INICIAR SESIÓNMIRELA
O portão rangeu baixo, e eu soube que era ele antes mesmo de ver. O som dos passos firmes, a aura diferente invadindo o ambiente — como se o mundo parasse para prestar atenção na chegada de Thiago Abdalla. Tio Thiago. Ele estava ainda mais bonito do que eu lembrava. O tempo não parecia ter cobrado nada dele, só havia acrescentado os cabelos grisalhos e algo que eu não sabia nomear... força, talvez. Presença. Uma virilidade crua que dava medo e curiosidade ao mesmo tempo. Até agora, não consigo entender meus pais. Me deixar aos cuidados dele? Logo dele? Eles sempre foram tão críticos... viviam dizendo que o tio Thiago era um espírito livre, irresponsável, entregue a farras, mulheres e bebidas. Nunca se casou, nunca teve filhos. Nunca, até onde eu sabia, pensou em ser responsável por outra vida além da própria. Mas agora, era ele quem estava aqui. E, graças a Deus, era só por alguns meses. Logo eu faria dezoito anos e seguiria meu plano: faculdade, casamento, minha própria vida. — Eu estudo aqui no Rio, faço cursinho — falei, minha voz saindo mais dura do que eu pretendia. — Como vai ser? Ele me olhou como quem procura respostas no vento. Passou a mão pelos cabelos lisos e grisalhos, num gesto automático, bagunçando tudo... mas os fios, teimosos, voltaram ao lugar como se pertencessem à bagunça. — Mirela, eu... — ele hesitou e sorriu de canto, um sorriso meio culpado, meio charmoso. — Eu não sei, pra ser sincero. Você pode ir comigo. Vai ser uma experiência diferente pra você. Morar em São Paulo esses últimos meses, fazer novos amigos... depois você volta, faz a faculdade, reencontra tua galera. Revirei os olhos. Claro. Como se mudar de cidade fosse simples assim. Mas, no fundo, eu sabia que ele estava tentando fazer o melhor. Pelo menos ele veio, não me deixou sozinha como o resto do mundo. Antes que o orgulho me mandasse para longe, corri até ele e o abracei. O impacto foi imediato. O cheiro dele me invadiu, quente e bruto. Não era perfume de loja cara, era cheiro de homem. De sabonete fresco, de suor limpo, de força viva. Uma mistura que fez meu corpo inteiro acender em alerta. Senti meu rosto se afundar contra o peito dele, por cima da camisa social bem passada que amassou sob meu toque. As mãos dele pousaram nas minhas costas, grandes e quentes, firmes, como se ele pudesse me proteger do mundo inteiro. E, por um segundo longo demais, meu coração esqueceu a dor da perda... e só pulsou por ele. Que droga, Mirela. Tá louca? — pensei comigo mesma, tentando racionalizar o que meu corpo parecia não querer entender. Não era certo. Não podia ser. Mas o arrepio que desceu pela minha espinha quando ele acariciou meus cabelos, como se dissesse silenciosamente que eu estava segura, me traiu. Naquele instante, eu soube que alguma coisa dentro de mim tinha mudado. E não havia mais como voltar atrás. Mas logo me obriguei a soltar. Não queria que ele percebesse o que nem eu mesma entendia direito. Rafaela apareceu na porta, com os olhos vermelhos e a boca trêmula. Corri até ela e nos abraçamos com força. — Me manda mensagem quando chegar — ela sussurrou, apertando meus ombros. — Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, é só me ligar. Assenti, engolindo o nó que subia na garganta. Despedidas sempre foram difíceis pra mim... e essa parecia o começo de um capítulo que eu não sabia se queria viver. Thiago ajeitou minhas malas no porta-malas do carro enquanto eu me despedia da família da Rafa. Depois, com um aceno breve e um sorriso sem jeito, me chamou para ir. O caminho até o aeroporto foi silencioso. Eu olhava pela janela, as ruas do Rio desfilando rápidas diante dos meus