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Capítulo Três

Author: S.R.Silva
last update publish date: 2026-09-22 16:33:14

— Aí, amiga! Que bom! Eu estava torcendo para você largar aquele seu marido. Já te disse que aquele homem te odeia, mas você vivia acreditando que, um dia, ele iria se apaixonar por você.

As palavras de Kimberlly pareciam facas afiadas, perfurando um lugar dentro de mim que eu vinha tentando proteger há muito tempo.

Doía ouvi-las, principalmente porque, no fundo, eu sabia que ela estava certa. Perdi anos acreditando que, se tivesse paciência, se fosse uma boa esposa, uma boa funcionária e estivesse sempre ao lado dele, talvez Arthur finalmente enxergasse a mulher por trás de tudo aquilo.

Talvez um dia ele percebesse que eu também tinha sentimentos.

Talvez se apaixonasse por mim.

Talvez...

Quantos “talvez” eu havia usado para justificar aquele casamento?

Kimberlly apenas dizia em voz alta aquilo que eu já sabia, mas ainda não tinha coragem de admitir para mim mesma.

Havia perdido tempo demais com alguém que nunca foi capaz de me enxergar além de uma esposa conveniente ou de uma serviçal que estava sempre disponível para resolver seus problemas.

Respirei fundo antes de responder.

— Abri os olhos, Kim. Mas não precisa falar assim comigo. Já sei o que devo fazer.

Ela cruzou os braços e me encarou com aquela expressão que conhecia muito bem. Kimberlly não tinha o menor problema em dizer o que pensava, mesmo quando suas palavras doíam mais do que deveriam.

— E o que você vai fazer?

Pensei por alguns segundos antes de responder. Pela primeira vez em muito tempo, eu não queria pensar no que Arthur queria. Não queria pensar na empresa, no casamento, nas obrigações ou na opinião de ninguém.

Queria pensar em mim.

— Vou embora atrás dos meus sonhos.

Kimberlly abriu um sorriso satisfeito.

— Isso mesmo, Samy. Chega de se rastejar atrás de um cara que claramente te odeia.

Baixei os olhos, sentindo aquela velha pontada no peito, mas não respondi. Talvez porque, dessa vez, eu não tivesse forças para defendê-lo. Durante anos, eu havia encontrado desculpas para cada atitude de Arthur. Quando ele era frio, dizia a mim mesma que estava ocupado. Quando me ignorava, acreditava que estava cansado. Quando passava dias sem sequer olhar para mim, eu inventava alguma justificativa para não encarar a verdade.

Fazia isso porque admitir que meu marido não me amava significava admitir que havia passado três anos esperando por algo que nunca aconteceria.

O homem que estava acompanhando minha amiga passou por nós pouco depois, despediu-se de Kimberlly e foi embora. Assim que ele saiu, levantei-me.

— Também vou embora.

Kimberlly me lançou um olhar de poucos amigos e, no segundo seguinte, socou meu braço.

— Você vai embora para onde?

— Para um hotel.

Ela arregalou os olhos.

— Hotel? Você está maluca? Por que vai dormir em hotel se tem um quarto de hóspedes na minha casa?

Antes que pudesse argumentar, ela já estava me puxando pelo braço.

Foi assim que acabei ficando na casa dela naquela noite.

Kimberlly arrumou o quarto de hóspedes para mim e, apesar de toda a confusão que existia dentro da minha cabeça, consegui dormir, porque, pela primeira vez em muito tempo, tivesse tomado uma decisão por mim mesma.

Na manhã seguinte, desci as escadas e encontrei a casa silenciosa. Preparei café para nós duas e, enquanto comíamos, contei a Kimberlly todos os meus planos.

Eu iria para Goiás.

Ainda não sabia exatamente como seria minha vida depois daquela mudança, mas sabia que precisava recomeçar. Precisava me afastar de tudo que me lembrava Matthew, daquele casamento e, principalmente, da mulher que havia me tornado ao lado dele.

— E quando você vai viajar? — Kimberlly perguntou, curiosa.

— Hoje.

Ela quase engasgou com o café.

— Hoje?

Assenti.

— Não quero mudar de ideia.

Kimberlly ficou alguns segundos em silêncio. Depois, seus olhos se encheram de lágrimas.

— Vou sentir tanta saudade de você, minha vaca preferida.

Soltei uma risada.

— Sou sua única amiga preferida.

— Isso não vem ao caso.

