LOGINLiz acordou antes mesmo do despertador tocar.
Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando entender por que tinha aberto os olhos tão cedo, o corpo ainda pesado de sono, mas a mente já inquieta demais para voltar a dormir. Então se lembrou: a boate, o vestido preto emprestado, os olhos verdes fixos nela em meio à confusão da pista. Gabriel.
Virou-se para o lado, puxando o lençol até o queixo, como se aquele gesto simples pudesse, de alguma forma, protegê-la do próprio pensamento.
— Não — murmurou para si mesma. — Nem começa.
Era exatamente o tipo de ideia que ela precisava evitar, o tipo de fio que, se puxado com atenção demais, ameaçava desmanchar toda a lógica cuidadosa com que ela organizava a própria vida.
Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu a calça jeans e a camiseta branca de sempre, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto antes de seguir para a varanda, onde Bia e Duda já estavam de pé, os cafés fumegando sobre a mesa.
— Bom dia, celebridade — cumprimentou Duda, deslizando uma xícara na direção dela.
Liz revirou os olhos.
— Nem começa.
— Eu nem falei nada ainda.
— Mas eu conheço essa cara.
Bia riu, sentando-se de frente para ela.
— A gente só quer saber uma coisa.
— Não — respondeu Liz, pegando um pedaço de pão, tentando parecer mais desinteressada do que realmente estava.
— Você nem sabe o que eu ia perguntar.
— Sei.
Duda apoiou o queixo nas mãos, os olhos brilhando de expectativa.
— Gabriel.
Liz mastigou devagar, ganhando tempo.
— Não tenho nada pra falar sobre ele.
— Você passou a noite sonhando com ele?
— Não.
— Pensou nele?
O silêncio que se seguiu durou apenas um instante, mas foi tempo suficiente para que Bia abrisse um sorriso enorme, satisfeita.
— Pensou!
— Talvez por dois minutos — cedeu Liz, resignada.
— Dois minutos? — Duda arregalou os olhos, teatral. — Isso é praticamente um relacionamento sério, vindo de você.
Liz soltou uma risada, balançando a cabeça.
— Vocês são ridículas.
Olhou para o relógio, e o susto foi imediato.
— Meu Deus, eu estou atrasada!
— Escapou!
— Não estou escapando. Tenho trabalho.
Pegou a mochila às pressas, beijou as duas de leve e seguiu para a porta, ainda ouvindo Duda gritar atrás dela.
— Depois a gente continua essa conversa!
— Não existe conversa!
— Existe, sim!
Liz saiu rindo, e talvez essa fosse a parte mais perigosa de toda aquela manhã: ela estava sorrindo, e não conseguia parar.
No caminho para o trabalho, tentou se convencer de que aquilo não significava nada — Gabriel tinha sido apenas uma coincidência, um encontro casual no meio de uma boate lotada, uma conversa de poucos minutos que a multidão logo se encarregaria de apagar. Nada além disso.
Mas existem pessoas que entram na memória com uma facilidade quase irritante. Não pedem licença, não esperam ser convidadas, simplesmente ficam, instaladas ali como quem já morava naquele espaço havia tempos.
Gabriel tinha ficado.
Na cafeteria, Liz tentou mergulhar de cabeça na rotina — pedidos, cafés, mesas, notas, troco, mais cafés, a sequência automática que normalmente conseguia esvaziar sua mente de qualquer outra coisa.
— Dois expressos e um cappuccino! — chamou um dos funcionários, do outro lado do balcão.
— Já vai!
Ela pegou as xícaras, preparou o cappuccino com a destreza de quem repetia aquele gesto centenas de vezes por semana, mas, ao desenhar distraidamente uma pequena curva na espuma com a colher, parou. A curva lembrava, de um jeito quase absurdo, um sorriso — aquele sorriso discreto, quase imperceptível, que tinha visto no canto da boca de Gabriel na noite anterior.
— Sério? — murmurou para si mesma, balançando a cabeça antes de voltar ao trabalho.
Ao longo da manhã, aquilo se repetiu outras vezes — um lembrete solto da voz dele, do jeito cuidadoso como tinha pedido desculpas, do breve contato entre os dedos dos dois. Não era paixão, ela insistia consigo mesma. Era curiosidade. Uma curiosidade inconveniente, do tipo que surge quando alguém abre um livro por acaso e, mesmo sem saber se a história valerá a pena, sente vontade de virar mais uma página só para descobrir o que vem a seguir.
