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Capítulo 7

last update publish date: 2026-09-03 01:45:12

Camila Mariah Souza

Depois de ler o bendito contrato pela quinta vez, comecei a acreditar que aquelas páginas tinham sido escritas especificamente para testar a minha paciência.

Li uma cláusula.

Depois, outra.

Voltei para a primeira.

Li novamente.

Nada mudava.

O nome de Rafael Muniz continuava ali.

O meu também.

E, entre os dois nomes, havia um casamento.

Um casamento que nenhum de nós havia escolhido.

Apoiei os cotovelos sobre a mesa e encarei o advogado.

— Então deixa eu ver se entendi.

Ele ajeitou os óculos.

— Claro.

— Rafael não precisa vir ao Brasil para assinar.

— Não necessariamente. Ele poderá assinar a documentação no Canadá, seguindo os procedimentos legais.

— E eu preciso ir para o Canadá?

— Não. Se não quiser, em uma das cláusulas você teria que morar junto ao seu cônjuge, no Canadá, mas você ainda está cursando o ensino médio, então, até a conclusão, pode ficar aqui no Brasil, aos cuidados da Dona Tereza.

Franzi a testa.

— Então existe uma possibilidade de ele permanecer lá e eu permanecer aqui?

— Existe.

Foi naquele instante que uma espécie de alívio tomou conta de mim.

Não queria encontrar Rafael.

Não queria descobrir o que ele havia se tornado.

Não queria olhar para o garoto que um dia foi meu melhor amigo e perceber que ele realmente tinha deixado de se importar.

Muito menos queria obrigá-lo a conviver comigo.

Cruzei os braços.

— Então está decidido.

Dona Tereza me olhou.

— Camila...

— Já que ele não vem assinar o documento aqui no Brasil, também não sou obrigada a ir para o Canadá.

O advogado abriu a boca, mas levantei a mão.

— Se ele não faz questão de ver a pessoa com quem está casando, não serei eu a forçar uma convivência.

As palavras saíram mais duras do que eu esperava.

Talvez porque ainda existisse uma ferida ali.

Talvez porque, no fundo, eu tivesse esperado que Rafael aparecesse.

Mesmo depois de todos aqueles anos.

Mesmo depois de ter decidido esquecê-lo.

Uma parte ridícula de mim ainda queria saber se ele olharia para mim e lembraria da menina que atravessava a abertura da cerca para encontrá-lo.

Mas ele não veio.

E eu não correria atrás.

Dona Tereza segurou minha mão.

— Você tem certeza?

Olhei para ela.

— Tenho.

— Mesmo sabendo que esse casamento vai existir?

Respirei fundo.

— Vou assinar.

O advogado me encarou.

— Camila, precisamos ter certeza de que você entende a natureza do documento.

— Eu entendo.

— Não é um casamento convencional.

— Eu sei.

— Há cláusulas de proteção, tutela, residência e duração da união.

— Também sei.

Passei os olhos pelo contrato mais uma vez.

— Aos vinte e um anos, poderemos decidir se continuamos casados ou nos divorciamos.

— Exatamente.

— Então pronto.

Peguei a caneta.

Minha mão tremia.

Não por amor.

Não por medo de me casar.

Era simplesmente estranho colocar minha assinatura em um documento que mudaria minha vida para sempre.

Assinei.

Camila Mariah Souza.

Fiquei olhando para meu nome.

Foi só uma assinatura.

Mas pareceu o fim de uma parte da minha vida.

Dona Tereza assinou como testemunha.

Os advogados finalizaram a documentação.

E pronto.

Eu estava casada.

Casada com um homem que não estava ali.

Com um homem que eu não via havia doze anos.

Com um homem que provavelmente nem lembrava mais de como era segurar minha mão.

Eu deveria ter chorado.

Não chorei.

Talvez porque já tivesse chorado tudo o que podia.

---------

Passei a morar com Dona Tereza.

A casa dela sempre tinha sido um lugar familiar para mim.

Eu passara boa parte da infância ali.

Conhecia cada canto.

Cada fotografia.

Cada móvel.

Até o relógio antigo da sala, que fazia um barulho irritante a cada hora.

Mas morar ali era diferente.

Agora eu não era mais a menina que aparecia para tomar café.

Eu era uma garota de dezesseis anos tentando entender como reconstruir a própria vida depois de perder os pais.

Minha mãe tinha morrido.

Meu pai também.

