LOGINEle ainda sentia, na ponta dos dedos, o breve contato de quando ela pegara os guardanapos de suas mãos. Tinha sido apenas um toque. Um segundo, talvez menos. Mas o corpo dele reagira como se tivesse recebido uma pequena descarga elétrica, um arrepio subindo pela espinha antes que ele pudesse impedir ou sequer entender.
Gabriel nunca tinha sentido aquilo antes. E não gostava nada de não conseguir explicar.
— Você está me olhando estranho — comentou Liz, tirando-o daquele turbilhão silencioso de pensamentos.
Ele piscou, recompondo-se.
— Desculpa.
— Está tudo bem?
— Está.
Ela inclinou a cabeça, desconfiada.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mentira. Não estava. Porque Gabriel queria saber mais sobre ela — onde estudava, o que fazia, por que estava ali naquela noite, de onde vinha aquele jeito direto de falar, olhando nos olhos sem nenhum receio. Queria saber tudo, com uma urgência que o surpreendia mais a cada minuto.
— Você quer ir pro deck? — perguntou, num impulso. — Lá fora é mais tranquilo. Dá pra conversar sem precisar gritar.
Liz olhou na direção da área externa, e por um instante — breve, mas real — considerou aceitar. Havia algo nele que despertava uma curiosidade que ela não sabia bem como nomear, um desejo quase físico de continuar aquela conversa um pouco mais.
Mas então olhou para o relógio, e o rosto mudou completamente.
— Meu Deus!
— O quê?
— A hora.
Gabriel franziu a testa.
— Ainda está cedo.
— Pra você, talvez.
Ela já se virava, procurando as amigas com o olhar.
— Bia! Duda!
As duas se aproximaram rapidamente.
— Vamos embora!
— Agora? — Duda perguntou, surpresa.
— Agora!
Liz já pegava a bolsa, o gesto rápido demais para dar espaço a qualquer negociação.
Bia riu, incrédula.
— Liz, são quase duas da manhã!
— Exatamente!
Gabriel deu um passo na direção dela.
— Liz, espera.
Ela se virou.
— Oi?
— Eu...
Ele não sabia exatamente o que diria a seguir. Talvez pedir o telefone. Talvez perguntar quando a veria de novo. Talvez apenas dizer que gostaria de continuar aquela conversa outra hora, em algum lugar sem música alta o suficiente para engolir metade das palavras.
Mas Liz já estava sendo puxada por Duda, o momento escapando rápido demais entre os dedos dele.
— A gente se fala! — disse ela, sem perceber completamente a intenção presa na garganta dele.
— Liz...
Ela não ouviu. E desapareceu entre a multidão, deixando Gabriel parado ali, o copo esquecido na mão, os olhos ainda fixos na direção por onde ela tinha sumido.
Ícaro apareceu ao lado dele segundos depois, o sorriso já armado.
— Não acredito.
— O quê?
— Você.
— Eu o quê?
— Você acabou de tentar pegar o telefone de uma mulher.
— Não tentei.
Ícaro soltou uma gargalhada alta o suficiente para chamar atenção ao redor.
— Gabriel Mafra, o homem que passa meses sem responder uma única mensagem de flerte, acabou de ser abandonado no meio da pista.
— Ela estava com pressa.
— Claro que estava.
Gabriel ignorou o comentário, mas continuou olhando para aquela direção, incapaz de simplesmente deixar o assunto de lado.
Ícaro percebeu, o sorriso se abrindo ainda mais.
— Você gostou dela.
— Eu acabei de conhecê-la.
— Isso não foi uma resposta.
Gabriel pegou o copo sobre a mesa, decidido a encerrar aquela linha de investigação.
— Vamos embora.
Ícaro riu, seguindo o amigo pela pista.
— Você gostou dela.
— Cala a boca, Ícaro.
Liz só percebeu que estava praticamente correndo quando Bia começou a reclamar, ofegante, tentando acompanhar o ritmo.
— Mulher, você está tentando matar a gente?
— Eu precisava ir.
— Precisava? — Duda arqueou a sobrancelha, o tom carregado de ironia. — Ou queria fugir?
Liz não respondeu, e as três seguiram até o apartamento de Bia e Duda, na Urca.
