LOGINPor alguns segundos, esqueci como respirar. A frase continuava diante dos meus olhos. "Para minha filha, que nunca deveria ter nascido." Não sabia o que me assustava mais: aquelas palavras ou a possibilidade de que tivessem sido escritas pela mesma mulher que, durante toda a minha infância, beijava minha testa antes de dormir e dizia que eu era a melhor coisa que havia acontecido em sua vida. Minha mãe. A mulher que eu havia enterrado em minhas lembranças. A mulher cuja voz acabou de atravessar uma casa inteira. E agora havia uma carta. Mais uma. Porque aparentemente minha família tinha transformado correspondências em uma espécie de herança maldita. — Não se aproxime — Kellan ordenou. Olhei para ele. — Você não vai me dizer o que fazer. — Scarlett, pelo amor de Deus... — Não! Você já teve oportunidades suficientes para me contar a verdade. Não vai escolher mais uma vez o que eu posso ou não descobrir. A porta do quarto continuava entreaberta. O envelop
O silêncio que veio depois daquela mensagem foi diferente de todos os outros. Não era ausência de som. Era a sensação de que alguma coisa tinha acabado de ser revelada, embora ninguém soubesse exatamente o quê. Olhei para a tela do meu telefone. ELE TAMBÉM ABRIU A PORTA. Li uma vez. Duas. Três. Então ergui os olhos para Kellan. Ele continuava parado diante de nós, com o rosto pálido e os olhos fixos na tela. Não parecia surpreso com a mensagem. Parecia alguém que acabara de ouvir uma sentença que esperava havia muito tempo. — O que significa isso? — perguntei. Ele não respondeu. — Kellan, estou falando com você. — Afaste-se da porta. Soltei uma risada incrédula. — É só isso que você consegue dizer? — Scarlett, por favor. — Não. Chega de por favor. Chega de respostas pela metade. Chega de você decidir quando eu posso saber das coisas! Meu irmão soltou a maçaneta e se virou para ele. — Acho que ela tem razão. Você vai começar a falar agora. — Não
Ninguém se mexeu. As três batidas tinham sido discretas. Quase educadas. Ainda assim, ecoaram pela mansão como se alguém tivesse batido por dentro das paredes. Meu filho agarrou a blusa da minha irmã e escondeu o rosto no pescoço dela. Floco rosnou junto à porta da cozinha, o pelo eriçado na nuca. O dragão de pano continuava no chão, caído de lado, com a fotografia apertada na minha mão. “Não abra.” A mensagem ainda brilhava na tela. Meu irmão foi o primeiro a reagir. Estendeu o braço para a porta da sala. — Espera — disse Kellan. Meu irmão parou, mas não se virou. — Você acabou de dizer que uma carta da mãe dela era para o filho de vocês. Acho que já passou da hora de parar de decidir o que a gente pode ou não pode fazer. — Não sabemos quem está lá fora. — Por isso mesmo — respondi. — Ninguém vai abrir. Olhei para Kellan. — Você reconheceu a letra? Ele não respondeu. — Kellan. — Reconheci. Minha mão apertou a fotografia. — De quem é? — Da sua mãe. O telefone vibrou
Não contei a ninguém. Mas, quando cheguei à mansão, comecei a contar as janelas acesas. Uma. Duas. Três. A luz do escritório estava acesa. A da sala também. No andar de cima, uma janela permanecia escura — a do quarto que meus irmãos usavam quando queriam ficar longe do barulho. Reconheci o carro de um deles junto à entrada e o de Kellan na lateral da casa. Todos estavam em casa. Mesmo assim, demorei alguns segundos antes de abrir a porta. Meu filho se remexeu no meu colo, impaciente. O dragão de pano estava preso contra o peito dele, uma das asas amassada entre seus dedos. — Já chegamos — murmurei. Ele encostou o rosto no meu ombro. Atrás de mim, a rua parecia vazia. O carro escuro que eu tinha visto pela manhã não estava ali. Olhei para o outro lado, depois para o retrovisor. Nada. Ainda assim, fiquei com a sensação incômoda de que alguém tinha acabado de sair do meu campo de visão. Abri a porta. A mansão estava cheia de sons conhecidos: vozes vindas da cozinha, passos no
A mensagem chegou no fim da tarde, quando o passeio ao parque já começava a parecer distante e todos tentavam voltar à rotina. Eu estava na cozinha, guardando as coisas que tinham sobrado. O dragão de pano do meu filho repousava sobre uma cadeira, com uma das asas ainda dobrada. Ele brincava no tapete da sala, empurrando o brinquedo pelo chão. Floco, cansado do passeio, acompanhava os movimentos com os olhos sem se levantar. Noah estava sentado perto dele, ocupado em encaixar dois blocos. De vez em quando, empurrava um terceiro na direção de Floco, como se o convidasse a participar. O cachorro cheirava o bloco e tornava a deitar. — Acho que ele ainda está descansando do parque — disse alguém. Noah olhou para o cachorro. — Fó. — É. Floco. Kellan estava no corredor, procurando as chaves. Os irmãos dele tinham ido embora pouco antes, e a casa parecia silenciosa depois de tanta gente. Eu prometera ficar só alguns minutos, mas ainda estava ali. Meu filho havia adormecido no sofá, co
A ideia do parque foi de Scar. Ela apareceu no meio do café da manhã, enquanto Noah tentava colocar uma colher dentro do copo e Kellan tentava convencê-lo de que leite não precisava ser mexido. — Podíamos levar todos ao parque temático — disse Scar. Ergui os olhos da minha caneca. — Todos? — Eu, meu filho e meus irmãos. Você, Kellan e os irmãos dele. E Floco, claro. Floco, deitado perto da mesa, levantou a cabeça ao ouvir o próprio nome. Noah também. — Fó — disse ele. — Isso mesmo — respondeu Scar. — Floco vai junto. Noah bateu a colher na mesa. — Mais. — Ainda não — expliquei. — Primeiro a gente precisa se arrumar. — Mais — insistiu ele. Kellan olhou para Scar. — Você disse “parque” como se fosse uma coisa simples. — É simples. A gente entra, anda por aí, vê as atrações, come alguma coisa e volta. — Com crianças pequenas, um cachorro e um grupo de adultos que provavelmente vai se separar antes de chegarmos ao portão? — Você está tornando isso complicado. — Estou des







