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Darius estava de joelhos ao lado da minha cama. Não por comando. Não por magia. Por escolha. A visão me roubou o ar de um modo que a dor não conseguiu. O Alfa da Lua Sangrenta, o homem que todos temiam, o homem diante de quem guerreiros abaixavam os olhos e anciãos mediam cada palavra, estava ali, perto o bastante para que eu sentisse o calor dele, longe o bastante para não me tocar. A mão dele estava fechada sobre a própria coxa. Com força. Como se impedir o toque fosse uma guerra física. — Então me diga como devo chamar você — ele murmurou. Aquilo deveria ter sido pouco. Era pouco. Tarde demais. Errado demais. Mas meu corpo inteiro reagiu como se a frase tivesse passado a língua sobre uma ferida aberta. Eu queria odiá-lo. Queria mesmo. Mas Darius de joelhos era uma imagem perigosa demais para uma mulher recém-quebrada. Uma promessa obscura. Uma rachadura no mundo. A parte mais humilhada de mim queria virar o rosto. A parte mais ferida queria perguntar por que agora. A parte mais fraca queria tocar os cabelos dele e fingir que o homem diante de mim não havia pronunciado minha sentença diante da alcateia inteira. Minha respiração saiu fraca. — Chame de erro. Os olhos dele escureceram. — Meu erro, então. O silêncio entre nós ficou quente. A marca no meu peito brilhou mais forte. Darius viu. E eu também senti. O sinal sob minha pele respondeu à voz dele como se o reconhecesse. Como se aquela marca antiga, lunar, impossível, soubesse algo que eu ainda não sabia. A luz pulsou em ondas lentas, espalhando calor pela clavícula, pelo peito, pelas costelas. Meu coração tentou acompanhar o ritmo e falhou. Eu levei a mão à marca. Darius se moveu. Apenas um centímetro. Mas foi o suficiente para meu olhar cortar o dele. — Não. Ele parou. De novo. Obediente. Furioso. Destruído por aquela obediência. Havia algo quase cruel naquilo. Uma inversão tão impossível que minha mente não conseguia absorver. Durante anos, eu obedecera. A Mirella. Ao meu pai. Aos anciãos. Aos olhares. Ao silêncio. Ao lugar minúsculo que me deram dentro daquela alcateia. Eu era a Ômega sem lobo, a serva tolerada por sangue, a irmã defeituosa mantida nas sombras. E agora Darius parava quando eu mandava. O Alfa. Meu rejeitador. Minha ruína. — O que você fez comigo? — ele perguntou. Ri baixo, sem humor. — Eu? — Meu lobo não responde assim a ninguém. — Talvez você devesse perguntar a ele por quê. A mandíbula de Darius apertou. — Ele não fala comigo desde que… Ele parou. Mas eu já sabia. Desde que me rejeitou. A frase não dita ficou entre nós, pesada como uma terceira pessoa. A marca ardeu. Pela primeira vez, a dor dela pareceu atravessar não só meu corpo, mas o dele também. Darius levou a mão ao peito, quase sem perceber. — Dói? — perguntei. Ele sustentou meu olhar. — Sim. A honestidade era uma arma mais perigosa do que a frieza dele. A frieza eu sabia odiar. A honestidade me confundia. — Que bom — falei. Darius abaixou os olhos por um instante. Não como submissão. Como punição. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Eu não queria ter pena dele. Não queria enxergar culpa onde deveria haver apenas vilania. Não queria lembrar que, quando caí, ele correu. Que, quando Morvan quis me tocar, ele disse não. Que, quando Mirella se declarou Luna, ele a corrigiu diante de todos. Fragmentos não anulavam a sentença. Mas machucavam a clareza do meu ódio. Do lado de fora, a voz de Mirella soou baixa, venenosa, quase satisfeita: — Ancião Morvan, reúna o Conselho. A marca dela precisa ser contida antes que o Alfa esqueça quem escolheu. Darius levantou a cabeça num movimento lento. Seu lobo rosnou. Dessa vez, não dentro dele. O som saiu de sua garganta. Baixo. Feroz. E dirigido à porta onde Mirella havia acabado de declarar minha sentença. O quarto inteiro pareceu encolher diante daquele som. Até o fogo da lareira vacilou. Eu senti o rosnado nos ossos, na pele, na parte mais profunda do ventre, onde instinto e medo se confundiam com desejo. — Ela não toca em você — Darius disse. A frase saiu para a porta. Mas me atingiu. Fechei a mão sobre o lençol. — Você não decide mais isso. Ele virou o rosto para mim. — Eu decido quem entra neste quarto. — Você decidiu quem seria sua Luna. Foi