LOGINMatthew Montenegro
Um mês depois O café estava errado. Franzi o cenho assim que levei a xícara aos lábios e, depois de provar apenas um gole, coloquei-a sobre a mesa, afastando-a de mim. — Quem fez isso? — perguntei. O mordomo, que estava próximo à mesa, pareceu confuso com a pergunta. — O café, senhor? — Ele perguntou confuso. — Sim. Ele olhou para a xícara e depois para mim. — A receita é a mesma de sempre. Franzi ainda mais o cenho e neguei com a cabeça. — Não está igual. O homem hesitou por alguns segundos antes de responder. — A senhora Samyra costumava prepará-lo. Fiquei em silêncio. Por algum motivo, aquelas palavras fizeram com que eu olhasse novamente para a xícara. Samyra. Foi então que percebi algo que deveria ter notado muito antes. Durante três anos, era ela quem preparava meu café. Não importava se eu acordava cedo para uma reunião, se precisava sair às pressas para o aeroporto ou se passaria a manhã inteira trancado no escritório. Meu café sempre estava sobre a mesa, exatamente do jeito que eu gostava. Sem açúcar demais. Sem estar frio. Sem precisar pedir. Ela simplesmente sabia e eu nunca havia me dado ao trabalho de perguntar como. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouvi passos vindos da escada. Camile apareceu, descendo tranquilamente, usando uma das minhas camisas. — Leve esse café de volta e peça para a cozinha preparar outro — ordenei ao mordomo, tentando afastar aqueles pensamentos. — Se até Samyra conseguia preparar um café decente, por que as cozinheiras não conseguem? O mordomo assentiu imediatamente e pegou a xícara. Camile caminhou até mim e se sentou ao meu lado. Inclinou-se e depositou um beijo em meu rosto. — Bom dia, Matthew. — Bom dia. Olhei para ela por alguns segundos. — Você dormiu aqui? Camile sorriu como se a pergunta fosse óbvia. — Sim. Esqueceu que estava tarde demais para eu voltar para casa? Respirei fundo e assenti. Não havia nada de estranho no fato de Camile dormir ali. Ela fazia isso com frequência. Sempre fora próxima de mim e, durante muito tempo, eu havia considerado sua presença algo natural. Mas, naquele momento, alguma coisa parecia diferente. Talvez porque, durante o último mês, minha casa tivesse ficado estranhamente silenciosa. Depois que Samyra foi embora, as coisas simplesmente começaram a desandar. Minha agenda estava uma bagunça. Algumas reuniões eram marcadas em horários errados. Documentos importantes apareciam fora de ordem. Eu chegava ao escritório e descobria que havia esquecido compromissos que antes jamais passariam despercebidos. Até minha casa parecia diferente. Não sabia explicar. Talvez fosse apenas impressão minha. Talvez fosse porque eu estava acostumado com a organização impecável de Samyra. Ela sabia onde estavam meus documentos, minhas gravatas, meus relógios, meus contratos e até os malditos botões de punho que eu quase nunca encontrava quando precisava deles. Durante três anos, ela havia feito tudo aquilo sem que eu precisasse pedir. E agora eu percebia o quanto dependia daquela rotina. — No que está pensando? A voz de Camile me trouxe de volta. Ela tocou meu braço e me encarou com curiosidade. — Preciso de uma nova assistente. Camile arqueou uma sobrancelha. — Uma nova assistente? — Minha agenda está uma bagunça. Ela sorriu. — Quer que eu te ajude? Olhei para ela e quase sorri. Camile era estilista. Não fazia a menor ideia de como administrar minha agenda, organizar reuniões ou acompanhar contratos. — Você é estilista, não uma assistente. Ela deu uma risada. — Eu poderia aprender. — Não duvido. Sorri de leve e ela sorriu de volta. Peguei meu celular sobre a mesa. Por