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Falei com Isadora algumas vezes antes do meu julgamento, porém estava confiante em seu trabalho. Quatro meses trancado sem ter recebido uma sentença, quatro meses longe da comunidade sabendo que tô fazendo falta pra caralho.Quando eu era moleque e vendia bala no sinal, eu via os engravatados passar e pensava que um dia, eu poderia ser igual a eles, mas eu mal tinha oportunidade para estudar, tá ligado? Aquilo ali era o sustento da minha família, então não tinha como eu perder tempo estudando quando eu deveria estar trabalhando para garantir o pão de cada dia. Minha mãe era uma viciada e meu pai, nunca ouvi falar.Éramos 3 irmãos contando comigo, mas todos eram mais novos que eu, então querendo ou não, a responsabilidade inteira caía em cima de mim. Minha mãe não se preocupava em arrumar alimentos para nós, mas minha maior preocupação era minha irmã mais nova, Bárbara.Eu descia cedo e só voltava a noite, e muitas das vezes meus irmãos estavam sozinhos esperando por mim, tive que amadurecer rápido demais porque eu tinha pessoas que dependiam de mim para tudo e essas pessoas, eram meus irmãos. Eu não tive infância, sempre trabalhei duro, pra ter o que comer dentro de casa, e minha mãe, nem se importava. Eu nunca chegava em casa com dinheiro, sempre gastava tudo antes de chegar em casa porque sabia que minha mãe pegaria. Ela vivia trocando feijão, arroz, e tudo que eu me esforçava pra comprar, por drogas.Aos meus 17 anos, voltei a estudar, fui aprender a ler só com essa idade e consegui me formar. Nessa época, minha mãe já morava na rua e eu cuidava dos meus irmãos, além de trabalhar, não era muito, mas finalmente tínhamos o que comer dentro de casa que não fosse a miséria.Até que um dia chegando do curso que eu fazia, queria ser advogado também, encontrei a casa toda revirada e Bárbara machucada, minha mãe havia ido até lá e procurado por dinheiro para sustentar seu vício, mas como não encontrou, agrediu minha irmã. Meu sangue ferveu, eu dava duro pra cuidar dela pra minha mãe simplesmente fazer aquilo com a própria filha. Eu sabia exatamente onde ela dormia, então, esperei a madrugada chegar, tirei a gasolina da moto que eu trabalhava de mototáxi durante o dia, coloquei em um galão e catei um isqueiro.Ela estava deitada do lado de uma barraca feita por um lençol branco, a rua estava deserta devido ao horário, e para minha sorte, ela estava sozinha. Não pensei muito nas minhas consequências diante do ato, o que eu não poderia permitir era ela entrar na nossa casa, roubar nossa comida e ainda espancar meus irmãos.Pela vida que ela me proporcionava, eu nunca senti aquele zelo e amor de mãe, ela via a gente mais como um peso em sua vida, o que eu fiz, diante dos olhos de muitos que se julgam os donos da razão, é errado, pecado e eu vou para o inferno. Se minha condenação for passar a eternidade nas profundezas do inferno por ter matado ela antes dela ter matado a gente, que seja, desço tranquilo e ainda abraço o capeta.Então se eu não consegui realizar meu sonho, vou deixar que a dona realize o dela. Minha vida está toda errada, do início ao fim, mas se eu tiver que fazer a coisa certa na hora certa, eu faço.Meus irmãos hoje em dia mal falam comigo pelo o que aconteceu, mas também não julgo, era a mãe deles também, po. Mas antes ela do que nós, tá ligado?Encosto a cabeça na parede sentindo o ar penetrar meus pulmões, o tempo aqui dentro passa devagar, e minutos sem transformam em horas, teste de resistência parceiro. Só os fortes continuam, e os fracos morrem sem tentar.— Seu julgamento é por esses dias, irmão? — Rogério, um parceiro de cela me pergunta.— Falaram né, mano. Mas pelo visto eles gostam da minha presença aqui. Tô no aguardo da boa, po.