LOGINClara
A voz do narrador ecoa novamente, agora mais intensa, com uma energia elétrica no ar.
— E agora, senhoras e senhores, preparem-se para o grande momento da noite! A luta do "Rage" está prestes a começar!
O som da multidão cresce, uma mistura de gritos e aplausos, e sinto a excitação se espalhando como uma onda ao meu redor. Isabela me puxa, quase me arrastando pela multidão. As pessoas ao nosso redor gritam, ansiosas, e o barulho é quase ensurdecedor.
— Vamos, Clara! Vamos chegar na frente da arena! — Isabela grita no meu ouvido, sua voz carregada de adrenalina.
Eu tento acompanhar, mas a pressão do corpo das pessoas ao redor torna tudo mais difícil. Elas empurram, se aglomeram, e eu só consigo ouvir o ritmo apressado dos passos e o som das conversas misturadas com as explosões de aplausos.
— Eu vou te guiar, não se preocupa. Segura firme! — Isabela diz, apertando meu braço com mais força, me puxando para a frente.
Nosso caminho é interrompido por um empurrão de alguém que passa rápido demais, mas ela não perde o ritmo, me arrastando cada vez mais perto do octógono. Meu corpo sente a mudança de energia, as vibrações que acompanham o som da multidão.
Quando finalmente chegamos a uma boa posição, Isabela me empurra suavemente para frente, perto da borda. O octógono está agora a poucos metros de distância. A tensão é quase insuportável, o suspense criando um nó no estômago.
O narrador aumenta o tom de sua voz:
— O "Rage" entra no octógono agora! Preparem-se para ver a destruição que ele vai causar!
Eu não posso ver, mas posso ouvir tudo. O som do octógono sendo ajustado, os estalos das cordas, e a agitação da multidão crescendo ainda mais. O som dos socos no ar se torna nítido, e uma batida seca ecoa pelo ambiente. Minha respiração acelera enquanto o som das lutas reverbera nos meus ouvidos. Eu posso imaginar, mesmo sem ver, a intensidade daquilo tudo.
Isabela se aproxima, e eu a ouço suspirando, completamente encantada com a cena.
— Ele vai arrasar, Clara. Você não tem ideia de como ele é imbatível!
Tudo acontece rápido, o som da luta, os gritos da plateia, e cada som de impacto que reverbera até mim. Eu não posso ver, mas o som é tão vívido que quase posso sentir os músculos tensos do "Rage" em cada golpe. O som do metal ressoando, o impacto dos golpes contra a grade, o rugido da plateia. Tudo se mistura de forma caótica, mas clara o suficiente para me transportar para o centro da luta.
A voz do narrador explode no ar, carregada de emoção, fazendo a multidão ir à loucura.
— E é isso! O "Rage" vence novamente! Uma vitória surpreendente, meus amigos! Ele fez tudo acontecer mais rápido do que qualquer um poderia imaginar!
O barulho da plateia atinge um novo pico, uma mistura de gritos, aplausos e assobios que reverberam pela arena. Mesmo sem poder ver, sinto a vibração da excitação no ambiente, o impacto de cada grito que ecoa em meus ouvidos.
Isabela, ainda ao meu lado, está radiante, quase transbordando de entusiasmo.
— Eu te disse! Ele é imbatível! — Ela grita, me abraçando com empolgação.
— É, acho que você tem razão.
*****************
Após a luta, o ambiente se transforma. As pessoas começam a celebrar, gritando e dançando, enquanto o cheiro de bebida, cigarro e suor toma conta do ar, ficando mais forte a cada segundo. Isabela se perde em conversas animadas com os amigos, e eu fico no meu canto, tentando me distrair com os murmúrios ao meu redor. As conversas, longe de serem discretas, giram em torno dos lutadores. As meninas estão todas empolgadas, falando em como mal podem esperar para se aproximar deles, muitas quase desejando correr para a cama deles.
De repente, alguém na multidão grita:
— Sujou, galera! A polícia tá chegando!
O pânico toma conta. As pessoas começam a se mover rapidamente, tentando escapar antes que a polícia chegue. O som de passos apressados e de vozes alteradas preenche o ambiente. Isabela me agarra pela mão, me puxando para fora da confusão. No meio de tudo isso, sinto o desespero das pessoas tentando se esconder ou fugir da situação.
