เข้าสู่ระบบSelene
A primeira coisa que senti foi o cheiro dele. Antes da dor. Antes do frio. Antes mesmo de lembrar meu próprio nome. Darius estava em mim como tempestade presa na pele. O cheiro dele grudava no ar ao meu redor — pinho escuro, couro aquecido, sangue Alfa, uma nota profunda e selvagem que fazia meu corpo reagir antes que minha mente tivesse forças para odiá-lo. Havia calor sob minhas costas, algo macio demais para ser o chão do pátio. Lençóis. Pele. Fogo distante crepitando. E braços. Eu me lembrei dos braços. Do mundo apagando. De Darius avançando quando minhas pernas cederam. Do meu corpo traidor reconhecendo o encaixe contra o peito dele no instante em que fui erguida. Abri os olhos. O teto era de pedra clara, cortado por vigas escuras. Um aposento privado. Não o quarto dos servos. Não a enfermaria comum. O ar ali era quente, pesado de ervas, cera derretida e presença masculina. Minha cabeça latejava. Minha garganta parecia ter engolido cinzas. Tentei me mover. Uma dor brutal rasgou meu peito. Sufocada, levei a mão ao colo e encontrei pele nua. Meu vestido estava aberto na altura do busto. Não indecente. Não completamente. Mas o tecido havia sido cortado ou puxado para o lado, expondo a parte superior do meu peito, logo abaixo da clavícula. Ali, sobre minha pele, uma marca prateada brilhava. Não era tinta. Não era ferida. Era como se a lua tivesse sido costurada por dentro de mim. Linhas delicadas se espalhavam em forma de meia-lua partida, envolvendo um desenho que lembrava garras, flores e uma coroa antiga. A luz pulsava devagar, acompanhando meu coração. Cada batida fazia a marca arder, não como fogo comum, mas como memória. Uma memória que não era minha. Minha respiração prendeu. — Não toque. A voz veio do canto do quarto. Eu virei o rosto. Darius estava de pé perto da janela, sem a capa cerimonial, a camisa escura aberta no colarinho, os cabelos ainda levemente úmidos de neve. Parecia grande demais para aquele espaço. Sombrio demais para aquele fogo. Os olhos dele estavam fixos em mim com uma intensidade que teria me feito corar em outra vida. Na vida em que eu era idiota o bastante para confundir atenção com esperança. Puxei o tecido contra meu peito. O movimento doeu, mas a vergonha doeu mais. — Você me trouxe para cá? Darius não respondeu de imediato. O silêncio dele tinha peso. Ele usava silêncio como outros homens usavam lâminas: para controlar, para medir, para vencer antes de atacar. Mas agora havia algo quebrado naquele controle. — Você desmaiou — disse ele. — Depois que você me rejeitou. A frase caiu entre nós. O rosto dele não mudou muito. Darius era treinado demais para entregar expressão fácil. Mas eu vi o impacto no maxilar rígido, nos dedos que se fecharam ao lado do corpo, na respiração que não terminou como deveria. — Eu chamei o curandeiro. — Que generoso. — Selene. Meu nome na boca dele saiu mais baixo. Meu corpo odiável sentiu. Uma vibração lenta na base da coluna. Uma memória do vínculo. Um chamado que deveria estar morto, mas que ainda se movia sob os destroços. A marca no meu peito brilhou um pouco mais. Darius viu. Os olhos dele desceram. Não foi um olhar vulgar. Não exatamente. Mas foi intenso o bastante para aquecer minha pele exposta, para fazer meus dedos apertarem o tecido contra mim, para lembrar que eu estava numa cama dele — ou em uma cama escolhida por ele — com o vestido aberto e o coração em ruínas. Ele desviou primeiro. Pelo menos isso. — O curandeiro não soube explicar a marca — disse ele. — Morvan mandou buscar os arquivos lunares. — Claro. Quando uma Ômega sangra diferente, vocês consultam livros. Quando ela chora, vocês riem. A sombra atravessou os olhos dele. — Eu não ri. — Não. — Minha voz ficou mais fina, mais cortante. — Você só fez todos rirem por você. Darius deu um passo na minha direção. A marca ardeu. Meu corpo inteiro travou, mas não de medo apenas. A presença dele tinha uma violência íntima, uma pressão invisível que fazia o ar diminuir. O cheiro dele ficou mais forte. Quente. Profundo. Meu sangue reagiu com uma pulsação baixa, vergonhosa. Eu recuei contra os travesseiros. Darius parou. Ele viu. Viu a defesa. Viu