— Com fé tu sai, po. Tem crime nenhum na tua ficha, né não? — coço a cabeça sentindo o celular vibrar no meu bolso.— Só desacato, mas isso aí não em nada. Eles estão tentando achar prova de que eu estava envolvido naquele assalto.— E tu tava? — fecho a cara na hora e olho pra ele que está deitado, com o braço por cima da testa me encarando.— se liga mas não se envolve, demorou? — me levanto tirando a mancha da parede que fica em meu braço, qualquer dia desses essa cela desmonta com todo mundo dentro, vai vendo. — fugia os guardinha aí, tenho que dar um confere no radinho.Vou atrás da parede que divide o que eles chamam de banheiro, com o quarto, e me baixo ali desbloqueando o celular. Pra conseguir um aqui dentro, é muito fácil, basta está disposto a pagar quase mil reais em um celular que só manda mensagens e mal faz ligação. Mas eu precisava, vou fazer o que.Mensagem da Isadora, já logo abro o sorriso no automático.Isadora: Leonardo? Quando puder, me liga. (13:47)Ligo pra ela que chama uma pá de vez até ela atender, com a respiração pesada.Pires: e aí, doutora? Tem notícia boa pra mim?Isadora: cheguei no tribunal agora pouco. Pronto para sair desse buraco?Pires: Po... — encosto na parede com os olhos fechados, e suspiro aliviado. — não vejo a hora de sair daqui.Isadora: Encontro com você na quarta, por favor, não se meta em confusões até lá. Promete isso pra mim?Pires: Ae Isadora!Isadora: Sim?Pires: Tu é firmeza, mina. Quero está presente quando tu conquistar esse mundão todo.Isadora: obrigado por confiar em ser o meu primeiro cliente. Lembrarei sempre do que está fazendo por mim.Pires: Esse é só o começo da sua trajetória.E P I L O G O 5 anos depois…ISADORA 🥀Habilidosa, é o elogio mais frequente que ouço sobre Frida. Ela luta, decidimos que seria bom para ele desde os 6 anos, e agora participa de vários campeonatos de lutas durante o ano, uma das melhores. — Louis está comendo terra de novo. — Frida avisa — esse menino deve está com a barriga cheia de verme. — E você deixou? — ela sorri e da de ombro. — Ele é criança. Crianças comem terra! — Você não comia!— A senhora que nunca viu. — ela desvia do tapa leve que dou em seu braço e sorri — onde está meu pai? É o meu aniversário e eu ainda não vi ele. — Foi buscar seu avô. Mas acho que eu já posso entregar meu presente, né? — ela afirma com a cabeça toda sorridente, o cabelo encaracolado, nada parecido com o meu. E digo de passagem que ela é a cara de Leonardo, nunca pensei que isso fosse possível. Pego o embrulho com laço rosa e a entrego, que desembrulha rapidamente — use com responsabilidade!Ela pega o celular na mão e me abraça. — Obrigad
Isadora Admirei Frida quando ela voltou para os meus braços, pude contemplar e agradecer por cada minuto que ela passou ao meu lado. Me culpei, me julguei, pelas vezes na gestação que cogitei entregar ela a um lar adotivo, mas depois pude entender que esse teria sido o maior ato de amor que eu teria feito, por imaginar que um dia eu nunca seria capaz de amá-la. Mas eu fui, quando seus olhinhos encontraram os meus. Quando sua mão tocou meu rosto, pela forma que seu choro foi acalentado assim ela se pôs ao meu peito. Isso é o amor. Mas não qualquer amor, amor de uma mãe que se entregou de corpo e alma a maternidade, mesmo tendo passado por dilúvios e tempestades severas. E então, veio Leonardo…Ah, o Leonardo… Ele é aquele abraço quente em uma noite fria do inverno, é o sol penetrando os poros de sua pele e limpando as impurezas. É o homem que vai te elogiar mesmo quando você sabe que não está lá essas coisas, ou que vai tentar levantar seu astral no seu dia mais triste. É o tipo
