LOGINAchei que fosse a primeira a chegar, mas os diretores já haviam marcado uma reunião surpresa entre eles.
Eulália, a secretária da diretoria, devia ter uns quarenta anos. Era bonita, elegante, mas seu maior dom era a sapiência. Vivida. Observadora. Vivia me dando aulas — principalmente sobre como lidar com chefes. Liguei o computador e comecei a ler os e-mails. Depois de respondê-los, fui checar as demandas no porta-documentos sobre a mesa. Havia um envelope. Ao abri-lo, senti o estômago revirar. Um convite para jantar em um dos restaurantes mais badalados de São Paulo. E adivinha de quem? Adam Smith. Meu diretor de marketing. Como fugir desse homem? Olhei para a mesa de Eulália. Ela estava com o headset, falando ao telefone. Senti vontade de dividir aquilo com ela. Talvez pudesse me ajudar. — Não, não, você tá doida? — ela disparou assim que ouviu a história. — Isso já tá resolvido: você não vai! Fez uma pausa, pensativa. — Mas… é o restaurante mais concorrido do momento. E quando você vai ter outra oportunidade dessas? — continuou. — Vai, janta e depois vai pra casa. Não deixa ele te levar. Chama um táxi, um aplicativo… pronto! A quem eu queria enganar? Lógico que ia rolar alguma coisa. Assim que a reunião terminou, Adam me chamou pelo aplicativo Squad. Respondi dizendo que estava ocupada, que iria assim que pudesse. Na verdade, eu só queria ganhar tempo para pensar numa desculpa decente. Pensei até em matar minha avó — que já morreu mesmo. Mas conhecendo Adam, ele seria capaz de aparecer no velório. O Dr. Carlos Etiene me chamou para passar instruções sobre a organização da festa de aniversário da empresa. Bodas de prata. Vinte e cinco anos. Lembrei como se fosse ontem quando entrei ali. Eu tinha vinte anos, e a empresa comemorava quinze. Fizemos uma festa linda. Dez anos depois, a AVANCE estava ainda mais consolidada no mercado, atuando nas principais cidades e aeroportos do mundo, no ramo de locação de veículos. O Dr. Afonso, diretor executivo, foi quem me contratou. Trabalhava mais em home office e tudo dele passava por mim. Havia também o diretor de operações, Sr. André Smith — pai de Adam. O mais irritado dos três. Sempre de mau humor. Depois de resolver tudo o que dava, não tive mais como escapar. Entrei na sala do diretor de marketing. Óculos na ponta do nariz. Caneta na boca. Bloquinho na mão. Adam estava de costas, girado na cadeira. Quando ele virou… Meu coração quase parou. Ele estava com o membro nas mãos. — O que é isso?! — exclamei, chocada. — Ops… — disse ele, sem nenhuma pressa. — Pensei que você fosse gostar de me ver assim. — Você é louco?! Imagina se a Eulália entra comigo?! Adam, sem graça pela primeira vez, vestiu a calça. — Você tem razão. Me desculpa. Respirei fundo. — Quero deixar uma coisa clara. Nós não temos mais nada. Eu não saio com ninguém mais de uma vez. Pra mim foi só uma transa. Só isso. Com licença. Virei para sair. Adam levantou num salto e me segurou pelo braço. Olhei para ele sem acreditar. — Como é? Você está me esnobando? — Me solta. Você tá me machucando. — Eu não acredito que você não quer ficar comigo de novo. Foi tão bom… você gozou tanto. Eu precisava fazê-lo desistir. Precisava que ele ficasse com raiva. — Eu fingi — soltei, dura. — Todos os orgasmos. Fingi todos. O rosto dele mudou. Raiva pura. — Saia da minha sala! — Estou saindo. — Espera! Parei. Olhei para ele. Senti pena. Vontade de abraçá-lo, beijá-lo, dizer que o queria. Mas não. Eu precisava ser assim. Ele não me olhou, mas percebi a dor na voz. — De hoje em diante, você só vai se dirigir a mim profissionalmente. Meu contato será com a Eulália. Quero o mínimo de convivência com você. — Sim, senhor. Saí de cabeça baixa. Sentei na minha mesa, olhando para o Squad, esperando alguma mensagem. Nada. Vi quando Eulália entrou na sala dele. Meu peito apertou. Será que estavam transando? Levantei-me e caminhei até a porta, foi quando ela se abriu. Eulália saiu sorrindo. — Vai entrar? — perguntou. — N-não… tô só dando uma caminhada. Ficar muito tempo sentada não é bom. Ela estranhou, mas acreditou. As