LOGINCarolina puxou o ar fundo, abraçou a almofada e voltou a se sentar no sofá, de cabeça baixa.— Desculpa...Henrique apertou os lábios num sorriso amargo e se recostou, também com a almofada nos braços.— Na época em que você terminou comigo, o que eu mais ouvi foi justamente essa palavra sua: desculpa.O coração de Carolina ficou pesado.Ela virou o rosto para a varanda, olhando o céu azul lá fora.Agora, já conseguia se sentar ao lado do ex e encarar com calma aquela dor do passado, a dor do rompimento que um dia quase a despedaçou.Pelo visto, Henrique também havia deixado aquilo para trás.Pelo menos, quando falava no assunto, já não havia mais aquele ódio feroz de antes.Muito menos a fúria de quando se reencontraram pela primeira vez e ele a ouviu dizer que não se arrependia da escolha que tinha feito, que, mesmo se pudesse voltar no tempo, escolheria tudo de novo. Naquele dia, ele a puxara para a escada, fora de controle como uma fera acuada, e a beijara com uma violência tão int
O sol de inverno aquecia a sala inteira.Carolina ergueu as duas mãos e as pousou no peito firme de Henrique.Ela não o afastou.Também não disse que não.Apenas deixou que aquele rosto bonito se aproximasse devagar, cada vez mais, até quase não restar distância entre os dois.Entre os lábios, sobravam apenas alguns centímetros.As respirações se misturavam, já impossíveis de distinguir.O ar ficou espesso. Quente. Denso demais.Mas Henrique não a beijou de imediato.Baixou os olhos para os lábios rosados dela e permaneceu ali, em silêncio, como se ainda esperasse uma permissão.Carolina sentia o coração prestes a explodir no peito.Aquela espera, carregada ao mesmo tempo de expectativa e conflito, era uma tortura deliciosa e cruel, daquelas que levam alguém ao limite.Então ele a tocou.Foi apenas um roçar experimental, delicado.Os lábios dos dois se encontraram com suavidade, macios contra macios, leves como uma pena roçando a superfície de um lago e abrindo pequenas ondulações sile
Henrique murmurou em voz baixa:— O que você está pensando?Carolina forçou um sorriso frágil.— O que eu poderia estar pensando?— Se você não sente nada, por que se importou tanto com a possibilidade de eu entender errado aquela história com o Marcelo? E por que fez questão de me mandar o vídeo original para provar que era inocente?O coração de Carolina disparou na mesma hora.Nervosa, ela tirou as pernas do sofá, pronta para calçar os sapatos e se levantar.— Eu vou fazer o seu jantar.Henrique segurou o pulso dela e a puxou com firmeza, trazendo-a de volta para o sofá.A voz dele ficou mais baixa, mais séria.— São três da tarde. Que jantar você vai fazer agora? Para de fugir. Responde.O coração dela bateu ainda mais descompassado, como se fosse saltar pela garganta.Diante daqueles olhos escuros, brilhantes como obsidiana, profundos demais, Carolina se sentiu perdida, agitada, sem saber onde esconder o próprio caos.Ela não queria responder.Então rebateu com outra pergunta:— E
— Doutor Emerson, o senhor está me elogiando demais.— Pelo que sei, muitos escritórios de advocacia de Nova Capital e Horizonte Novo já tentaram levá-la com propostas excelentes. Os salários eram altos. Como foi que você aceitou continuar em Porto Velho, trabalhando na assistência jurídica gratuita?Carolina manteve o olhar sereno, voltado para fora da janela.— A justiça não deveria ser um artigo de luxo. Por trás de cada caso pequeno, existe o destino de uma família inteira. Quando a lei passa a servir apenas às classes que podem pagar honorários altíssimos, ela já se desviou do princípio da equidade. Em vez de ir para um grande escritório e ser apenas mais uma advogada reforçando o que já é forte, prefiro ficar aqui e servir de amparo para quem realmente precisa.Havia, porém, uma camada ainda mais simples e mais dura por trás dessas palavras.Naquela época, ela não tinha dinheiro para contratar um advogado melhor e pedir a revisão do caso do pai. Foi por isso que estudou Direito s
Luana sorriu, sem jeito, e balançou a cabeça.— Eu não sei dirigir.Henrique sorriu com gentileza, num elogio espontâneo.— Sra. Luana, só o carinho que a senhora tem pela Carol já é mais do que suficiente.— Minha filha é cheia de frescura para comer desde pequena. Ninguém melhor do que eu sabe do que ela gosta e do que não gosta. Depois eu converso com a Jaque e ensino a ela alguns pratos que a Carol adora. — Luana respondeu, animada.Jaque entrou na conversa com educação:— Claro, Luana. Vou aprender bastante com você.Carolina interrompeu o movimento dos talheres por um instante. Baixou os olhos e permaneceu em silêncio, sentindo o coração estremecer de leve no peito.Sem Henrique, o mundo dela sempre fora solitário, vazio, carente de afeto.Mas ele... Como conseguia fazer aquilo?Bastava estar por perto para que todos passassem a gostar dela.Até a família dele a tratava com um carinho enorme, mesmo ela sendo uma garota de origem simples.Em qualquer outra família poderosa, provav
Carolina não conseguiu decifrar o olhar de Henrique.Ainda estava inquieta, achando que talvez ele estivesse de mau humor, sem vontade de jantar com ela, muito menos com a mãe dela.Então disse a Luana:— Mãe, eu levo você para jantar fora.O rosto de Luana fechou na mesma hora. Virando-se para Jaque, que saía da cozinha trazendo os pratos, perguntou:— Jaque, a comida não vai dar?— Tem comida suficiente. E, se precisar, ainda posso preparar mais dois pratos. — Jaque respondeu com educação.— Não precisa, eu como pouco. — Disse Luana, sem a menor cerimônia, já caminhando em direção à cozinha. — Não consigo ficar parada. Deixa que eu ajudo.Esse era o jeito de Luana: chegava e já se sentia em casa.Carolina viu a mãe entrar na cozinha e ficou ali, meio perdida, parada de forma constrangida.Henrique caminhou até ela.Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, Carolina se apressou em explicar:— Minha mãe veio me trazer batata-doce seca. Aí, lá embaixo, no condomínio, ela brigou com a
Saindo do quarto, Larissa e Leandro deixaram o apartamento de mãos dadas e entraram no elevador.Assim que a porta se fechou, Leandro não perdeu tempo. Envolveu Larissa num abraço e começou a acalmá-la, a voz macia, quase suplicante:— Desculpa, meu amor.Larissa o empurrou de leve, ainda emburrada:
Carolina pousou os talheres devagar. Mais da metade da tigela ainda permanecia intocada. Ela já não conseguia engolir mais nada.Pegou um guardanapo e limpou a boca com calma. Quando falou, a voz saiu fria, opaca, sem vida alguma.— Eu tenho vinte e sete anos, não dezessete. Como você acha que ainda
Carolina voltou para o quarto, tomou um banho, secou o cabelo e ficou parada diante da janela. Com cuidado, afastou a cortina e olhou para o prédio em frente.A casa de Amanda já estava completamente às escuras.O estômago roncou baixo e insistente, e aquela dorzinha conhecida voltou a se manifestar
Por um instante, Carolina ficou atordoada.Henrique… Estava preocupado com ela?Verdade ou não, ela não teve coragem de deixá-lo ainda mais aflito.— Acho que você entendeu errado. — Disse em voz baixa. — Eu só encontrei minha mãe perto do escritório… E ela me jogou no chão e me bateu.Henrique cong