Liz sempre se sentia um pouco deslocada naqueles lugares — não porque as amigas fizessem qualquer coisa para provocar aquela sensação, muito pelo contrário. Bia e Duda tinham crescido em famílias de classe média alta, moravam na Zona Sul e estavam acostumadas a uma realidade completamente diferente da dela. Ainda assim, desde o primeiro semestre da faculdade, tinham construído uma amizade genuína, daquelas que não dependem de dinheiro nem de origem para se sustentar.
Quando as aulas terminavam tarde, as duas sempre insistiam para que Liz dormisse no apartamento.
— Você não vai voltar pro Salgueiro essa hora — Bia dizia, séria.
— Eu posso ir de ônibus.
— Pode nada.
— Não quero incomodar.
— Você incomoda muito mais quando fica discutindo.
Duda costumava completar, sempre no mesmo tom prático:
— Tem quarto sobrando. Você dorme aqui e pronto.
Liz aceitava algumas vezes. Outras, não. Não gostava de sentir que estava ocupando espaço na casa das amigas — era orgulhosa demais para isso. E havia, além disso, Dona Neusa. A mãe sempre dizia que não precisava se preocupar, mas Liz conhecia aquela preocupação de perto demais para acreditar completamente naquelas palavras: conhecia a mãe acordada no sofá, olhando o celular a cada cinco minutos até finalmente ouvir a chave girando na porta.
Por isso, mesmo quando as amigas ofereciam abrigo, ela preferia voltar para casa sempre que conseguia. Naquela noite, porém, já estava cansada demais para discutir.
Assim que entrou no apartamento, jogou a bolsa sobre o sofá, os sapatos vindo logo em seguida.
Duda fechou a porta e cruzou os braços, o sorriso já pronto para o interrogatório.
— Então...
Liz nem olhou.
— Não.
Bia riu.
— A gente nem perguntou nada ainda.
— Mas eu conheço vocês.
— Quem era o gato? — Duda insistiu, sem rodeios.
— Não sei.
— Como assim não sabe?
— Eu não perguntei.
— Você estava conversando com ele.
— Estava.
— Ele estava olhando pra você.
— Percebi.
— E você estava olhando pra ele.
Liz tirou os sapatos, ignorando deliberadamente aquela última observação.
— Vocês estão exagerando.
Bia se aproximou, os olhos brilhando de curiosidade.
— Ele era lindo.
— Era — admitiu Liz, antes de perceber completamente o que tinha acabado de confirmar.
As duas ficaram em silêncio por um instante, e Liz, percebendo o próprio deslize, tentou consertar.
— Quer dizer... normal.
Duda levou a mão ao peito, teatral.
— Ela achou o homem bonito!
— Eu não disse isso.
— Disse com os olhos.
— Vocês são insuportáveis.
Liz pegou uma almofada e jogou em Duda, arrancando risadas das três, o clima leve dissolvendo qualquer resquício de tensão que a noite ainda carregava.
Depois de alguns minutos, Liz seguiu para o quarto.
— Boa noite.
— Não vai contar?
— Não.
— Nem o nome?
Liz parou na porta, hesitando por meio segundo antes de responder.
— Gabriel.
As duas sorriram ao mesmo tempo.
— Gabriel... — Bia repetiu, saboreando o nome como quem já pressente uma história inteira por trás dele.
— Boa noite — repetiu Liz, fechando a porta atrás de si.
Deitou-se na cama e tentou dormir. Tentou mesmo. Mas, toda vez que fechava os olhos, voltava para a boate — para os olhos verdes, para a voz grave, para aquele sorriso quase imperceptível que subia só um canto da boca. E, principalmente, para o toque, aquele segundo de contato que continuava ecoando na pele muito depois de qualquer motivo razoável para isso.
Liz virou para o lado, irritada consigo mesma.
— Ridículo — murmurou.
Aquilo não significava nada. Era apenas um homem bonito, de uma realidade completamente diferente da sua. Ela sempre pensara assim, e a noite não lhe dava motivo suficiente para mudar de ideia: homens como aqueles não se interessavam de verdade por mulheres como ela. Talvez por uma noite. Talvez por diversão. Mas nunca para algo sério, algo que resistisse à luz do dia seguinte.