— Isso não está acontecendo — Isabela diz, quase como se não acreditasse. — Eles não podiam ter invadido agora...
Eu tento entender a situação, mas o empurra-empurra das pessoas ao redor me faz perder o controle. De repente, sou empurrada para longe de Isabela, e, sem saber para onde estou indo, acabo entrando em um local desconhecido. Fico parada ali, tentando manter a calma, mas, como não enxergo, tudo ao meu redor é apenas uma massa de sons e vozes. O caos da multidão e o barulho das sirenes da polícia se misturam, criando uma sensação de total desorientação.
Fico ali, sozinha, tentando não entrar em pânico, tentando ouvir um ponto de referência no meio de tudo isso. E, de repente, a voz de alguém corta o som da confusão.
— O que você está fazendo aqui? — Ouço uma voz, carregada de raiva, se aproximando de mim com passos firmes.
— Olá, é que durante a confusão eu acabei me perdendo e vir parar aqui — começo explicando, tentando encontrar algum vestígio de empatia, mas a sensação que essa voz me transmite é de pura indiferença.
— Você não deveria ter entrado aqui. Esse é um local proibido para o público — Sua voz é fria, e o tom de autoridade faz meu corpo se encolher involuntariamente.
— Ah entendo. É que durante a confusão eu me perdi da minha prima e então .... — continuo, mas sou interrompida pela frieza com que ele me responde.
— Isso não me importa. Apenas dê o fora daqui — Ele ordena, e meu coração acelera. O tom de sua voz é como aço, impessoal, quase como se eu fosse apenas mais um obstáculo em seu caminho.
— Certo — Acho que esse cara não é muito de conversa. Melhor eu sair daqui antes que ele me tire a força. Mas como faço isso, sem saber por onde entrei? Melhor pedir ajuda a ele. — Você poderia me ajudar a encontrar a saída? — Pergunto, minha voz já carregada de uma leve ansiedade, mas o silêncio que segue me faz hesitar.
— Olá, você ainda está aí? — Repito, a dúvida e o desconforto crescendo dentro de mim. A sensação de estar à mercê de alguém tão imponente, mas tão desconhecido, é como um calafrio que percorre minha espinha.
Se você chegou até aqui, obrigada por acompanhar essa história 💛Clara e Miguel significam muito pra mim, e eu adoraria saber o que você sentiu ao longo da leitura.Me conta aqui nos comentários 💛
MiguelAlguns anos depoisA casa nunca fica em silêncio.E, pra ser sincero, eu nem lembro mais como era quando ficava.— Anthony, volta aqui! — a voz da Clara ecoa pela sala, firme, mas carregada de riso.Eu observo da porta, encostado, sem me intrometer.Anthony passa correndo, os pés batendo rápido no chão, rindo como se tivesse descoberto o maior segredo do mundo.— Você não vai escapar de mim! — ela continua, indo atrás dele com cuidado, mas já conhecendo cada espaço da casa.Ele desvia, ri mais alto.— Mamãe, não!Eu balanço a cabeça, soltando um riso baixo.Minutos depois, ela finalmente alcança ele.— Te peguei.O riso dele diminui aos poucos, até virar aquele silêncio confortável de quem se rende.E então eu vejo.Ela passa a mão no rosto dele, reconhecendo cada detalhe do jeito dela.Com calma.Com carinho.Como sempre fez.— Meu menino…Anthony abraça ela sem pensar.Natural.Como se aquilo fosse o lugar mais seguro do mundo.E talvez seja.— Papai! — ele me chama logo depo
