deu um passo para dentro do closet. Eu recuei por instinto e bati de leve na prateleira atrás de mim. Rafael parou perto demais. Não encostou, mas a distância era pequena o bastante para meu corpo entender como ameaça. Ou como outra coisa. E eu odiei essa segunda possibilidade.

— Você não precisa ter medo de mim — ele disse.

— Eu não tenho medo.

— Então por que recuou?

— Porque o senhor ocupa espaço demais.

A boca dele quase sorriu.

— E você mente mal quando está sem saída.

Engoli seco. Mexi no cabide sem perceber, e o som pequeno pareceu alto demais naquele closet silencioso. Rafael levantou a mão devagar, em direção ao ruído. Os dedos dele tocaram primeiro o ar, depois a madeira do cabide, parando antes da minha pele.

Mesmo assim, senti como se tivesse encostado.

— Vista o que quiser — ele disse baixo. — Mas hoje você dorme aqui.

— No sofá.

— Por enquanto.

Meu coração deu um salto idiota.

— Por enquanto?

Rafael sorriu de leve, como se tivesse ouvido exatamente o efeito que causou em mim.

— Esposas não costumam dormir longe para sempre.

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