suficiente por uma noite. A dor atravessou os olhos dele. Eu quis gostar. Não consegui. Darius se levantou devagar. A ausência dele de joelhos deixou o ar mais frio. Mais seguro. Mais vazio. Ele caminhou até a porta, cada passo controlado demais, perigoso demais. Quando abriu, Mirella estava ali, com Morvan ao lado e dois guardas atrás. Nenhum deles esperava encontrar aquele rosto. A expressão de Darius não era a de um noivo interrompido. Era a de um Alfa diante de inimigos. — O Conselho não vai se reunir sem minha ordem — ele disse. Morvan empalideceu. — Alfa, com todo respeito, a manifestação dela pertence às leis antigas. Se a linhagem lunar despertou, não é apenas assunto seu. Linhagem lunar. A marca sob minha mão queimou. Darius ficou imóvel. — Explique. Morvan olhou para mim. Pela primeira vez, não vi apenas medo no ancião. Vi reconhecimento. E culpa. — Há sangue que não deveria ter sobrevivido. O quarto esfriou. Mirella endureceu. — Do que está falando? Morvan não respondeu a ela. Seus olhos permaneceram em mim, presos à luz que escapava pela abertura do vestido. — A meia-lua partida era o sinal das rainhas lunares. Antes dos Alfas. Antes dos Conselhos. Antes das alcateias se ajoelharem diante de homens. Minha respiração falhou. Darius virou-se para mim. O mundo pareceu diminuir. Rainhas. Não Ômegas. Não defeituosas. Rainhas. A palavra entrou em mim como lâmina e coroação. Mirella riu. Um som curto, horrível. — Isso é absurdo. Morvan fechou os olhos por um segundo. — Absurdo seria negar o que todos vimos. Mirella deu um passo à frente. — Ela não é rainha de nada. Ela é uma sem lobo. Uma vergonha. Uma— A marca explodiu em luz. Não fui eu que ordenei. Ou talvez tenha sido. As janelas estremeceram. A lareira se apagou. A coroa nos cabelos de Mirella brilhou vermelho por um instante e depois escureceu, como se a prata tivesse sido contaminada por sombra. Mirella levou as mãos à cabeça. — O que está acontecendo? A pedra vermelha no centro da coroa rachou. Um fio de sangue escorreu pela testa dela. Darius rosnou meu nome. Mas eu não olhava para ele. Olhava para a coroa. Aquela peça que ela usava como vitória agora tremia como se tivesse medo de permanecer em sua cabeça. Morvan recuou. — Tire a coroa dela. Mirella segurou a prata com força. — Não! Morvan gritou: — Tire agora, antes que a coroa escolha sua verdadeira dona. O quarto parou. Darius olhou para mim. Mirella também. A coroa rachada emitiu um som fino, quase um choro. Então se soltou sozinha dos cabelos dourados de Mirella. Caiu no chão. E rolou lentamente até parar aos meus pés.SeleneDarius descobriu que minha paciência tinha limites quando seus olhos desceram, pela terceira vez, até minha boca.Estávamos sozinhos numa das câmaras de repouso da mina. A claridade azul atravessava as paredes, desenhando sombras sobre a cama estreita onde ele permanecia sentado, com a camisa aberta para que eu examinasse o ferimento. A prata ritual deixara uma cicatriz avermelhada abaixo de suas costelas. O corte estava fechando, mas seu lobo ainda se recuperava da ordem que o arrancara da morte.Darius acompanhava meus movimentos em silêncio. Não era um silêncio inocente. Eu reconhecia aquele olhar, a tensão em seu maxilar, a maneira como sua respiração mudava quando meus dedos chegavam perto demais da pele.— Você pretende continuar fazendo isso? — perguntei.Ele ergueu os olhos.— O quê?— Olhar para minha boca como se estivesse tentando decidir se ela é uma ameaça.— Já decidi.— E qual foi o veredicto?Um sorriso lento apareceu em seu rosto.— A ameaça mais perigosa que
Darius não discutiu a sentença. Ele a recebeu como recebia os golpes na mina: em silêncio, com o maxilar firme e os olhos presos aos meus.Depois, sem que eu pedisse, dobrou os joelhos.O movimento foi lento por causa da ferida nas costelas, e por um segundo vi a dor atravessar seu rosto. Mesmo assim ele desceu até o tapete diante da cama, até que sua cabeça ficasse abaixo da minha, até que o Alfa que um dia me mandou baixar os olhos diante da alcateia estivesse ajoelhado entre meus pés, esperando.— Eu não mandei você se ajoelhar — murmurei.— Não. — A voz dele saiu baixa, áspera. — Escolhi.Aquela palavra fez mais estrago do que qualquer toque. Durante anos, sonhei em vê-lo humilhado, obrigado, vencido. Nunca imaginei que seria pior vê-lo escolher.Darius pousou as mãos abertas no chão, de cada lado dos meus pés, sem encostar em mim. O calor dele subia pelas minhas pernas mesmo à distância. A marca lunar latejava entre meus seios, e o vínculo puxava, exigente, como uma corda amarrad