Pires— Tu vai ficar responsável pela facção, o que der de errado vai cair na sua conta, firmeza? — Álvares, um dos cabeça de cima que comando isso tudo, avisa. — Joga na minha conta que eu assumo. — afirmo — quando eu só comandava um morro a responsabilidade já era toda minha, a facção tá no meu poder, o que vier vou saber bater de frente. — Eu sei que vai. — ele se senta cruzando as pernas, esse aí tem o mesmo espírito de Conrado, mas se moscar vai ter o mesmo fim que ele — sua gestão é interessante, gostaria de saber como sua cabeça funciona. — Tu ficaria perdido com tantas informações. — me levanto, ajeito a arma na cintura e ele me encara — meu papo contigo já foi dado, não aceito pilantragem, o certo é o certo, se eu ver que tem alguém de maldade comigo, o bagulho vai ficar de verdade. — Tu tem vidas a zelar, Pires. Não pense em me ameaçar! — Até agora só estava avisando. — afirma, apoiando as duas mãos sob a mesa me aproximo dele — mas agora, isso é uma ameaça. Se alguém t
Eu estou atordoada em meio aos meus pensamentos, mas o bebê nasce em alguns dias e eu não tenho nada, inclusive barriga. Como pode uma criança de quase 3 quilos está aqui dentro?Minhas mãos soam, estou apreensiva não de uma maneira ruim, mas sim pelo fato de eu achar que estaria no início de uma gestação e já estou no final dela, e nunca sequer percebi. — Eu estou em choque! — falo, enquanto Leonardo dirige pra casa da Rayanne pra buscar Frida — amor, daqui uns dias só, e nós não compramos nada. — Mas podemos comprar, po. Não seja por isso, não precisa se desesperar. — Eu já estou desesperada. Achei que teria mais tempo para fazer as coisas. — Tipo? — ele me pergunta. — Sei lá. Chá de bebê? Eu não tive isso na gravidez de Frida, queria muito ter feito nesse. — estalo a língua no céu da boca, não vou ter tempo de quase nada dessa vez — a gente nem pensou no nome. Leonardo freia o carro e eu me assusto, olha para ele que me encara, esperando eu falar algo. — O que foi? — pergunt
IsadoraEu já passei por por muitas situações difíceis. Mas não tão complicado como explicar para o homem que achava que era meu pai, que ele não é. O teste de DNA saiu já tem 2 meses, e eu só tive coragem de falar com ele hoje, depois de mantermos contato um com outro desde o dia em que ele foi para casa de sua família. Ele é tão vítima nesse caso quanto eu, porque eu consegui sentir a dor dele somente pela ligação, eu nem tive coragem em olhar em seu rosto com essa notícia. Fomos dois fantoches que Ana Carla adorou brincar, e achou que a conta nunca chegaria, ingênua. Condenada a 30 anos de prisão, em regime fechado e sem possibilidade de ser aberto, mesmo que ela tenha um bom comportamento lá dentro. É o que ela merece, e eu ainda acho pouco, depois de ter brincado com a vida das pessoas desse jeito. Luiz ainda quer manter contato comigo, pois disse que em seu coração eu ainda sou sua filha. Eu perco coisas para que possa ganhar outras, porque nesse momento fui presenteada com
Pires— Ela está grávida, Leonardo. Não pode ficar se locomovendo desse jeito. — minha coroa avisa, sentada no banco de trás com Frida, enquanto Isadora caiu em sono profundo no banco da frente. — Vai ser a última vez que fazemos isso. — afirmo — vamos resolver tudo que tiver pra resolver. E a senhora vem com a gente. — Gosto do meu cantinho. Vivi a vida toda ali e não tenho pretenção de ir embora um dia. — Eu não posso ir embora e deixar a senhora pra trás. — olho pelo retrovisor, ela negando com a cabeça. — Então fica. Não há necessidade de você ir embora. — Eu entreguei o comando, vó. Tenho inimigos, querendo ou não, não vou deixar que meus filhos cresçam dentro daquela comunidade correndo risco de vida. — Em qualquer lugar do Brasil seria perigoso para você, Leonardo. — suspiro fundo, sabendo que tudo que ela diz é verdade — não faz sentido. Pela primeira vez eu vou falar algo que eu nunca gostaria de dizer, mas você precisa ficar no comando se quer manter sua esposa e filho







