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Capítulo 2

last update publish date: 2025-12-31 10:03:55

Clara

O som das lutas na arena chega até mim, misturado com os gritos da plateia. Não sei exatamente o que está acontecendo, mas posso perceber que este não é um lugar para mim. Sinto cada vibração ao meu redor, cada batida de socos e o eco das pisadas no chão. O lugar está tão cheio de energia agressiva que quase consigo “ver” isso através dos sons e das vibrações. Tudo o que eu quero é sair daqui.

— É uma pena, priminha, que você não consiga enxergar. Você está perdendo cada monumento aqui — Isabela fala com a voz carregada de malícia, soltando um suspiro que me faz revirar os olhos.

— Não sei o que é pior: essa gente gritando feito louca só por ver dois brutamontes se socando ou você, quase tirando a calcinha para jogar neles — retruco, cruzando os braços e tentando ignorar o barulho ao meu redor.

— Deixa de ser careta e curta toda essa adrenalina.

Tento fazer o que ela sugeriu e foco nos sons ao meu redor. A vibração dos golpes no chão chega aos meus pés, como pequenas ondas de impacto que me fazem imaginar o movimento. Ouço o som seco de um soco acertando carne, seguido de um grito de dor abafado.

A multidão reage imediatamente, suas vozes se unindo em um rugido que enche o espaço. O barulho de passos rápidos ecoa na arena, um som pesado, irregular, como se os lutadores estivessem girando ao redor um do outro, buscando a abertura perfeita.

Outro golpe atinge o alvo, mais forte dessa vez. Posso quase sentir o ar se deslocando com a força do impacto. Há uma pausa, uma tensão palpável, e então o narrador grita algo sobre "um golpe espetacular."

A multidão explode novamente, um som tão alto que parece vibrar dentro do meu peito. Não consigo ver o que está acontecendo, mas é como se cada som, cada movimento ao meu redor desenhasse a cena na minha mente.

— Vamos tomar alguma coisa. Estou precisando beber algo — Isabela diz, puxando meu braço.

— Ótimo, estou com sede — concordo, deixando que ela me guie em direção ao bar.

O som ao nosso redor muda um pouco conforme nos afastamos da arena. As vozes ficam mais espaçadas, mas ainda consigo ouvir fragmentos de conversas. Um diálogo em particular chama minha atenção. As vozes são tensas, quase ríspidas, e fico intrigada com o tom da conversa.

— Você está maluco? — Diz uma voz grave e irritada. — A luta principal depende de você, e você está aqui, atrasado, como sempre!

— Não me enche — responde outra voz, mais rouca e cheia de desprezo. — Eu vou entrar e fazer o que tem que ser feito. Agora me deixa em paz.

Há algo na segunda voz que me deixa intrigada. Ela tem uma força contida, como se o dono dela estivesse à beira de explodir. Continuo caminhando com Isabela, mas não posso evitar tentar decifrar quem são essas pessoas e o que está acontecendo.

Antes que eu possa processar mais alguma coisa, sinto um impacto forte no meu ombro. Cambaleio para trás, e Isabela me segura a tempo de evitar que eu caia.

— Olha por onde anda! — Rosna a mesma voz rouca que ouvi há pouco.

A energia dele é tão intensa que quase sinto o peso das palavras. Seguro firme no braço de Isabela, tentando não perder o equilíbrio.

— Olha por onde anda você! — Retruco, irritada, levantando o queixo em direção ao dono da voz.

Há um instante de silêncio, e sinto que ele me observa, analisando.

— Hmph. — É tudo o que ele diz antes de continuar andando, me deixando ali parada.

— Nossa, que grosso! — Isabela exclama, mas logo acrescenta com um suspiro quase teatral — Mas que ele é um baita de gostoso, ah, isso ele é.

— Conhece ele? — Pergunto, estranhando o tom animado dela e tentando entender sua reação.

— Mas é claro, quem não conhece o gostoso do Miguel, ou melhor dizendo o “Rage”. Ele é o tipo de homem que atrai olhares em qualquer lugar em que esteja. Seu corpo é esculpido pelo treino intenso, músculos definidos como se tivessem sido moldados pela própria dor e disciplina. Ele é alto, com uma postura que exala confiança, e um olhar que transmite uma mistura de fúria controlada e uma calma que só quem sabe o que é enfrentar um adversário de verdade pode ter.

No octógono, ele é imbatível. Seu estilo de luta é agressivo, imprevisível, e o apelido "Rage" não poderia ser mais adequado. Quando ele está ali, parece que o mundo todo desaparece, e ele se torna uma máquina de vencer, uma tempestade de socos e chutes. Fora disso, Miguel tem uma aura de mistério, uma pessoa de poucas palavras, mas com uma intensidade que não se pode ignorar. Ele se impõe de maneira quase natural, e a tensão ao seu redor é palpável, especialmente para aqueles que não o conhecem.

— Hum, então ele é tipo o melhor lutador desse lugar?

— Com certeza. A luta dele é tão precisa que às vezes é até uma decepção, porque acaba tão rápido que nem dá tempo de admirar a beleza dele direito.

— Grande coisa — falo não acreditando nisso. Ela suspira, claramente encantada com ele.

— Estou falando sério. É como se ele tivesse um jeito único de dominar o lugar, sabe? Tudo acontece tão rápido que você mal consegue processar, mas é impossível não notar o quanto ele é... impressionante. É como se ele estivesse em outro nível, sabe? Parece que ninguém consegue realmente desafiar o "Rage".

— E ele vai lutar essa noite pelo visto.

— Vai e já te digo, ele não é só bom, é eletrizante. Quando ele sobe na arena, você sente o ambiente inteiro mudar. Todo mundo fica tenso, esperando o que vai acontecer. E o mais impressionante é que ele sempre sabe o momento exato de acabar com tudo. Não é apenas força, é técnica. E ele tem uma... presença. Não sei explicar, mas quando ele está ali, você sente que ele é o dono do lugar.

Aquelas palavras me deixam com uma sensação estranha. Não consigo deixar de pensar em como ela fala sobre ele com tanta adoração. Talvez eu devesse me importar menos com a situação e tentar curtir a experiência... mesmo que tudo aqui pareça tão fora do lugar para mim.

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