alguma razão, meus dedos foram diretamente até o contato de Samyra. Fiquei olhando para o nome dela durante alguns segundos. Poderia simplesmente ligar, mas não queria. Não sabia por quê. Talvez porque não quisesse dar a ela a satisfação de saber que havia sentido sua falta. Talvez porque ainda estivesse irritado por ela ter ido embora sem sequer conversar comigo ou talvez porque, no fundo, não soubesse o que dizer. Depois de alguns segundos, comecei a digitar. “Já parou de birra? Volte para casa.” Li a mensagem antes de enviá-la. Não havia pedido de desculpas. Não havia explicação. Era apenas uma ordem, como estava acostumado a fazer. Apertei enviar. Esperei. Nada. Olhei novamente para a tela. A mensagem não havia sido entregue. Franzi o cenho. Tentei novamente. Nada. Meu olhar ficou preso ao celular. Será que ela estava sem sinal? Talvez estivesse viajando. Talvez tivesse trocado de número. Ou... Meu estômago se contraiu. Será que Samyra havia me bloqueado? Levantei os olhos lentamente. Por que aquela possibilidade me incomodava tanto? Passei a mão pelo rosto, incomodado com aqueles pensamentos. — Algum problema? — Camile perguntou. Olhei para ela. — Não. Bloqueei o celular e o coloquei sobre a mesa. Não demorou muito meu mordomo me entregou um envelope pardo, então abri e quando li fiquei surpreso. Ela se divorciou de mim?A pergunta era simples, mas, depois de tanto tempo, era exatamente o tipo de pergunta que eu teria esperado ouvir quando ainda éramos casados.Agora não significava nada.Virei-me lentamente.— Estou ótima.Sorri.— Espero que o senhor também esteja.E saí.Deixei Matthew Montenegro sozinho na sala, cercado por seus diretores e por uma proposta milionária. Pela expressão que vi antes de fechar a porta, tive a impressão de que ele não estava mais pensando no contrato.Estava pensando em mim.Assim que as portas do elevador se fecharam, Kimberlly segurou meu braço.— Amiga, ainda bem que você me deixou ver isso! Você foi perfeita! E o Matthew... Caralho! O Matthew estava sem palavras, te encarando como se tivesse acabado de descobrir que você era outra pessoa.— Ele realmente ficou surpreso.— Surpreso? Aquele homem quase esqueceu como respirar.Verônica soltou uma risada enquanto apertava o botão do térreo.— Preciso admitir que também fiquei curiosa.Olhei para ela.— Com o quê?— Com
Não respondi à pergunta de Matthew imediatamente.Em vez disso, virei-me para todos os presentes na sala. Alguns não me conheciam e me observavam com curiosidade, tentando entender por que o presidente do Grupo Montenegro parecia tão desconcertado diante de uma mulher que acabara de entrar na sala. Outros, porém, sabiam exatamente quem eu era.Reconheci alguns rostos.Pessoas que haviam trabalhado comigo.Pessoas que, cinco anos antes, passavam por mim nos corredores sem sequer imaginar que aquela mulher que carregava documentos, organizava reuniões e corria para resolver os problemas de Matthew era, na verdade, a esposa dele.Alguns haviam me chamado de sombra.Outros simplesmente achavam engraçado o fato de eu estar sempre atrás do presidente.Naquela época, ninguém fazia ideia do que existia por trás daquela aparência.Hoje, eles teriam de prestar atenção em cada palavra que saísse da minha boca.Endireitei os ombros e sorri.— Bom dia a todos. Sou Samyra Aquilla, CEO da Aurea Desi