o desejo indesejado. Viu o medo. E, pela primeira vez, pareceu odiar a si mesmo por ser a causa dos três. — Não vou tocar em você — ele disse. O absurdo da frase quase me fez rir. — Isso deveria me tranquilizar? — Deveria. — Você já tocou onde mais doía. O silêncio voltou. Mais quente agora. Mais perigoso. Darius olhou para minha boca por um segundo rápido demais, mas eu vi. Talvez porque tudo nele fosse impossível de ignorar quando estava perto. A forma como a garganta dele se moveu. O modo como os olhos escuros se tornaram ainda mais escuros. A mão que quase se ergueu, depois fechou em punho. Meu peito apertou. Por um instante ridículo, terrível, pensei em como seria se ele tivesse vindo até mim antes da cerimônia. Se tivesse segurado meu rosto, me dito a verdade, me pedido para confiar. Se aquele mesmo homem tivesse usado a voz rouca para me chamar de companheira, não para me transformar em vergonha pública. A dor matou a fantasia. — Onde está Mirella? — perguntei. A pergunta endureceu o quarto. Darius virou o rosto para a janela. — No salão. — Usando a coroa? Ele não respondeu. Resposta suficiente. Algo dentro de mim torceu. Não deveria doer mais. Eu já tinha sido rejeitada. Já tinha sido exposta. Já tinha aceitado a sentença. Mas imaginar Mirella lá embaixo, vestida de branco, recebendo olhares de reverência enquanto eu acordava em pedaços num quarto escondido, foi uma faca nova. Uma faca bonita. Com pérolas. Tentei levantar. Darius se moveu imediatamente. — Fique deitada. — Não me dê ordens. A frase saiu com uma força que eu não tinha. E, de novo, o ar estalou. Darius parou. Não porque quis. Porque algo nele obedeceu. Nós dois sentimos. O rosto dele endureceu com uma fúria silenciosa. Não contra mim. Contra a própria submissão involuntária. O Alfa dentro dele, acostumado a ser o centro de qualquer sala, tinha sido puxado por uma palavra minha como se eu segurasse uma corrente invisível. Devagar, meus dedos se apertaram no lençol. — O que está acontecendo comigo? Darius sustentou meu olhar. Por um segundo, ele pareceu quase humano. Quase assustado. — Eu não sei. A marca no meu peito pulsou. Do lado de fora, passos se aproximaram. Depois uma voz doce demais atravessou a porta. — Então talvez esteja na hora de alguém que saiba assumir o controle. Mirella entrou sem pedir licença. E em seus cabelos brilhava a coroa da Luna.Kaian apareceu diante de mim com sangue seco na camisa e a expressão de um homem que acabara de perder alguma coisa, mas ainda acreditava poder conquistar o mundo.A projeção de minha mãe havia desaparecido minutos antes, deixando na água negra três círculos incompletos. Morvan. A mina. O trono. Eu ainda sentia a voz de Liora atravessando meus ossos quando Kaian saiu do corredor lateral, sozinho, com os olhos escuros presos em Darius.Meu Alfa rejeitador estava sentado contra a parede, recuperando-se da prata ritual. A ferida permanecia aberta sob a faixa improvisada, e cada respiração exigia esforço. Mesmo assim, quando Kaian se aproximou, Darius ergueu a cabeça sem baixar os olhos.Dois Varek.Dois lobos acostumados a disputar o mesmo território.E eu, mais uma vez, tratada como se fosse a parte mais valiosa da guerra.— Precisamos conversar — Kaian disse.— Então comece explicando por que está vivo e onde deixou Mirella.Ele soltou uma risada amarga.— Sua preocupação comigo é como
A mão de Kaian ainda tremia quando se afastou do meu pescoço, e eu compreendi que um homem podia desejar uma mulher desesperadamente sem jamais escolher ficar ao lado dela.A marca de Seraphine ardia no chão da cela, espalhando veios vermelhos pela pedra azul. Minha garganta conservava o calor dos dedos dele. Não havia marcas, mas a lembrança daquele gesto me enojava mais do que qualquer ferimento. Kaian estivera perto demais de atravessar uma fronteira sem retorno. O pior era saber que uma parte de mim ainda queria a boca dele. Desejo, descobri, não tinha a menor obrigação de possuir dignidade.— Afaste-se — ordenei.Ele obedeceu.O gesto deveria ter me satisfeito. Em vez disso, deixou entre nós um vazio quente, quase ofensivo.Seraphine se apoiou na parede da cela, respirando com dificuldade.— Se terminaram de tentar destruir um ao outro, Morvan continua ouvindo.A voz dele respondeu das pedras:— E aprendendo.A marca vermelha avançou pelo chão. Kaian encontrou uma fenda na parede
