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A Coroa de Mirella

Author: Batistad
last update publish date: 2026-07-29 12:04:39

Selene

Mirella entrou como se o quarto fosse dela.

Atrás dela vinham duas criadas, o ancião Morvan e um par de guardas. Mas foi Mirella quem tomou o espaço. Branca, luminosa, intocável. A coroa cerimonial repousava em seus cabelos dourados: prata trançada em forma de ramos lunares, com uma pedra vermelha no centro.

A coroa da Luna.

Ela brilhava como se tivesse nascido para aquilo.

Eu senti vontade de vomitar.

Não por inveja.

Por memória.

Lembrei-me de quando era criança e a via diante do espelho, colocando fitas nos cabelos, fingindo que a mobília do quarto era uma corte ajoelhada aos seus pés. Mirella sempre soube representar. Sempre soube inclinar o queixo no ângulo certo, adoçar a voz no momento certo, chorar diante das pessoas certas.

Eu, não.

Eu sempre fui ruim em parecer menos ferida do que estava.

— Irmãzinha — Mirella disse, com a voz doce o bastante para apodrecer os dentes. — Que susto você nos deu.

Meus olhos foram para a coroa.

Ela percebeu.

Claro que percebeu.

Mirella levou a mão aos cabelos, tocando a prata com uma delicadeza ensaiada.

— Ah. Ainda não foi oficializada. Por causa do seu… espetáculo. Mas Darius achou melhor que eu mantivesse a peça por enquanto. Para tranquilizar a alcateia.

Darius olhou para ela.

— Eu não disse isso.

Mirella piscou, perfeita.

— Não com essas palavras, meu Alfa.

Meu Alfa.

A marca em meu peito queimou.

Darius deu um passo quase imperceptível para longe dela.

Mirella também percebeu.

O sorriso continuou, mas os dedos dela apertaram a coroa.

— Todos estão preocupados — ela continuou, aproximando-se da cama. — Dizem que talvez a rejeição tenha sido demais para uma constituição tão frágil.

— Frágil? — Minha voz saiu baixa.

— Selene, querida, você desmaiou no pátio depois de fazer luz sair das mãos. Não é exatamente o retrato da estabilidade.

Morvan pigarreou.

— Precisamos examinar a marca.

Darius reagiu antes de mim.

— Não.

Todos olharam para ele.

Inclusive eu.

A palavra tinha saído dura. Final. Alfa.

Mirella sorriu mais devagar.

— Darius, ela pode ser perigosa.

— Ela está ferida.

— Ela pode ter enfeitiçado você.

O quarto ficou imóvel.

A acusação pairou no ar, feia e conveniente.

Olhei para Mirella.

Ela inclinou a cabeça, com falsa compaixão.

— Não estou dizendo que fez de propósito. Talvez nem saiba. Você sempre quis tanto ser escolhida… talvez tenha se agarrado a alguma coisa proibida.

A velha Selene teria chorado.

Teria tentado explicar.

Teria jurado inocência para pessoas que já tinham decidido sua culpa antes da primeira palavra.

A nova Selene ainda estava nascendo, sangrando e assustada.

Mas levantou o rosto.

— Se eu soubesse usar algo proibido, Mirella, teria começado pela sua língua.

Uma criada engasgou.

Darius virou o rosto para mim.

E por um segundo, só um segundo, eu vi algo quase perigoso nos olhos dele.

Não reprovação.

Não.

Uma faísca.

Como se meu veneno tivesse tocado a parte mais escura dele.

Mirella ficou vermelha.

— Você continua insolente para alguém que acabou de perder tudo.

— Perdi?

Inclinei a cabeça.

O movimento puxou a marca, e a luz prateada escapou por baixo dos meus dedos. Todos olharam. Até Darius.

Especialmente Darius.

Senti o olhar dele no meu peito como calor. Não sobre a pele nua, mas sobre o sinal. Ainda assim, meu corpo reagiu, confundindo atenção com toque. Meu ventre se contraiu com uma raiva tão íntima que quase pareceu desejo.

Eu odiei.

Mas usei.

— Curioso — murmurei. — Você está com a coroa. Eu estou na cama. E mesmo assim todos parecem mais preocupados comigo.

O rosto de Mirella rachou.

Não muito.

O suficiente.

Morvan avançou.

— Selene Aster, permita o exame.

— Não.

O velho parou.

Darius me observou com atenção quase predatória.