SAMYRA AQUILLAEstava terminando meu café quando a campainha tocou. Olhei para o relógio e franzi a testa. Verônica havia avisado que chegaria mais tarde, então imaginei que pudesse ser algum funcionário do prédio ou até mesmo uma entrega. Caminhei até a porta e, quando a abri, encontrei Kimberlly parada do outro lado com um sorriso enorme no rosto e uma expressão que, conhecendo minha amiga como conhecia, só podia significar problema.— O que faz aqui tão cedo, Kimberlly?— Vim porque não vou perder a sua entrada triunfal e, principalmente, a cara daquele besta do seu ex-marido quando perceber quem está entrando na sala dele.Ela deu uma risadinha satisfeita e entrou sem esperar convite.Balancei a cabeça negativamente.— Você é ridícula.— E você me ama mesmo assim.— Infelizmente.— Também te amo.Fechei a porta e voltei para a cozinha.— Vem tomar café comigo, porque sei que você não deve ter comido nada.— Eu trouxe minha própria fome.— Isso explica muita coisa.Ela puxou uma ca
MATTHEW MONTENEGROTerminei de me arrumar e saí do quarto conferindo as horas no relógio. Camile me esperava em um restaurante que costumávamos frequentar, e ela odiava atrasos. Não que eu estivesse acostumado a prestar contas dos meus horários, mas conhecia minha amiga o suficiente para saber que cinco minutos de atraso seriam suficientes para receber uma reclamação durante o jantar inteiro.O motorista já aguardava na porta. Entrei no carro e aproveitei o trajeto até o restaurante para responder algumas mensagens relacionadas ao Grupo Montenegro. Desde que Samyra havia desaparecido da minha vida, minha rotina tinha se tornado mais complicada do que deveria. Durante algum tempo, atribuí aquilo à falta de uma boa assistente. Depois contratei outras pessoas, reorganizei minha agenda e coloquei funcionários diferentes para cuidar das tarefas que antes ficavam sob responsabilidade dela.Nada funcionou exatamente como antes.Era irritante.Ainda mais porque não conseguia entender por qu
SAMYRA AQUILLAMinha amiga me encarou por alguns segundos, esperando uma resposta que, para mim, já estava muito clara.— Sim, Kim.— Você não sente mais nada por aquele ordinário, certo?Kim perguntou com uma expressão desconfiada, como se estivesse tentando encontrar alguma mentira escondida atrás das minhas palavras. Apenas neguei com a cabeça e mantive o sorriso tranquilo.— Não sou uma mulher que vive de migalhas, amiga. Aprendi isso da pior maneira possível. Agora vivo por mim, pela minha avó e pelo que construí com as minhas próprias mãos.— E eu? — perguntou, levando a mão ao peito e fingindo que estava fungando. — Vou ser esquecida?Revirei os olhos.— Você também, óbvio.— Assim está melhor.Kim abriu um sorriso satisfeito, como se tivesse acabado de receber a confirmação mais importante da noite.— Agora vamos parar de falar sobre o idiota do seu ex-marido e comemorar. Você voltou para o Rio, sua empresa está indo muito bem, seu apartamento é lindo e amanhã vai fechar mais
Meu sorriso desapareceu. — Que tipo de problema? Ela hesitou. — Não sei como você vai reagir. Cruzei os braços. — Vero, depois de tudo que já enfrentamos com essa empresa, dificilmente alguma coisa vai conseguir me assustar. — Tem certeza? — Não. Ela respirou fundo e virou o tablet na minha direção. — Então olha isso. Aproximei-me. Havia uma lista de empresas com as quais a Aurea Design estava negociando futuras parcerias. Li os primeiros nomes sem prestar muita atenção, até meus olhos pararem em uma determinada linha. Meu corpo inteiro ficou imóvel. Grupo Montenegro. Por alguns segundos, tive a sensação de que o ar havia desaparecido da sala. Não era possível. Passei os olhos pela tela novamente. O nome continuava ali. Grupo Montenegro. Cinco anos. Cinco anos sem ouvir aquele nome. Cinco anos sem vê-lo. Cinco anos tentando construir uma vida em que Matthew Montenegro fosse apenas uma lembrança distante e agora o passado aparecia em uma planilha empresarial. Q