horas passaram. Adam saiu para almoçar com o pai. Passaram por mim sem sequer olhar. O Sr. Carlos pediu que eu pedisse comida japonesa para ele. Aproveitei e pedi para mim também. Quando o almoço chegou, levei o dele até a sala. — E esse aí? — perguntou, apontando para o meu pacote. — É o meu. — Almoça comigo. Não gosto de comer sozinho. — Tem certeza, Sr. Carlos? — Claro. Vamos pra mesa de reunião. Ele riu com aquela voz grave. — Você gosta de comida japonesa? — Gosto, mas não sei comer com pauzinho. Só com a mão. — Deixa eu te ensinar. Fui ajudá-lo. Fiquei atrás dele, segurei sua mão e posicionei o hashi. Estávamos rindo quando a porta se abriu sem bater. Adam. De terno azul. Simplesmente maravilhoso. E eu… praticamente por cima do Sr. Carlos, segurando sua mão. Adam ficou paralisado, como se estivesse vendo uma cena proibida. — Oh, Adam! — disse o Sr. Carlos, rindo. — A Ester está tentando me ensinar a usar os pauzinhos. — Hashi, Sr. Carlos — corrigi. — Já terminei meu almoço. Adam não me olhava. Olhava para a janela. — Etiene, preciso de uma informação. Só você pode me dar. — Claro, Adam. Voltei para minha mesa. Adam passou por mim como se eu não existisse. Mais tarde, enquanto trabalhava no planejamento da festa, uma mensagem surgiu na tela. *Adam:* “É por causa dele que você não me quer? Você tem um caso com o Sr. Carlos Etiene?” Tive vontade de rir. E de chorar. *Eu:* “Sr. Adam, não sei de onde tirou tamanha sandice. Como combinamos, vamos nos ater apenas a assuntos profissionais.” Quando ele leu, ouvi um grito vindo da sala dele. — Desgraçada!!! Meu expediente acabou. Avisei a todos, chamei o carro por aplicativo. Estava esperando na calçada quando alguém me puxou pela cintura. Adam. Ele me roubou um beijo. Um beijo intenso. E eu correspondi, segurando o pescoço dele. — Vem comigo — disse, segurando minha mão. — Eu não posso, Adam. — Por quê?! Meu carro chegou. Entrei correndo. — Vai, moço! Vai logo! Adam ficou ali, parado. Em casa, me despi e fui direto para o chuveiro. Precisava esfriar aquele corpo em chamas. Debaixo da água, chorei tudo o que tinha direito. Deitei pensando em Adam. No jeito que me olhava. Que me tocava. Que me desejava. Por quê? Por que ele tinha aparecido justo agora Demorei, mas acabei dormindo.É verão em Nova York.Estou sentada sobre uma toalha xadrez, no Central Park, observando Adam jogar Diego para o alto. Aquelas brincadeiras que deixam qualquer mãe apreensiva — e que as crianças simplesmente adoram. Diego gargalha alto, solto, confiante. Para ele, o pai é um herói invencível.Adam brinca com nosso filho como se o mundo ao redor não existisse. Quando está com Diego, nada mais importa. E eu fico ali, observando, com o coração cheio demais para caber no peito.O parque está lotado. Todos querem aproveitar o sol, o calor, a vida pulsando. Diego está prestes a completar dois anos. Fala pelos cotovelos, corre para todos os lados. Não posso desgrudar os olhos dele nem por um segundo. Aqui não tenho babá. Somos apenas nós dois. Nós três.Adam realizou o sonho de abrir a filial da AVANCE nos Estados Unidos. Mas foi além: a sede da empresa agora é aqui. Nova York se tornou o centro de comando. O Brasil virou filial. A AVANCE cresceu, se impôs, ganhou o mundo.Nicole assumiu a f
*Ponto de Vista de Adam* O Arquiteto de um Novo Amanhã O batizado do Diego não era apenas um rito religioso para mim; era o encerramento de um ciclo de sombras. Eu queria que tudo fosse impecável, uma celebração da vida que quase nos foi tirada. Escolhi a casa dos meus pais por ser um terreno sagrado, um lugar onde as paredes guardavam a história da minha própria infância e onde, agora, meu filho receberia sua primeira benção. Ester organizou cada detalhe do buffet, do estrogonofe ao penne, com uma precisão que beirava a obsessão. Eu queria que Ester se sentisse em um santuário, cercada apenas por aqueles que realmente importavam. Estávamos todos de branco, uma unidade visual de paz que eu esperava que se refletisse em nossas almas. Na igreja, ver a luz filtrada pelos vitrais atingir o rosto do pequeno Diego, enquanto meu pai e Cristina o seguravam, foi o momento de maior clareza que já tive. Eu não era apenas o CEO da AVANCE; eu era o guardião de um legado. Diego não chor