Enquanto isso, Dona Tereza cuidava de mim.

Ela fazia café.

Perguntava sobre a escola.

Conferia se eu estava estudando.

E, principalmente, tentava me lembrar de que minha vida ainda não havia acabado.

— Você precisa pensar no futuro, Camila.

— Estou pensando.

— O que quer fazer?

Sorri.

— Design.

Ela sorriu também.

— Então faça.

Era tão simples quando ela dizia.

— Quero terminar o ensino médio primeiro.

— E depois?

— Faculdade.

— E depois?

— Trabalhar.

— E depois?

Ri.

— Vó, eu não sei.

— Ótimo.

— Ótimo?

— Significa que você ainda tem muita coisa para descobrir.

Eu gostava daquilo.

Não precisava saber tudo.

Só precisava continuar.

Então me concentrei nos estudos.

Meus dias passaram a ser divididos entre escola, e desenhos.

Eu estudava até tarde.

Fazia projetos.

Pesquisava faculdades.

Criava esboços.

Comecei até a montar uma pequena pasta com meus melhores trabalhos.

Era meu sonho.

Minha saída.

Meu futuro.

Rafael não fazia parte dele.

Pelo menos era o que eu dizia para mim mesma.

Às vezes, porém, o nome dele aparecia em alguma conversa.

Dona Tereza recebia notícias da família Muniz.

Eu fingia não prestar atenção.

— Como estão eles?

— Bem.

— Que bom.

E mudava de assunto.

Até que um dia ela perguntou:

— Você não quer saber como Rafael está?

Continuei desenhando.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela sorriu.

— Você sempre foi péssima mentindo.

Olhei para ela.

— Eu não estou mentindo.

— Então por que apertou tanto o lápis?

Olhei para minha mão.

Estava realmente apertando o lápis com força.

Soltei um suspiro.

— Ele escolheu a vida dele.

— Sim.

— Eu escolhi a minha.

— Sim.

— Então está tudo certo.

Dona Tereza não respondeu.

Talvez porque soubesse que não estava tudo certo.

Mas eu precisava acreditar que estava.

Meses se passaram.

Terminei mais um semestre.

Depois, outro.

A vida começou a ganhar uma espécie de rotina.

Eu ainda visitava meus pais no cemitério.

Ainda estudava.

Ainda sonhava com a faculdade.

E, pouco a pouco, aprendi a morar com a ausência deles.

Não era fácil.

Nunca seria.

Mas eu estava conseguindo.

Aos dezoito anos, terminei o ensino médio.

Foi um dos dias mais importantes da minha vida.

Quando recebi o certificado, a primeira coisa que pensei foi na minha mãe.

Depois, no meu pai.

Depois, em Dona Tereza.

Ela estava na plateia.

Aplaudindo enquanto eu sorria.

Quando saí do palco, ela me abraçou.

— Você conseguiu.

Comecei a chorar.

— Eu queria que eles estivessem aqui.

— Eles estão orgulhosos.

— Como sabe?

Ela tocou meu rosto.

— Porque eu conheço seus pais.

Sorri entre lágrimas.

— E agora?

— Agora começa a vida que você sonhou.

Olhei para o certificado.

Depois, para a pasta onde guardava meus desenhos.

— Vou tentar entrar na faculdade.

— Você não vai tentar.

Ela corrigiu.

— Você vai entrar.

Ri.

— E se eu não conseguir?

— Tenta de novo.

— E se não der?

— Tenta outra vez.

— Você nunca desiste?

— Não quando acredito em alguém.

Abracei minha avó.

Naquele momento, senti que talvez finalmente estivesse pronta para seguir em frente.

Eu tinha perdido meus pais.

Tinha me casado sem querer.

Tinha passado anos esperando por alguém que nunca voltou.

Mas ainda tinha um sonho.

E eu pretendia conquistá-lo.

Quanto a Rafael...

Eu já não esperava nada dele.

Nem uma ligação.

Nem uma mensagem.

Nem mesmo uma explicação.

O casamento existia apenas no papel.

E, para mim, era exatamente onde deveria permanecer.

Eu não sabia que, naquele mesmo período, do outro lado do mundo, alguém finalmente começava a descobrir que aquele papel tinha consequências.

E que o nome que eu havia aprendido a pronunciar sem emoção ainda carregava uma promessa enterrada no quintal da minha infância.

Uma promessa que, mais cedo ou mais tarde, seria impossível ignorar.

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