Eu não sabia se o poder vinha de mim ou se todos simplesmente estavam chocados demais para reagir. Mas gostei do som da palavra. Gostei de negar. Gostei de sentir, mesmo em pedaços, que uma parte do meu corpo ainda me pertencia.

Mirella se inclinou para mim.

O perfume dela me enjoou.

— Você deveria agradecer — sussurrou, baixo o bastante para parecer carinho aos outros. — Darius carregou você nos braços como se ainda fosse algo precioso. Quase romântico, não acha? Pena que ele só fez isso depois de rejeitá-la.

A frase entrou fundo.

Mirella sabia onde cortar.

Sempre soube.

Meus dedos apertaram o tecido sobre meu peito. Por um segundo, a humilhação da cerimônia voltou inteira: as risadas, a palavra rejeito, a mão de Darius no meu pulso, a obediência dele quando mandei soltar.

E seus braços me levantando da neve.

O calor dele.

A segurança cruel.

A parte de mim que quis ficar.

Minha garganta fechou.

Mirella viu a dor e sorriu.

— Não confunda culpa com amor, Selene.

Antes que eu pudesse responder, Darius falou.

— Saia.

A voz dele não era alta.

Mas o quarto inteiro abaixou a respiração.

Mirella se endireitou devagar.

— Perdão?

Darius olhava para ela como olhava para guerreiros prestes a morrer.

— Eu disse para sair.

A coroa tremeu nos cabelos dela.

— Eu sou sua Luna.

— Ainda não.

A frase foi tão afiada que até eu senti o corte.

Mirella empalideceu.

Morvan abriu a boca.

Darius ergueu a mão, sem olhar para ele.

— Todos. Fora.

Ninguém discutiu.

Um por um, deixaram o quarto. As criadas primeiro. Os guardas depois. Morvan saiu com o rosto fechado. Mirella foi a última, claro. Parou na porta e olhou para mim.

Não havia doçura agora.

Só promessa.

— Isso não acaba aqui, irmãzinha.

Eu sorri, embora meu peito estivesse rasgando.

— Eu sei. Você sempre demora para perder.

Ela saiu.

A porta se fechou.

O silêncio que ficou era pior.

Íntimo demais.

Darius e eu estávamos sozinhos outra vez.

Eu deveria ter exigido que ele também fosse. Deveria ter gritado. Deveria ter atirado qualquer coisa em sua cabeça arrogante e linda até apagar aquela expressão impossível.

Mas o corpo falha nos piores momentos.

A dor me atravessou de novo.

Dessa vez, não consegui esconder.

Dobrei-me um pouco, a mão no peito, o ar escapando por entre os dentes. A marca queimou com força. Prata espalhou-se pelas linhas sob minha pele, subindo pela clavícula.

Darius chegou perto num instante.

Rápido demais.

— Selene.

— Não toque.

Ele parou a centímetros da cama.

A respiração dele estava pesada.

A minha também.

A proximidade fez o ar mudar. O cheiro dele me envolveu, quente, escuro, terrível. Meu corpo quis inclinar. Quis buscar. Quis, por um segundo de fraqueza miserável, encostar a testa no peito que me negara e descansar.

Me odiei por isso.

Darius viu minha luta.

A voz dele saiu rouca.

— Você está com dor.

— Você também?

A pergunta escapou antes que eu pensasse.

Os olhos dele mudaram.

A marca pulsou.

E então eu senti.

Não como antes. Não como vínculo doce, se é que algum dia foi doce. Senti uma vibração vindo dele. Uma dor contida sob pele e orgulho. Uma fera arranhando costelas. Um lobo preso diante da fêmea que o homem rejeitara.

Darius fechou os olhos por meio segundo.

Quando abriu, havia algo selvagem ali.

— Sim.

A palavra foi baixa.

Quase indecente de tão honesta.

Meu coração falhou.

— Ótimo.

Mas minha voz tremeu.

Ele ouviu.

Claro que ouviu.

Darius olhou para minha boca. Depois para a marca. Depois para meus olhos.

— Selene…

— Não diga meu nome como se tivesse direito a ele.

Ele ficou imóvel.

A frase o atingiu mais do que qualquer grito.

Devagar, Darius se ajoelhou ao lado da cama.

Não por comando.

Não por magia.

Por escolha.

A visão me roubou o ar.

O Alfa da Lua Sangrenta estava de joelhos.

E, do lado de fora da porta, Mirella sussurrou:

— Ancião Morvan, reúna o Conselho.

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