Liz conhecia histórias demais para acreditar no contrário. Na cabeça dela, as diferenças sociais eram como duas margens de um mesmo rio: podiam parecer próximas, podiam até se olhar de frente, mas atravessar de um lado para o outro sempre exigia muito mais do que simples vontade. E ela não queria se machucar. Principalmente por alguém que, apostava, esqueceria seu nome antes mesmo do amanhecer. Foi com esse pensamento, teimoso e protetor, que finalmente fechou os olhos.
Na manhã seguinte, Liz acordou com o celular vibrando sobre a mesa de cabeceira. Ainda sonolenta, estendeu a mão até encontrá-lo.
Era uma mensagem de Bia.
**Bia:** Já acordou?
Liz franziu a testa, digitando a resposta com os olhos ainda semicerrados.
**Liz:** Acabei de acordar.
A resposta veio quase instantânea.
**Bia:** Então olha pela janela.
Liz se levantou, curiosa, e caminhou até afastar a cortina. Na varanda do apartamento estava Bia segurava uma caneca de café, enquanto Duda aparecia logo atrás fazendo sinais exagerados demais para qualquer explicação discreta.
Liz abriu a janela, sem conseguir conter um sorriso.
— Venha tomar café com a gente, precisamos conversar — respondeu Bia, solene.
Duda apareceu por completo, os olhos brilhando.
— Gabriel.
Liz fechou os olhos, suspirando.
— Vocês não têm mais o que fazer?
— Temos — admitiu Bia. — Mas isso é bem mais interessante.
Liz voltou para dentro do quarto, sacudindo a cabeça, mas ainda sorrindo.
— Ele provavelmente já esqueceu de mim.
As duas trocaram um olhar cúmplice, e Bia sorriu, misteriosa.
— Talvez.
Liz respirou fundo, sentindo um alívio estranho diante daquela possibilidade — talvez fosse mesmo melhor assim, mais simples, menos arriscado.
Ela ainda não sabia que, naquela mesma manhã, em outro ponto da cidade, Gabriel Mafra também tinha acordado pensando nela.
E, ao contrário do que Liz imaginava, ele não tinha esquecido.
Nem por um segundo sequer.
O segundo gol veio pouco depois do intervalo, e o estádio inteiro voltou a gritar como se a vitória já estivesse garantida. Dessa vez, porém, Liz não pulou. Em vez disso, levou as duas mãos até a camisa dobrada em seu ombro — a camisa do pai, que carregava consigo desde a manhã — e a beijou devagar, os olhos já marejados, os lábios se movendo num murmúrio baixo que só ela conseguia ouvir por completo.Gabriel observou a cena em silêncio, sem entender de imediato o que se passava, mas sentindo, com uma clareza estranha, que aquilo tinha um peso diferente de tudo mais que acontecia ao redor. Havia algo naquele gesto — na delicadeza com que ela segurava o tecido gasto, no jeito que fechava os olhos por um segundo antes de voltar a gritar junto com a torcida — que despertou nele mais curiosidade do que qualquer relatório financeiro jamais tinha conseguido.Ele não perguntou ali. Só guardou a pergunta, junto com a cena, para depois.O Fluminense venceu por dois a zero, e quando o apito fin
Por um instante que pareceu se esticar mais do que deveria, nenhum dos dois disse nada. Liz continuava parada, o coro da torcida ainda ecoando ao redor como se ninguém mais tivesse percebido que o tempo tinha, ali, resolvido parar de correr. Gabriel também não se mexia, o sorriso torto ainda preso no rosto, os olhos verdes presos nela com aquela mesma atenção inconveniente que já tinha feito Liz perder o fio dos próprios pensamentos uma vez.Foi Ícaro quem, como sempre, resolveu que silêncios daquele tamanho não deveriam existir por muito tempo.— Bom, já que ninguém aqui parece capaz de formar uma frase — disse ele, aparecendo ao lado de Gabriel com o copo erguido e um sorriso largo, cúmplice —, eu me apresento. Ícaro Mascarenhas, amigo de infância deste rapaz aqui que, aparentemente, esqueceu como se fala.Duda soltou uma risada alta.— Duda — disse ela, estendendo a mão. — E essa aqui do meu lado, tentando parecer discreta e falhando completamente, é a Bia.— Eu não estou tentando
