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Capítulo Dois

Author: S.R.Silva
last update publish date: 2026-09-20 18:30:33

Durante três anos, fui a esposa perfeita de Matthew Montenegro.

Pelo menos era assim que todos me enxergavam.

Na realidade, nosso casamento nunca havia começado por amor. Matthew precisava de alguém para se casar e assumir oficialmente determinadas responsabilidades dentro do Grupo Montenegro, enquanto precisava desesperadamente do dinheiro para custear uma cirurgia delicada que poderia salvar a vida da minha avó. Dois problemas diferentes, duas necessidades urgentes e uma solução conveniente para ambos. Unimos o útil ao agradável e assinamos um contrato de casamento com duração de três anos.

As regras eram simples.

Nenhum dos dois deveria esperar amor.

Nenhum dos dois poderia interferir na vida pessoal do outro.

E, acima de tudo, o casamento terminaria assim que o contrato chegasse ao fim.

Naquele momento, parecia um acordo perfeito. Receberia o dinheiro necessário para pagar a cirurgia da minha avó e Matthew teria a esposa que precisava para cumprir as exigências da família e assumir definitivamente o comando da empresa. Não havia espaço para sentimentos. Pelo menos, não deveria haver.

O problema foi que ninguém me ensinou o que fazer quando o coração decide ignorar um contrato.

Apaixonei-me por Matthew.

Foi lento, silencioso e doloroso. Primeiro, vieram os pequenos detalhes. O jeito como ele franzia a testa quando estava concentrado, a maneira como soltava o nó da gravata depois de um dia cansativo, o hábito de tomar café sempre no mesmo horário e até mesmo aquela expressão séria que parecia acompanhar cada passo que dava. Quando percebi, já sabia seus horários, suas preferências, suas manias e até os momentos em que precisava de silêncio.

Tornei-me sua assistente pessoal e, sem perceber, também passei a cuidar de coisas que nem sequer faziam parte das minhas obrigações. Preparava suas refeições sem que ele soubesse, organizava pequenos detalhes da casa, lembrava de compromissos que ele esquecia e fazia o possível para tornar sua rotina mais fácil. Nunca contei que era responsável por grande parte daquilo. Talvez porque uma parte de mim esperasse que, algum dia, ele percebesse sozinho.

Mas Matthew nunca percebeu.

Para ele, aquela casa tinha uma esposa contratada, uma assistente eficiente e uma mulher que deveria permanecer dentro dos limites estabelecidos pelo acordo. Nada além disso.

A atenção que durante tanto tempo desejei receber dele era entregue a outra pessoa: Camile, sua amiga.

Segundo Matthew, os dois nunca haviam tido nada. Sempre que perguntava ou demonstrava incômodo, ele repetia a mesma coisa, como se aquelas palavras fossem suficientes para me tranquilizar. Dizia que Camile era apenas uma amiga, alguém importante em sua vida e nada mais.

Talvez fosse verdade.

Talvez não.

Mas havia coisas que nenhuma explicação conseguia esconder.

Bastava uma ligação de Camile para Matthew largar qualquer compromisso e sair correndo atrás dela. Uma única mensagem era suficiente para interromper uma reunião, cancelar um jantar ou mudar completamente seus planos. Para aquela mulher, ele sempre encontrava tempo. Para mim, sobravam os intervalos.

E foi assim que aprendi a diferença entre ser necessária e ser amada.

No dia em que entreguei os papéis da minha demissão e do divórcio, Matthew sequer percebeu que estava assinando o fim do nosso casamento. Estava sentado diante de mim, concentrado no celular, conversando com Camile. Os olhos permaneciam presos à tela enquanto os dedos percorriam rapidamente o documento que coloquei diante dele. Sem levantar a cabeça, assinou as folhas uma após a outra.

Não perguntou o motivo.

Não quis saber por que estava pedindo demissão.

Não perguntou por que o documento do divórcio estava entre aqueles papéis.

Não percebeu nada.

Talvez aquele tenha sido o momento em que finalmente compreendi que não havia mais nada para salvar.

Quando cheguei ao apartamento da minha amiga, toquei a campainha e esperei.

Poucos segundos depois, a porta se abriu e Kimberlly surgiu diante de mim com um sorriso no rosto.

— Entra, amiga.

Ela olhou para a mala em minha mão, mas não fez nenhuma pergunta. Apenas a pegou e abriu espaço para que eu entrasse. Caminhei até o sofá e me sentei, sentindo o corpo inteiro pesar depois de tudo o que havia acontecido. Pela primeira vez desde que saí da mansão, tive vontade de chorar. Talvez porque ali, naquele pequeno apartamento, não precisasse mais fingir que estava tudo bem.

Kimberlly colocou minha mala em um canto da sala e voltou na minha direção. Abri a boca para contar tudo, mas não tive tempo.

Um homem surgiu no corredor usando apenas uma toalha enrolada na cintura.

Pisquei algumas vezes, sem saber exatamente para onde olhar.

Kimberlly, por outro lado, permaneceu completamente tranquila.

— Kleber, dá para vestir uma roupa?

O homem franziu a testa, claramente confuso.

— Meu nome é Fabrício.

Kimberlly fez uma expressão indiferente.

— Que seja! Veste uma roupa e cai fora.

Fabrício abriu a boca para responder, mas pareceu pensar melhor. Murmurou alguma coisa incompreensível e desapareceu pelo corredor.

Permaneci olhando para minha amiga, tentando processar o que acabara de acontecer. Kimberlly simplesmente cruzou os braços e me encarou como se um homem seminu andando pela sala fosse a coisa mais normal do mundo.

— Não começa — avisou.

Uma risada escapou apesar de tudo. Depois de um dia inteiro tentando não desmoronar, aquela cena absurda conseguiu arrancar de mim o primeiro sorriso verdadeiro.

Kimberlly se aproximou, sentou-se ao meu lado e segurou minha mão.

Dessa vez, seu olhar perdeu o tom divertido.

— Amiga... você finalmente conseguiu se libertar?

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