FAZER LOGINO teclado mecânico respondia com estalos secos, rápidos e contínuos ao ritmo implacável dos dedos de Nala. Na tela grande do monitor principal, linhas complexas de código em Python, gráficos de fluxo de dados e planilhas internacionais deslizavam em alta velocidade. Para qualquer analista de sistemas experiente, aquilo seria apenas uma sopa de letras e números ilegível; mas, para Nala, era como se fosse o mapa exato do mundo, onde ela conseguia enxergar cada falha e cada movimento.
— As métricas para a aquisição na Europa estão completamente desalineadas. Se vocês acham que podem ocultar esses passivos nas contas fantasma, estão se enganando gravemente — disse ela, com a voz firme, fluindo em um espanhol impecável, sem desviar os olhos das telas brilhantes nem por um segundo.
Do outro lado da chamada viva, o diretor executivo na matriz de Madri engoliu em seco, sentindo o peso da cobrança.
— Sí, Sra. Alencar. Auderraremos las subsidiarias de inmediato.
— Não demorem — Nala encerrou, cortando a ligação com um toque seco na tela.
Ela recostou-se pesadamente na cadeira de couro legítimo, fechando os olhos por um instante para respirar fundo. Aos vinte e sete anos, ela era a mente brilhante e implacável por trás da Alencar Tech, um dos conglomerados de tecnologia mais agressivos e valiosos de todo o mercado global. Nos imensos prédios de vidro espelhado localizados em São Paulo, executivos experientes de terno e gravata simplesmente tremiam ao ouvir seu nome nos corredores.
Ninguém sabia ao certo de onde ela tinha vindo ou como havia construído aquele império tão jovem. Alguns diziam nos bastidores que ela era herdeira secreta de uma dinastia bilionária; outros espalhavam boatos de que ela havia comprado seus primeiros servidores com o dinheiro de apostas na internet. A verdade, no entanto, estava guardada a sete chaves, trancada sob a camada mais espessa de gelo que alguém poderia forjar na alma. Era uma história infinitamente mais sombria do que qualquer fofoca de escritório podia imaginar.
Nala levantou-se da mesa com movimentos decididos e caminhou até a enorme parede de vidro da cobertura. Abaixo dela, a cidade parecia um formigueiro gigante, repleto de luzes distantes e pequenas vidas correndo apressadas. Com 1,70m de altura, passos firmes e uma silhueta esculpida por curvas marcantes — cintura fina, quadris desenhados e seios fartos realçados por um vestido tubinho de grife —, ela parecia a própria personificação da vitória e do sucesso absoluto.
Contudo, quando olhava para o próprio reflexo no vidro escuro, o espelho não mostrava a bilionária temida por todos. Mostrava a menina assustada do passado, aquela que precisou contar migalhas para sobreviver e fugir correndo de mãos criminosas que queriam destruí-la.
Nala levou a mão direita até o próprio pescoço, sentindo o pulso acelerar desgovernadamente com o eco fantasma daquela lembrança dolorosa. Nunca mais, repetiu mentalmente. Ela havia jurado a si mesma que jamais voltaria a ser frágil ou indefesa. Para blindar o próprio coração contra qualquer tipo de dor, ela criou sua própria lei de sobrevivência: poder absoluto nos negócios e distanciamento emocional absoluto na carne.
Nela já havia tido vários homens em sua cama, todos atraídos por sua beleza exótica, magnética e misteriosa. Mas nenhum deles jamais durou mais do que uma única noite em sua vida. A regra que ela impôs a si mesma era cristalina e inegociável: uma transa rápida, um adeus frio pela manhã e nenhum resquício de apego ou saudade. O sexo para ela era puramente físico, uma válvula de escape necessária para aliviar a pressão absurda de comandar o mundo tecnológico; o amor, por outro lado, era o sinônimo exato de fraqueza e destruição.
Horas mais tarde, já em sua residência particular, Nala encarou por alguns segundos o armário onde guardava sua coleção de laces.
Para ela, cada cabelo era muito mais do que um acessório da moda; era um disfarce perfeito, uma nova persona friamente calculada para despistar o mundo e esconder quem ela realmente era. Naquela noite, ela optou por um modelo liso, longo e negro que caía como uma cascata pesada sobre os ombros, emoldurando perfeitamente o seu rosto de traços marcantes e olhar enigmático.
Enquanto isso, a quilômetros de distância dali, em uma sala de reuniões silenciosa e reservada, um relatório extremamente detalhado sobre as recentes ameaças digitais e físicas que rondavam a Alencar Tech pousava silenciosamente sobre a mesa de um homem. Um homem que não costumava perder o controle de absolutamente nada na vida.
Nala ainda não fazia ideia, mas as engrenagens invisíveis do destino que mudariam para sempre a rota da sua vida já haviam começado a girar perigosamente.