Liz estava a poucos metros dali, de costas para ele, a camiseta verde, branco e grená colada ao corpo pelo calor, o rabo de cavalo balançando enquanto ela cantava — desafinada, animada, sem qualquer pudor — um coro que as amigas ao lado gritavam junto com ela. Havia algo na cena inteira que parou o tempo de Gabriel de um jeito quase indecente: os braços erguidos, os olhos fechados de riso, a felicidade tão inteira que parecia contagiar o ar ao redor.Ele ficou parado, cerveja esquecida na mão, incapaz de desviar o olhar.Ícaro percebeu a demora e seguiu a direção dos olhos do amigo. Levou apenas alguns segundos para juntar as peças — o jeito como Gabriel tinha congelado, a mulher de cabelo preto cantando sem se importar com quem olhava, a coincidência absurda demais para ser ignorada.— Não acredito — murmurou Ícaro, um sorriso enorme se abrindo no rosto. — Não acredito mesmo.— Cala a boca, Ícaro.— Gabriel. Gabriel, olha pra mim. Essa é a morena misteriosa?— Eu não disse nada.— Vo
O sábado chegou do jeito que Liz mais gostava: sem despertador, sem pressa, sem o peso do relógio empurrando cada movimento. Ela abriu os olhos sozinha, olhou para o teto por alguns segundos só para sentir o luxo raro de não precisar sair correndo de baixo do lençol, e sorriu antes mesmo de se lembrar por quê. Depois lembrou. Fluminense. Maracanã. A camisa do pai, dobrada com cuidado dentro do armário, esperando.Levantou-se com uma disposição que parecia contagiar até as paredes descascadas do quarto. Foi até a cozinha ainda de pijama, o cabelo solto e bagunçado, e encontrou Dona Neusa já de pé, como sempre, mexendo o café no coador de pano.— Olha só quem acordou sorrindo — disse a mãe, sem tirar os olhos da panela.— Hoje é dia de jogo, mãe. Não tem como não sorrir.— Também é dia da sua folga. Isso já era motivo suficiente.Liz riu, puxou uma cadeira e sentou-se sem aquela ansiedade costumeira de quem calcula o tempo entre um gole e outro. O irmão apareceu logo depois, ainda com c
Gabriel, por outro lado, tinha dormido mal. Muito mal.Às quatro e quarenta e cinco da manhã já estava completamente acordado, os olhos fixos no teto do quarto, tentando entender por que uma mulher que ele conhecera por poucos minutos tinha conseguido ocupar um espaço tão desproporcional em sua cabeça. Aquilo era absurdo, pensou. Tinha reuniões importantes pela frente, contratos que precisavam de revisão cuidadosa, uma empresa inteira esperando por suas decisões — e ali estava ele, deitado no escuro, pensando numa desconhecida.Uma linda desconhecida.Fechou os olhos.Liz.O nome parecia combinar perfeitamente com ela — curto, forte, difícil de esquecer, como se tivesse sido escolhido especificamente para grudar na memória de quem o ouvisse uma única vez.Levantou-se às cinco, decidido a aplicar a única estratégia que conhecia contra pensamentos barulhentos demais: cansar o corpo até a mente finalmente se render ao silêncio. Na academia, aumentou o peso além do habitual, correu por ma
Liz acordou antes mesmo do despertador tocar.Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando entender por que tinha aberto os olhos tão cedo, o corpo ainda pesado de sono, mas a mente já inquieta demais para voltar a dormir. Então se lembrou: a boate, o vestido preto emprestado, os olhos verdes fixos nela em meio à confusão da pista. Gabriel.Virou-se para o lado, puxando o lençol até o queixo, como se aquele gesto simples pudesse, de alguma forma, protegê-la do próprio pensamento.— Não — murmurou para si mesma. — Nem começa.Era exatamente o tipo de ideia que ela precisava evitar, o tipo de fio que, se puxado com atenção demais, ameaçava desmanchar toda a lógica cuidadosa com que ela organizava a própria vida.Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu a calça jeans e a camiseta branca de sempre, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto antes de seguir para a varanda, onde Bia e Duda já estavam de pé, os cafés fumegando sobre a mesa.— Bom dia, celebridad