MirellaMorvan disse que agora sabia exatamente onde cortar, e Kaian olhou para mim como se eu tivesse acabado de entregar a lâmina.A cela de Seraphine tremia atrás da grade, metade aberta, metade faminta. As correntes caídas nos pulsos dela ainda fumegavam, mas a marca no chão continuava segurando seu corpo como raiz de ferro. O ar cheirava a prata queimada, sangue Varek e minha própria pele ferida. Meus dedos ardiam onde eu tocara o fecho. A dor era limpa demais para me assustar. O olhar de Kaian, não.Ele estava parado a um passo de mim, uma mão na própria ferida, a outra fechada com tanta força que os nós dos dedos haviam perdido a cor. O homem que segundos antes pediu permissão para ficar atrás de mim agora voltava a ser algo mais antigo. Mais treinado. O filho de Aldar Ren Varek, criado para esmagar qualquer coisa que parecesse fraqueza antes que o mundo usasse contra ele.— Você abriu uma porta para Morvan — ele disse.A voz veio baixa.Perigosa.— Eu abri uma corrente.— Você
MirellaSeraphine me pediu ajuda com a mão estendida através da grade, e eu senti a parte mais feia de mim procurar vantagem antes de encontrar compaixão.Foi rápido. Quase imperceptível. Um cálculo antigo, elegante, treinado em salões onde sobreviver significava sorrir enquanto alguém decidia meu valor. A irmã secreta de Kaian era uma chave. Uma garantia de sangue. Uma arma contra Morvan, contra Aldar, contra a Coroa Partida e, talvez, contra o próprio homem que me olhava como se eu fosse o erro mais bonito e perigoso de sua vida. Se eu a libertasse, poderia negociar. Poderia cobrar. Poderia fazer Kaian ajoelhar, pedir, sangrar orgulho diante de mim.A velha Mirella teria amado essa ideia.A nova, se é que eu podia chamar aquela rachadura de novidade, olhou para a menina acorrentada e viu outra peça usada por homens que escreviam destinos com tinta de sangue feminino.Aquilo me enojou.Principalmente porque reconheci o tabuleiro.— Não toque nela — Kaian disse.O tom dele era baixo,
MirellaA irmã morta de Kaian respirava atrás de uma parede de prata lunar, e eu odiei perceber que a primeira coisa que senti não foi medo.Foi reconhecimento.Seraphine Varek estava sentada no chão de uma cela estreita, os joelhos dobrados, os pulsos marcados por correntes finas que desapareciam dentro da pedra azul. Tinha os olhos de Kaian, aquela mesma escuridão arrogante de quem nasceu perto demais do poder, mas nela a arrogância havia sido raspada até sobrar osso. Era jovem. Jovem demais para carregar aquele silêncio nos ombros. A marca da Coroa Partida no pulso brilhava fraca, como brasa sufocada. Uma moeda de sangue, pensei, e senti o pergaminho escondido contra meu peito pesar como uma segunda pele suja.Kaian deu um passo em direção à cela.— Seraphine.A menina sorriu sem doçura.— Ainda lembra meu nome. Que tocante. Pai teria ficado desapontado.A voz dela era seca, fina de desuso, mas havia uma lâmina ali. Família Varek, sem dúvida. Até quebrados, eles encontravam um mod
MirellaO sangue de Kaian escorria na direção da coroa de lua negra, e eu descobri, com ódio absoluto, que ainda me importava se ele morresse.Não deveria.Kaian Varek era ambição com boca bonita. Uma lâmina vestida de herdeiro. Um homem que me olhava como se eu fosse ferramenta, veneno, prêmio e pecado na mesma respiração. Ele havia calculado minha utilidade, pesado minha garganta, medido o quanto meu nome de falsa Luna ainda podia abrir portas que Selene fechava com sangue verdadeiro. Eu sabia disso. Eu carregava no corpete o pergaminho que provava o que ele aceitara: se o desafio falhasse, se a Coroa Partida não o reconhecesse inteiro, eu seria entregue como substituta ritual.Falsa Luna.Sangue útil.Cadáver conveniente.E ainda assim, quando os caçadores o arrastaram para a coroa, com o peito cortado e a arrogância rachada no rosto, algo em mim se moveu antes da raiva autorizar.Dei um passo.Um caçador bloqueou meu caminho.— Saia — eu disse.Ele não saiu.Sorri.Aquele sorriso