olhos, como se eu estivesse deixando para trás não apenas minha cidade, mas toda a minha vida. De vez em quando, arriscava um olhar de canto para ele. E cada vez que olhava, encontrava aquele perfil forte, a mão firme sobre as coxas, o maxilar tenso. Ele também estava nervoso. Era estranho ver isso. Acostumada a ouvir histórias sobre o homem que dominava os céus e os negócios, eu via agora alguém tentando fazer o certo, mesmo sem saber como. No jatinho, sentei ao lado dele. O jatinho era confortável, mas o ambiente parecia pequeno demais para nós dois. O silêncio pesava, carregado de pensamentos não ditos. Em certo momento, ele me ofereceu o casaco dele quando percebeu que eu tremia com o frio do ar-condicionado. Quando envolvi o tecido pesado e quente ao redor dos ombros, meu corpo reagiu como se estivesse sendo abraçado de novo. Fechei os olhos e fingi dormir, mas cada batida do coração denunciava o contrário. Não é nada, Mirela. É só o cansaço, é o luto. Você tá carente, vulnerável. Vai passar. Me convenci disso até o avião pousar em São Paulo. E, quando os pneus tocaram a pista e o tio Thiago colocou a mão sobre o meu joelho, de forma protetora, para me manter firme, percebi que o desafio seria muito maior do que eu pensava. Não era só recomeçar uma vida longe de casa. Era recomeçar uma vida... ao lado dele.THIAGO Eu poderia dizer que estou cansado. E estaria sendo sincero.Tem brinquedo espalhado em todos os cantos da sala, tem uma boneca sem braço na mesa da cozinha, um carrinho atolado de massinha grudada na sola do meu chinelo e um giz de cera azul derretido no banco do sofá que, honestamente, nem quero saber como foi parar ali. Mas no meio desse caos, eu respiro fundo e sorrio. Porque esse caos... é meu. É nosso.Lucas já tem 8 anos. Tá um rapazinho. Inteligente, sensível, sempre com alguma pergunta que me faz parar pra pensar antes de responder. Às vezes me pego observando ele, como quem tenta gravar na memória cada gesto, cada olhar. Ele é o meu primeiro amor de pai, o que me ensinou o que era amar alguém com a alma, sem nenhuma dúvida.Gabriel, com 4, é um furacão. Grita, corre, escala o sofá, some, aparece, fala pelos cotovelos, responde como se tivesse o dobro da idade. Não tem tempo ruim pra ele, só quer brincar. Já me fez acordar com o rosto todo pintado de canetinha, e outr
MIRELA Nunca vou esquecer aquele silêncio.Aquele tipo de silêncio que parece engolir tudo: palavras, planos, esperança. Foi o que aconteceu no consultório, quando o médico respirou fundo antes de dizer:— Infertilidade masculina.Meus olhos buscaram os de Thiago. Ele ficou parado, como se não tivesse entendido de primeira. E eu entendi. Entendi que naquele instante ele se sentiu falho, culpado, menor. Eu quis correr pra ele, tirar aquela dor do peito dele, dizer que a gente ia ficar bem. Mas por um segundo… a gente só ficou em silêncio.Depois veio o choro. Dos dois. Sem vergonha, sem culpa. Só lágrimas e um abraço tão apertado que dava pra ouvir o coração do outro dizendo: “tô aqui”.Foi um luto. Não só pelo filho que não viria de nós dois, mas por todos os testes de farmácia que a gente comprou na esperança. Por cada exame. Por cada vez que eu acordei no meio da madrugada acreditando que, talvez, aquele enjoo fosse sintoma de gravidez.Mas sabe de uma coisa? A dor ensinou. A dor r