Nós duas rimos, mas logo o sorriso dela desapareceu.

— Não me abandona, hein? Quero que você sempre me ligue. Quero saber como você está, se está comendo direito, se encontrou um lugar para ficar... Quero saber de tudo.

— Pode deixar.

— Promete?

— Prometo.

Depois do café, abracei minha amiga por alguns minutos. Eu não queria chorar, então me afastei antes que as lágrimas escapassem.

Peguei minhas coisas e fui para a casa da minha avó.

Assim que cheguei, dona Romena me recebeu com um abraço apertado. Ela percebeu imediatamente que havia alguma coisa diferente em mim e perguntou como eu estava.

Contei tudo.

Falei sobre minha decisão de ir para Goiás, sobre os meus planos e sobre a necessidade que sentia de começar uma nova vida.

No fim, estendi o convite.

— Vó, vem comigo.

Ela me olhou com carinho, mas balançou a cabeça.

— Minha filha, toda a minha vida está aqui no Rio de Janeiro, não sei viver em outro estado.

Sabia que não conseguiria convencê-la.

Dona Romena tinha construído sua história naquela cidade. Suas lembranças estavam ali. Sua casa, seus amigos, sua vida inteira.

Abracei minha avó e senti os olhos se encherem de lágrimas.

— Então me dá a sua bênção?

Ela segurou meu rosto entre as mãos e me beijou na testa.

— Que Deus te acompanhe, minha menina. Vá atrás da sua felicidade. E nunca se esqueça de quem você é.

Aquelas palavras ficaram gravadas dentro de mim, peguei minha mala, abracei minha avó mais uma vez e parti para o aeroporto.

Assim que cheguei, fiz todos os procedimentos necessários e fiquei esperando o horário do embarque.

Sentada naquela sala, com a mala ao meu lado, olhei ao redor.

Pessoas indo e vindo.

Famílias se despedindo.

Casais se abraçando.

Crianças correndo.

E eu estava ali, sozinha, prestes a embarcar para uma vida que não fazia ideia de como seria.

Estava com medo e talvez estivesse cometendo a maior loucura da minha vida, mas, pela primeira vez, aquela loucura era minha.

Uma hora depois, meu voo foi anunciado.

Levantei-me e peguei minha mala. Estava prestes a caminhar até o portão de embarque quando meu celular apitou, avisando que uma nova mensagem havia chegado.

Peguei o aparelho e olhei para a tela.

A mensagem era de Matthew.

Meu coração, traidor como sempre, acelerou por um instante.

Será que ele descobriu que eu estava indo embora e estava querendo que eu voltasse. Será que estava me perguntando onde estava

Talvez e será, haviam se tornado minhas palavras mais ditas nesses últimos três anos.

Abri a mensagem.

“Peça flores e o chocolate favorito de Camile, não se esqueça.”

Li uma vez.

Depois, li novamente e uma terceira vez, apenas para ter certeza de que não estava interpretando errado.

Não havia nenhuma pergunta sobre mim.

Nenhum “onde você está?”.

Nenhum “quando você volta?”.

Nenhum “precisamos conversar”.

Nada.

Ele só queria que eu comprasse flores e o chocolate favorito da sua querida amiguinha.

Camile.

A mulher por quem sempre havia sentido que existia algo diferente em seu olhar.

Meu peito apertou dolorosamente.

Hoje era o meu aniversário.

Meu aniversário.

E, ainda assim, Matthew sequer se lembrava, ou talvez lembrasse e simplesmente não se importasse.

Engoli em seco e bloqueei a tela do celular.

Por muito tempo, havia esperado que ele me surpreendesse. Que aparecesse com flores. Que me desse um presente. Que dissesse que me amava. Que, pelo menos uma vez, olhasse para mim como eu olhava para ele.

Mas talvez aquele fosse o presente que eu precisava receber.

A verdade.

Respirei fundo e comecei a caminhar em direção ao portão de embarque.

— Espero que vocês dois façam bom proveito da companhia um do outro — pensei, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto. — Espero que se casem e tenham muitos filhos.

Parei por um instante, enxuguei a lágrima e continuei andando.

Matthew Montenegro não fazia ideia de que aquela mensagem seria uma das últimas coisas que eu receberia dele como esposa.

E ele também não fazia ideia de que, naquele momento, enquanto embarcava para Goiás com o coração partido, estava deixando para trás a mulher que passou três anos esperando ser escolhida.

A partir daquele dia, escolheria a mim mesma.

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