Organizei o batizado de Diego com cuidado quase obsessivo. A celebração seria na casa dos avós paternos. Contratei um buffet completo, responsável por toda a estrutura do evento. Como o batizado aconteceria às onze da manhã, optamos por um almoço tradicional, leve e elegante. Entradas com tábuas de frios e frutas, finger foods variados. Nos pratos principais, saladas frescas, penne ao forno e estrogonofe de filé-mignon. Tudo em sistema self-service, para que os convidados ficassem à vontade. O buffet também cuidou da decoração e da equipe de garçons. Restringi a lista de convidados. Primeiro porque a casa não era minha. Segundo porque se tratava de um momento íntimo, familiar. Na igreja, tudo transcorreu em paz. Os padrinhos — minha irmã Cristina e o Dr. André, pai de Adam — conduziram Diego até a pia batismal. O padre disse palavras bonitas, profundas. Diego não chorou. Adam e eu nos emocionamos. A igreja estava cheia; outras crianças também seriam batizadas naquela manhã
O dia estava bonito demais para ficar em casa. O parque cheio, famílias espalhadas pelo gramado, corredores dividindo o espaço com carrinhos de bebê e bicicletas. Enquanto eu corria, Dona Aidê cuidava de Diego ali perto. Era o nosso pequeno ritual de normalidade. Minha garrafa ficou vazia. Fui até a fonte. Quase trombei com alguém. — Ops, desculpa. — Tudo bem. Pode encher primeiro. — Não, eu faço questão. Levantei o olhar. Ele era bonito. Bonito demais para ser ignorado com naturalidade. Corpo atlético, olhos verdes, sorriso largo, boca bem desenhada. Enquanto falava, eu me dei conta de que não estava ouvindo nada. Só observando. — Você vem sempre aqui? — Eu… sim. Corro quase todos os dias. — Legal. Até mais. — Até. Fiquei parada por um segundo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Eu havia flertado. Eu, que tinha um marido atencioso, um homem que me amava, que me desejava, que me deu um filho saudável depois de tudo que pass
*O Ponto de Vista do Adam* A Ester estava exausta. Dava para ver nos olhos dela, no jeito que ela segurava o Diego como se fosse o único porto seguro em um mar de privação de sono. Quando ela me disse que a babá tinha vindo, mas que não sabia se precisava, eu nem dei espaço para discussão. Eu precisava da minha mulher de volta, e ela precisava de descanso. "Vou mandar colocar uma cama no quarto do Diego", decidi. Mal sabia eu o que estava colocando para dentro de casa. Naquela noite, tentei focar apenas na Ester. Dei banho nela, cuidei de cada detalhe com toda a paciência que eu ainda tinha, já que o resguardo estava testando meu autocontrole. Eu estava contido, mas o desejo por ela era uma chama constante. Na manhã seguinte, eu estava na cozinha preparando o café quando o interfone tocou. Tobias avisou que a Bruna havia chegado. Abri a porta e... uau. Eu esperava uma enfermeira padrão, talvez alguém com cara de avó. Em vez disso, vi uma mulher de vestido branco curto e u
Bruna era linda. Linda demais. Loira, cerca de um metro e setenta, corpo escultural, curvas bem desenhadas, cabelos longos que iam até a cintura. Técnica de enfermagem, especializada em cuidados com recém-nascidos. Perfeita no currículo. Excessiva na presença. E eu ia colocar essa mulher dentro da minha casa. Brincadeira, né? Cheguei a rir sozinha do absurdo — de nervoso, talvez. Até eu fiquei levemente afetada pela beleza dela. Ri, mas foi um riso desconfortável. — Então… o horário de trabalho — comecei tentando manter a postura. — Posso dormir no emprego, se desejar — respondeu com naturalidade. Aquilo soou íntimo demais. — Não sei se é uma boa ideia. Vamos fazer um período de teste. Tudo bem? — Claro. — Começamos amanhã. Ela foi embora. Quando Adam chegou, me encontrou descabelada, exausta, sentada na poltrona de amamentação com Diego no colo. — Então, amor… a babá veio? — Veio. Mas… não sei se preciso. — Claro que precisa — ele disse, olhan