THIAGO Era uma daquelas noites em que o mundo inteiro parece calmo. O relógio já passava das duas da manhã, mas o sono não vinha. Fiquei deitado, só ouvindo a respiração suave da Mirela ao meu lado. Ela dormia tranquila, virada pra mim, o rosto relaxado, o cabelo espalhado no travesseiro. E eu ali, olhando pra ela com uma mistura de paz e urgência.A gente estava tentando. Tentando aumentar nossa família. Todo mês se enchia de esperança, de amor, de expectativa… e às vezes de silêncio também, quando o teste dava negativo. Mas ela nunca deixava a peteca cair. Ela sorria, dizia “tudo bem, ainda não era a hora”, e continuava acreditando. E esse jeito dela, essa força suave… isso me matava de amor por dentro.Me levantei devagar da cama pra não acordar ela e fui até o banheiro. Olhei meu reflexo por um tempo. Os olhos já não tinham aquela pressa de antes. Eu era outro cara. E tudo por causa dela e do Luquinhas. Eu me tornei um homem de verdade no dia em que Mirela segurou meu mundo com a
MIRELATem noites que o silêncio pesa. Que a casa parece grande demais, mesmo com o som suave da babá eletrônica no quarto ao lado, ou os braços fortes do Thiago ao meu redor. Tem noites que o escuro me transporta de volta para lugares onde jurei que nunca mais voltaria.É difícil explicar. Às vezes, estou ali, dormindo tranquila, com o som do ventilador girando e o cheiro do nosso bebê ainda preso nos lençóis. Mas, de repente, é como se o ar mudasse. E eu estou de novo frente a frente com Rodrigo se aproximando, transtornado. A arma em punho. O disparo. O sangue. O desespero.Acordo sempre da mesma forma: ofegante, o coração disparado e as mãos suadas. Algumas vezes, com um grito preso na garganta. Outras, chorando baixinho pra não acordar Thiago. Mas ele sempre acorda. Mesmo quando não diz nada, ele sente. Ele percebe.Essa noite foi mais uma dessas.Abri os olhos sentindo o peito apertado, os olhos marejados. E ali estava ele, o homem que mudou a minha história. Que segurou a minha
MIRELAA luz do luar entrava pelas frestas das cortinas, pintando o quarto de prata e sombras. Eu estava deitada de costas, com os dedos traçando círculos lentos na própria barriga, enquanto observava Thiago na porta do banheiro, escovando os dentes. Ele estava só de cueca, o corpo marcado pelo tempo e pela vida, mas que ainda me fazia tremer por dentro. Cada músculo, cada cicatriz, cada fio de cabelo grisalho naquele peito largo — tudo me excitava nesse meu marido gostoso. Ele cuspiu na pia, enxaguou a boca e então olhou pra mim pelo reflexo do espelho. — O que foi, pequena? — perguntou, a voz já mais grossa, como se já soubesse exatamente o que eu estava pensando. Sorri, mordendo o lábio. — Tô só pensando… que a gente devia aproveitar que o Lucas tá na cama ainda.Ele secou as mãos na toalha e virou-se, os olhos escuros queimando. — É mesmo? E o que você sugere?Arqueei uma sobrancelha, deixando minha mão descer devagar, passando pela barriga, até chegar na borda da minha calci
MIRELA A vida seguia num ritmo tão doce que às vezes eu me pegava perguntando se merecia mesmo tanta paz depois de tudo que já enfrentei. A nossa casinha vivia cheia de risadas, cheirinho de comida fresca, brinquedos espalhados pelo chão e o som do Lucas balbuciando coisas que só ele entendia. Estávamos perto do segundo aniversário dele e era impossível não me emocionar vendo o quanto ele crescia lindo, inteligente e amoroso.Mesmo nos dias mais cansativos, entre trabalhos da faculdade e as responsabilidades da casa, eu me sentia realizada. Ainda mais quando Thiago chegava do trabalho e me envolvia naquele abraço de corpo inteiro, como se ali ele estivesse dizendo silenciosamente:"Eu tô aqui com você. Sempre estive."Lucas era a mistura perfeita de dois mundos. Ele tinha os olhos vivos do pai biológico, que infelizmente já não estava entre nós, mas herdou a personalidade tranquila e afetuosa do Thiago. Sim, o Thiago. Meu marido, meu parceiro, meu melhor amigo. Ele não era o pai biol