Liz queria saber qual seria a próxima página de Gabriel. E isso a incomodava profundamente, porque homens como ele — ou pelo menos era isso que ela sempre acreditara — simplesmente não faziam parte do mundo dela.
Quando o expediente terminou, trocou o uniforme, pegou a mochila e seguiu direto para a universidade, onde as aulas passaram entre anotações apressadas, conversas rápidas no corredor e a pilha de trabalhos que sempre parecia crescer mais rápido do que ela conseguia dar conta. Mas, naquela tarde, percebeu algo diferente em si mesma: estava feliz, e não exatamente por causa de Gabriel.
Era uma felicidade mais simples, mais conhecida. No dia seguinte teria o fim de semana livre, e para Liz aquilo equivalia quase a um feriado nacional — a chance de dormir um pouco mais, de pintar sem pressa, de ficar perto da família, e, principalmente, de ir ao Maracanã.
Ao sair da faculdade, mandou uma mensagem para a mãe.
**Liz:** Mãe, estou indo pra casa. Chego a tempo do jantar.
A resposta veio poucos minutos depois.
**Dona Neusa:** Vou esperar você. Fiz seu prato favorito.
Liz sorriu, sentindo aquela mensagem simples transformar qualquer resquício de cansaço em algo perfeitamente suportável. Quando chegou em casa, foi recebida pelo cheiro de comida se espalhando pela sala inteira.
— Cheguei!
— Minha filha!
Dona Neusa surgiu na porta da cozinha, o avental ainda amarrado na cintura, e Liz largou a mochila para abraçá-la com força.
— Que saudade.
— Você esteve aqui ontem — riu a mãe, retribuindo o abraço.
— E daí?
Sentaram-se juntos para jantar pouco depois, o irmão contando alguma história qualquer da escola, a avó reclamando baixinho do volume da televisão do vizinho, e Dona Neusa insistindo, como sempre, para que todos comessem mais um pouco. Era simples. Era apertado. Era barulhento. Era, acima de tudo, casa — e Liz amava exatamente aquilo, sem exceção.
Enquanto ouvia a família conversar ao redor da mesa, pensou que talvez tivesse sido justamente por ter crescido com tão pouco que aprendera a reconhecer o valor verdadeiro das pequenas coisas: um jantar em família, uma cama limpa, uma mãe que esperava por ela, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, um sábado livre pela frente, e um ingresso para o Maracanã guardado com cuidado na gaveta.
— Você vai mesmo amanhã? — perguntou o irmão, curioso.
— Claro.
— Vai sozinha?
— Não. Vou com a galera da faculdade.
— Vai ficar lá até o fim?
Liz sorriu, sem nenhuma hesitação.
— Até o último minuto.
Porque futebol, para ela, nunca tinha sido apenas futebol. Era memória. Era saudade. Era, acima de qualquer outra coisa, pai.
O segundo gol veio pouco depois do intervalo, e o estádio inteiro voltou a gritar como se a vitória já estivesse garantida. Dessa vez, porém, Liz não pulou. Em vez disso, levou as duas mãos até a camisa dobrada em seu ombro — a camisa do pai, que carregava consigo desde a manhã — e a beijou devagar, os olhos já marejados, os lábios se movendo num murmúrio baixo que só ela conseguia ouvir por completo.Gabriel observou a cena em silêncio, sem entender de imediato o que se passava, mas sentindo, com uma clareza estranha, que aquilo tinha um peso diferente de tudo mais que acontecia ao redor. Havia algo naquele gesto — na delicadeza com que ela segurava o tecido gasto, no jeito que fechava os olhos por um segundo antes de voltar a gritar junto com a torcida — que despertou nele mais curiosidade do que qualquer relatório financeiro jamais tinha conseguido.Ele não perguntou ali. Só guardou a pergunta, junto com a cena, para depois.O Fluminense venceu por dois a zero, e quando o apito fin
Por um instante que pareceu se esticar mais do que deveria, nenhum dos dois disse nada. Liz continuava parada, o coro da torcida ainda ecoando ao redor como se ninguém mais tivesse percebido que o tempo tinha, ali, resolvido parar de correr. Gabriel também não se mexia, o sorriso torto ainda preso no rosto, os olhos verdes presos nela com aquela mesma atenção inconveniente que já tinha feito Liz perder o fio dos próprios pensamentos uma vez.Foi Ícaro quem, como sempre, resolveu que silêncios daquele tamanho não deveriam existir por muito tempo.— Bom, já que ninguém aqui parece capaz de formar uma frase — disse ele, aparecendo ao lado de Gabriel com o copo erguido e um sorriso largo, cúmplice —, eu me apresento. Ícaro Mascarenhas, amigo de infância deste rapaz aqui que, aparentemente, esqueceu como se fala.Duda soltou uma risada alta.— Duda — disse ela, estendendo a mão. — E essa aqui do meu lado, tentando parecer discreta e falhando completamente, é a Bia.— Eu não estou tentando