A coroa de Darius ainda estava quente quando Kaian percebeu que podia transformar a renúncia dele em uma arma. Senti a mudança antes de ouvi-la. A prata negra repousava na minha palma, pesada demais para seu tamanho, enquanto o vínculo vibrava entre meus ossos. Darius permanecia ajoelhado, a faixa ensanguentada apertando suas costelas, mas havia algo diferente em sua postura. Não parecia derrotado. Parecia um homem que escolhera abrir a própria mão mesmo sabendo que alguém poderia atravessá-la com uma lâmina. Kaian sorriu. Reconheci aquele sorriso. Era o mesmo que homens poderosos usavam quando confundiam vulnerabilidade com oportunidade. — Então é verdade — ele disse, aproximando-se. — O grande Darius Varek entregou sua autoridade à mulher que rejeitou. Darius ergueu os olhos, mas não respondeu. — Temporariamente — corrigi. Kaian inclinou a cabeça. — Autoridade entregue continua sendo autoridade disponível, Selene. Nosso sangue reconhece essas coisas. O metal aqueceu contra
A mina me ofereceu a condenação de Darius como se fosse um presente, e por um instante compreendi por que a vingança seduz tanto os corações feridos. Ele estava ajoelhado diante de mim, uma das mãos pressionando o ferimento nas costelas, a outra apoiada na pedra para não cair. Sua cabeça permanecia erguida, embora a prata ritual ainda roubasse sua força. Atrás dele, Kaian observava com uma atenção quase faminta. Os espelhos haviam desaparecido, mas a pergunta continuava gravada no ar, ardendo diante dos meus olhos. VOCÊ DESEJA CONDENAR O ALFA QUE A REJEITOU? Pensei no salão. Na humilhação. Nos rostos que desviaram quando procurei misericórdia. Pensei também no homem que havia recusado me marcar enquanto eu estava inconsciente e naquele que, poucos minutos antes, prometera deixar-me partir, mesmo sabendo que isso o destruiria. A mina queria que eu escolhesse uma dessas verdades e apagasse a outra. — Responda, herdeira — exigiu a Voz. Olhei para Darius. — Se eu disser sim, o que
A lembrança terminou com Darius afastando os dentes da minha garganta, e o silêncio que se seguiu pareceu arrancar todo o ar da mina. No espelho suspenso, eu continuava inconsciente sobre as folhas úmidas da floresta. Darius, mais jovem, mantinha uma das mãos apoiada no chão, tão perto do meu corpo que poderia ter me puxado para si. Seu lobo exigia a marca. Eu sentia aquela exigência atravessar o vínculo como uma fome antiga, brutal, impossível de confundir com ternura. Mas ele recuou. Escolheu suportar o instinto. Escolheu deixar minha garganta intacta. Olhei para o homem ao meu lado. A ferida recente ainda manchava a faixa sob sua camisa, e a febre deixava seus olhos mais escuros. Ele não parecia satisfeito por ter sido compreendido. Parecia alguém obrigado a assistir à exposição de uma intimidade que nunca pretendeu usar como defesa. — Por que não me contou? — perguntei. Darius sustentou meu olhar. — Porque você estava inconsciente. Nunca deveria ter precisado me agradecer
A mina escolheu o instante em que compreendi que Darius me deixaria partir para mostrar o quanto eu ainda desejava ficar. O chão se abriu em círculos de prata sob nossos pés, e uma onda de calor atravessou a câmara. Kaian recuou imediatamente. Darius tentou levantar, mas a ferida sob suas costelas o obrigou a apoiar a mão na parede. Fui até ele por instinto, antes que meu orgulho pudesse protestar. Quando meus dedos tocaram seu braço, a marca lunar em meu peito acendeu com tanta violência que todos os círculos responderam. — Selene, afaste-se — ele disse, rouco. — Você está em posição de dar ordens? — Não. Estou pedindo. A diferença quase me fez sorrir. Quase. Então as paredes desapareceram, substituídas por espelhos de água suspensos no ar. Neles, vi Darius me olhando de maneiras que nunca permitira diante de outras pessoas. Não havia desprezo, nem frieza. Havia desejo, arrependimento e uma fome tão silenciosa que minha garganta apertou. Uma inscrição surgiu na pedra: TERCEIRA