O sol da manhã de São Paulo brilhava implacável entre os arranha-céus de concreto e vidro, filtrando-se pelas cortinas da cobertura com uma claridade ofuscante que contrastava fortemente com a densa nuvem de tensão e perigo que pairava no ar. Nala respirou fundo, sentindo o peso da realidade corporativa desabar sobre seus ombros novamente. Ela calçou um par de tênis de corrida para facilitar a mobilidade, vestiu um vestido de malha leve, prático e neutro, e jogou algumas peças básicas de roupa e itens de higiene em uma mochila preta, junto com seu notebook de alta performance e os HDs criptografados de segurança da Alencar Tech. — Isso é um exagero completamente desproporcional, Breno, e você sabe disso — ela reclamou com firmeza, enquanto caminhavam a passos rápidos pelos corredores de serviço da cobertura em direção ao elevador privativo de carga que os levaria direto à garagem subterrânea. — É apenas um ataque de ransomware comum disparado por sindicatos virtuais de extorsão. Minha
Na manhã seguinte, a imensa cobertura de luxo estava mergulhada em um silêncio denso, pesado e quase palpável, que parecia guardar os ecos de tudo o que havia explodido entre eles nas últimas horas. Nala acordou sentindo cada músculo do corpo dolorido, pesado de uma exaustão que misturava a ressaca física daquela paixão avassaladora com a ressaca emocional de ter derrubado todas as muralhas que levara a vida inteira para construir. No entanto, pela primeira vez em meses de insônia crônica e noites dedicadas exclusivamente ao trabalho, a sua mente não estava ocupada com relatórios financeiros de última hora, projeções de mercado ou estratégias frias de expansão corporativa. Estava completamente ocupada pela imagem imponente de Breno, pelo jeito bruto e ao mesmo tempo protetor com que ele a segurava na penumbra, como se ela fosse a única coisa que realmente importava naquele mundo cão. Ela se espreguiçou lentamente sob os lençóis de algodão egípcio, sentindo o calor residual da presença
A luz implacável e fria da manhã invadiu o quarto espaçoso através das frestas das cortinas automatizadas, revelando o lado esquerdo da cama completamente vazio, amarrotado e frio. Breno já havia saído dali há horas, deixando para trás apenas o rastro inconfundível de seu perfume amadeirado misturado ao calor de sua presença recente. Para Nala, aquele vazio repentino funcionou como um alívio imediato — ou pelo menos foi exatamente isso que ela tentou repetir dezenas de vezes para si mesma enquanto organizava os pensamentos caóticos e tentava colocar a cabeça no lugar após uma noite de total perda de controle. O que tinha acontecido nas últimas horas naquelas quatro paredes não passou de uma descarga absurda de tensão, adrenalina e estresse corporativo acumulado, um ponto fora da curva, um acidente de percurso puramente físico que não mudaria absolutamente em nada a estrutura de sua vida blindada, sua independência inegociável ou suas prioridades de bilionária. Decidida a retomar o con
O silêncio do quarto fechado e blindado era sufocante, denso o suficiente para cortar com uma faca, mas nada no mundo se comparava ao calor insuportável e febril que consumia o corpo de Nala por dentro. Deitada sozinha na cama grande e espaçosa, vestindo apenas aquele baby-doll de seda preta que agora parecia pesar toneladas sobre a sua pele queimando, ela tinha a imagem de Breno gravada a ferro e fogo na memória recente. Os ombros largos e imponentes cobertos de cicatrizes de guerra, os pingos de água gelada escorrendo lentamente pelo abdômen trancado em gomos, a toalha branca frouxa na cintura e o volume descarado e marcante sob o tecido úmido formavam um filme mental repetitivo que fazia sua cabeça girar em um turbilhão de loucura. Sem os modelos de aluguel frios, superficiais e descartáveis que costumava usar no passado apenas para apagar o fogo físico e manter as aparências de uma vida controlada, ela percebeu de repente, com um pavor sutil, que estava completamente nua, vulneráv
Nas semanas seguintes, a rotina dentro e fora da empresa entrou em um ritmo de calmaria aparente, uma trégua frágil que mais parecia a calmaria que antecede tempestades devastadoras. Nala, decidida a provar para si mesma e para qualquer vestígio de fraqueza que ainda habitasse sua mente que tinha o controle absoluto de suas próprias emoções, cortou totalmente o contato com a agência de modelos de alto luxo e parou de procurar qualquer tipo de distração noturna efêmera. Ela queria provar que conseguia viver perfeitamente bem sem aquele alívio físico rápido e, acima de tudo, queria testar a paciência de ferro de Breno, impondo uma convivência que fosse estritamente profissional, mecânica e fria. Aos poucos, conforme as auditorias de segurança avançavam com sucesso absoluto sob a liderança firme da Titan Security e as ameaças anônimas direcionadas aos servidores da Alencar Tech diminuíam drasticamente — fruto de uma varredura rigorosa que eliminou brechas de rede —, a escolta implacável
A luz da manhã que cortava as frestas das persianas automatizadas da cobertura não trazia calor, mas sim a sensação fria de uma lâmina raspando na consciência de Nala. Sentada à mesa de vidro temperado da sala de jantar, ela empurrava distraidamente um pedaço de fruta de um lado para o outro no prato de porcelana importada, incapaz de engolir qualquer bocado. A dor de cabeça latejante não vinha de excesso de álcool ou de uma noite mal dormida comum, mas sim do peso esmagador de sua própria hipocrisia recém-descoberta. Ela repassava mentalmente cada segundo da noite anterior, lembrando-se do som abafado, dos gemidos que escaparam sem permissão, da porta do quarto que estava propositalmente — ou talvez subconscientemente — apenas encostada. E, embora não houvesse provas materiais definitivas de que Breno estivesse ouvindo cada suspiro na hora exata do seu clímax, a lembrança do olhar pesado, da postura rígida e do sorriso cínico que ele ostentava na entrada da empresa fazia o estômago d