Liz estava a poucos metros dali, de costas para ele, a camiseta verde, branco e grená colada ao corpo pelo calor, o rabo de cavalo balançando enquanto ela cantava — desafinada, animada, sem qualquer pudor — um coro que as amigas ao lado gritavam junto com ela. Havia algo na cena inteira que parou o tempo de Gabriel de um jeito quase indecente: os braços erguidos, os olhos fechados de riso, a felicidade tão inteira que parecia contagiar o ar ao redor.Ele ficou parado, cerveja esquecida na mão, incapaz de desviar o olhar.Ícaro percebeu a demora e seguiu a direção dos olhos do amigo. Levou apenas alguns segundos para juntar as peças — o jeito como Gabriel tinha congelado, a mulher de cabelo preto cantando sem se importar com quem olhava, a coincidência absurda demais para ser ignorada.— Não acredito — murmurou Ícaro, um sorriso enorme se abrindo no rosto. — Não acredito mesmo.— Cala a boca, Ícaro.— Gabriel. Gabriel, olha pra mim. Essa é a morena misteriosa?— Eu não disse nada.— Vo
O sábado chegou do jeito que Liz mais gostava: sem despertador, sem pressa, sem o peso do relógio empurrando cada movimento. Ela abriu os olhos sozinha, olhou para o teto por alguns segundos só para sentir o luxo raro de não precisar sair correndo de baixo do lençol, e sorriu antes mesmo de se lembrar por quê. Depois lembrou. Fluminense. Maracanã. A camisa do pai, dobrada com cuidado dentro do armário, esperando.Levantou-se com uma disposição que parecia contagiar até as paredes descascadas do quarto. Foi até a cozinha ainda de pijama, o cabelo solto e bagunçado, e encontrou Dona Neusa já de pé, como sempre, mexendo o café no coador de pano.— Olha só quem acordou sorrindo — disse a mãe, sem tirar os olhos da panela.— Hoje é dia de jogo, mãe. Não tem como não sorrir.— Também é dia da sua folga. Isso já era motivo suficiente.Liz riu, puxou uma cadeira e sentou-se sem aquela ansiedade costumeira de quem calcula o tempo entre um gole e outro. O irmão apareceu logo depois, ainda com c
Gabriel, por outro lado, tinha dormido mal. Muito mal.Às quatro e quarenta e cinco da manhã já estava completamente acordado, os olhos fixos no teto do quarto, tentando entender por que uma mulher que ele conhecera por poucos minutos tinha conseguido ocupar um espaço tão desproporcional em sua cabeça. Aquilo era absurdo, pensou. Tinha reuniões importantes pela frente, contratos que precisavam de revisão cuidadosa, uma empresa inteira esperando por suas decisões — e ali estava ele, deitado no escuro, pensando numa desconhecida.Uma linda desconhecida.Fechou os olhos.Liz.O nome parecia combinar perfeitamente com ela — curto, forte, difícil de esquecer, como se tivesse sido escolhido especificamente para grudar na memória de quem o ouvisse uma única vez.Levantou-se às cinco, decidido a aplicar a única estratégia que conhecia contra pensamentos barulhentos demais: cansar o corpo até a mente finalmente se render ao silêncio. Na academia, aumentou o peso além do habitual, correu por ma
Liz acordou antes mesmo do despertador tocar.Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando entender por que tinha aberto os olhos tão cedo, o corpo ainda pesado de sono, mas a mente já inquieta demais para voltar a dormir. Então se lembrou: a boate, o vestido preto emprestado, os olhos verdes fixos nela em meio à confusão da pista. Gabriel.Virou-se para o lado, puxando o lençol até o queixo, como se aquele gesto simples pudesse, de alguma forma, protegê-la do próprio pensamento.— Não — murmurou para si mesma. — Nem começa.Era exatamente o tipo de ideia que ela precisava evitar, o tipo de fio que, se puxado com atenção demais, ameaçava desmanchar toda a lógica cuidadosa com que ela organizava a própria vida.Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu a calça jeans e a camiseta branca de sempre, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto antes de seguir para a varanda, onde Bia e Duda já estavam de pé, os cafés fumegando sobre a mesa.— Bom dia, celebridad







