LOGINSeleneDarius descobriu que minha paciência tinha limites quando seus olhos desceram, pela terceira vez, até minha boca.Estávamos sozinhos numa das câmaras de repouso da mina. A claridade azul atravessava as paredes, desenhando sombras sobre a cama estreita onde ele permanecia sentado, com a camisa aberta para que eu examinasse o ferimento. A prata ritual deixara uma cicatriz avermelhada abaixo de suas costelas. O corte estava fechando, mas seu lobo ainda se recuperava da ordem que o arrancara da morte.Darius acompanhava meus movimentos em silêncio. Não era um silêncio inocente. Eu reconhecia aquele olhar, a tensão em seu maxilar, a maneira como sua respiração mudava quando meus dedos chegavam perto demais da pele.— Você pretende continuar fazendo isso? — perguntei.Ele ergueu os olhos.— O quê?— Olhar para minha boca como se estivesse tentando decidir se ela é uma ameaça.— Já decidi.— E qual foi o veredicto?Um sorriso lento apareceu em seu rosto.— A ameaça mais perigosa que
Darius não discutiu a sentença. Ele a recebeu como recebia os golpes na mina: em silêncio, com o maxilar firme e os olhos presos aos meus.Depois, sem que eu pedisse, dobrou os joelhos.O movimento foi lento por causa da ferida nas costelas, e por um segundo vi a dor atravessar seu rosto. Mesmo assim ele desceu até o tapete diante da cama, até que sua cabeça ficasse abaixo da minha, até que o Alfa que um dia me mandou baixar os olhos diante da alcateia estivesse ajoelhado entre meus pés, esperando.— Eu não mandei você se ajoelhar — murmurei.— Não. — A voz dele saiu baixa, áspera. — Escolhi.Aquela palavra fez mais estrago do que qualquer toque. Durante anos, sonhei em vê-lo humilhado, obrigado, vencido. Nunca imaginei que seria pior vê-lo escolher.Darius pousou as mãos abertas no chão, de cada lado dos meus pés, sem encostar em mim. O calor dele subia pelas minhas pernas mesmo à distância. A marca lunar latejava entre meus seios, e o vínculo puxava, exigente, como uma corda amarrad
A coroa de Darius ainda estava quente quando Kaian percebeu que podia transformar a renúncia dele em uma arma. Senti a mudança antes de ouvi-la. A prata negra repousava na minha palma, pesada demais para seu tamanho, enquanto o vínculo vibrava entre meus ossos. Darius permanecia ajoelhado, a faixa ensanguentada apertando suas costelas, mas havia algo diferente em sua postura. Não parecia derrotado. Parecia um homem que escolhera abrir a própria mão mesmo sabendo que alguém poderia atravessá-la com uma lâmina. Kaian sorriu. Reconheci aquele sorriso. Era o mesmo que homens poderosos usavam quando confundiam vulnerabilidade com oportunidade. — Então é verdade — ele disse, aproximando-se. — O grande Darius Varek entregou sua autoridade à mulher que rejeitou. Darius ergueu os olhos, mas não respondeu. — Temporariamente — corrigi. Kaian inclinou a cabeça. — Autoridade entregue continua sendo autoridade disponível, Selene. Nosso sangue reconhece essas coisas. O metal aqueceu contra
A mina me ofereceu a condenação de Darius como se fosse um presente, e por um instante compreendi por que a vingança seduz tanto os corações feridos. Ele estava ajoelhado diante de mim, uma das mãos pressionando o ferimento nas costelas, a outra apoiada na pedra para não cair. Sua cabeça permanecia erguida, embora a prata ritual ainda roubasse sua força. Atrás dele, Kaian observava com uma atenção quase faminta. Os espelhos haviam desaparecido, mas a pergunta continuava gravada no ar, ardendo diante dos meus olhos. VOCÊ DESEJA CONDENAR O ALFA QUE A REJEITOU? Pensei no salão. Na humilhação. Nos rostos que desviaram quando procurei misericórdia. Pensei também no homem que havia recusado me marcar enquanto eu estava inconsciente e naquele que, poucos minutos antes, prometera deixar-me partir, mesmo sabendo que isso o destruiria. A mina queria que eu escolhesse uma dessas verdades e apagasse a outra. — Responda, herdeira — exigiu a Voz. Olhei para Darius. — Se eu disser sim, o que
A lembrança terminou com Darius afastando os dentes da minha garganta, e o silêncio que se seguiu pareceu arrancar todo o ar da mina. No espelho suspenso, eu continuava inconsciente sobre as folhas úmidas da floresta. Darius, mais jovem, mantinha uma das mãos apoiada no chão, tão perto do meu corpo que poderia ter me puxado para si. Seu lobo exigia a marca. Eu sentia aquela exigência atravessar o vínculo como uma fome antiga, brutal, impossível de confundir com ternura. Mas ele recuou. Escolheu suportar o instinto. Escolheu deixar minha garganta intacta. Olhei para o homem ao meu lado. A ferida recente ainda manchava a faixa sob sua camisa, e a febre deixava seus olhos mais escuros. Ele não parecia satisfeito por ter sido compreendido. Parecia alguém obrigado a assistir à exposição de uma intimidade que nunca pretendeu usar como defesa. — Por que não me contou? — perguntei. Darius sustentou meu olhar. — Porque você estava inconsciente. Nunca deveria ter precisado me agradecer
A mina escolheu o instante em que compreendi que Darius me deixaria partir para mostrar o quanto eu ainda desejava ficar. O chão se abriu em círculos de prata sob nossos pés, e uma onda de calor atravessou a câmara. Kaian recuou imediatamente. Darius tentou levantar, mas a ferida sob suas costelas o obrigou a apoiar a mão na parede. Fui até ele por instinto, antes que meu orgulho pudesse protestar. Quando meus dedos tocaram seu braço, a marca lunar em meu peito acendeu com tanta violência que todos os círculos responderam. — Selene, afaste-se — ele disse, rouco. — Você está em posição de dar ordens? — Não. Estou pedindo. A diferença quase me fez sorrir. Quase. Então as paredes desapareceram, substituídas por espelhos de água suspensos no ar. Neles, vi Darius me olhando de maneiras que nunca permitira diante de outras pessoas. Não havia desprezo, nem frieza. Havia desejo, arrependimento e uma fome tão silenciosa que minha garganta apertou. Uma inscrição surgiu na pedra: TERCEIRA