MiguelEu já enfrentei muita coisa na vida.Já entrei em luta sabendo que podia sair quebrado.Já perdi.Já ganhei.Mas nada…nada me preparou pra isso.Clara aperta minha mão com força.— Miguel…A voz dela sai tensa.Controlada.Mas eu sei.Ela tá com dor.Muita.— Tô aqui — eu respondo na hora, me inclinando mais perto. — Tô com você.E não saio.Nem por um segundo.O hospital inteiro parece pequeno demais pra quantidade de coisa que eu tô sentindo agora.Ansiedade.Medo.E uma vontade absurda de trocar de lugar com ela.Se desse… eu trocava.Sem pensar.— Respira — eu falo, mesmo sabendo que ela já tá tentando.Minha mão segura a dela com firmeza.Como se isso fosse suficiente.Como se eu pudesse segurar tudo por ela.Mas não posso.E isso me mata.O tempo passa estranho.Rápido e lento ao mesmo tempo.Até que—Um choro.Alto.Forte.Novo.Meu corpo inteiro trava.Eu nem percebo quando paro de respirar.A voz do médico chega distante.— Parabéns, papai. É um menino grande e saudáv
HugoO salão inteiro parece mais leve hoje.Talvez seja a música, as luzes… ou talvez seja só eles.Meus olhos encontram Clara no meio da pista.Ela sorri.E não é qualquer sorriso.É leve. Solto. Verdadeiro.Miguel segura a mão dela com firmeza, conduzindo cada passo com cuidado… mas sem tratar ela como alguém frágil.E isso… isso me acerta de um jeito que eu não esperava.Por um momento, tudo que eu fiz… todas as escolhas, os medos, os erros…parecem valer a pena.Ela tá feliz.De verdade.— Você fez um bom trabalho.A voz ao meu lado me tira dos pensamentos.Eu nem preciso olhar pra saber quem é.Ainda assim, viro o rosto.Ela está ali, com uma taça de champanhe na mão, como se o tempo não tivesse passado… e ao mesmo tempo tivesse passado demais.Solto um pequeno suspiro.— Você também fez um bom trabalho.Ela arqueia levemente a sobrancelha, surpresa.Eu continuo:— No momento que ela mais precisou de você… você estava lá.Um silêncio breve se instala entre nós.Não é pesado.Só…
ClaraO silêncio que fica entre nós não pesa mais.Ele apenas… existe.Mais calmo.Mais sincero.Dou um passo pequeno na direção dele, guiada pela presença que sempre reconheci, mesmo sem ver.— Eu entendo, papai.Minha voz sai mais baixa, mas firme.— E… eu também errei.Há uma pausa.E então sinto quando ele se aproxima.Mais perto do que esteve desde que entrou.— Clara…A voz dele muda.Mais suave do que eu já ouvi em muito tempo.— Posso…Ele hesita por um segundo.Coisa rara.— Posso te levar até o altar?Meu coração dispara.Forte.Emocionado.Eu sorrio.— Eu adoraria.Sinto quando ele oferece o braço.Seguro com cuidado.Familiar.Seguro.Como sempre foi.E, dessa vez…Eu não sinto peso.Só… pertencimento.A porta se abre novamente.A voz da cerimonialista surge, mais baixa agora, respeitando o momento.— Está na hora.Respiro fundo.Uma última vez.Minha mão encontra minha barriga de forma automática.— Vamos — murmuro.Não sei se falo com meu pai…Com meu filho…Ou comigo me
ClaraO quarto está cheio.Não de silêncio, como o de Miguel provavelmente deve estar agora…mas de vozes, passos e pequenos movimentos que se cruzam o tempo todo.Eu consigo sentir.O som do tecido sendo ajustado.O leve arrastar de sapatos pelo chão.O perfume no ar — não um só, mas vários, se misturando.E, no meio de tudo isso…Eu.Parada.Respirando fundo, tentando acompanhar o ritmo do meu próprio coração.— Fica quieta, Clara, ou eu nunca vou terminar isso — minha mãe diz, com aquele tom firme que só ela sabe usar.Eu sorrio de leve.— Eu estou quieta.— Não está — minha prima responde quase no mesmo instante. — Ela mexeu o ombro agora, eu vi.— Eu só respirei — retruco.— Respirar também atrapalha — ela rebate, sem perder o tom animado.Eu solto uma pequena risada.Ela está elétrica.Mais do que o normal.E isso já diz muito.Sinto as mãos da minha mãe ajustando o tecido do vestido com cuidado, firme, mas delicado ao mesmo tempo.Há algo diferente no toque dela hoje.Mais… pre







