LOGINEnquanto isso, Amanda tinha passado dias inteiros carregando o peso da conversa com a irmã, o segredo que finalmente tinha ganhado voz reverberando dentro dela como um sino que não parava de tocar. Depois de muito debater consigo mesma, decidiu que havia apenas um jeito de aliviar aquele peso: contar a verdade, de uma vez, e finalmente fechar aquele capítulo que insistia em permanecer entreaberto havia anos demais.Mandou uma mensagem simples para Gabriel na quarta-feira.**Amanda:** Podemos tomar um café? Só uma conversa. Prometo que será a última vez que vou te incomodar com o passado.Gabriel hesitou antes de responder, lembrando da conversa com Ícaro, do peso estranho de culpa que ainda carregava desde o encontro no bar. Mas havia, na mensagem dela, um tom diferente do habitual — menos cobrança, mais uma espécie de resolução silenciosa — e ele decidiu que
O domingo trouxe consigo o barulho de sempre da casa de Liz: o cheiro de arroz e feijão cozinhando desde cedo, a televisão ligada baixinho na sala, a avó Dulceia sentada na poltrona de sempre, o crochê nas mãos avançando devagar entre uma conversa e outra. Liz chegou para o almoço ainda envolta naquela leveza que a noite anterior tinha deixado, incapaz de guardar completamente a felicidade só para si.— Você está diferente hoje — comentou Dona Neusa, observando a filha com aquela atenção materna que raramente deixava passar qualquer mudança.— Estou bem, mãe. Só isso.— Bem como? — insistiu a mãe, cruzando os braços, os olhos apertados de curiosidade.Liz hesitou por um segundo, mas o sorriso que insistia em aparecer já entregava mais do que qualquer palavra.— Conheci alguém —
Enquanto Amanda enfrentava seus próprios fantasmas, Liz chegava ao apartamento da Urca com um sorriso que parecia maior do que o próprio rosto conseguia comportar. Bia, que a esperava acordada no sofá, praticamente pulou ao ver a expressão da amiga.— Não precisa nem falar nada — disse Bia, os olhos arregalados de expectativa. — Essa cara já conta a história inteira.— Bia — Liz suspirou, deixando-se cair ao lado dela, o coração ainda acelerado —, foi perfeito. Perfeito de um jeito que eu nem sabia que existia.— Conta tudo. Cada detalhe.E Liz contou. Contou sobre a conversa fácil, sobre o jeito que Gabriel a ouvia com atenção total, sem aquela pressa distraída que ela via em tanta gente. Contou, com um pouco menos de entusiasmo, sobre o encontro inesperado com Amanda, sobre a indireta que ela mal tinha percebido na hora, mas que agora, relembrando, parecia carregar um peso que ela não sabia explicar completamente. E contou, por fim, com as bochechas cor
Foi um beijo devagar, sem pressa, do tipo que carrega dentro de si toda a expectativa acumulada de semanas de espera, de mensagens não enviadas, de pensamentos guardados demais para caber em silêncio. Liz fechou os olhos e se deixou levar, as mãos encontrando o tecido da camisa dele, o som do mar se misturando à batida acelerada do próprio coração.Quando finalmente se afastaram, testas ainda coladas, nenhum dos dois parecia disposto a quebrar aquele instante com qualquer palavra que pudesse estragá-lo.— Isso — disse Liz, por fim, num sussurro — também não fazia parte de nenhuma categoria que eu conheça.Gabriel riu, baixinho, puxando-a mais para perto, e os dois ficaram ali, à beira do mar, por um tempo que nenhum dos dois se preocupou em medir.Amanda entrou em casa no Jardim Botânico naquela noite com um silêncio pesado demais para caber dentro do corpo, o tipo de silêncio que qualquer pessoa que a conhecesse bem saberia reconhecer como sinal de tempe
Amanda estava ali, impecável como sempre, acompanhada da irmã mais nova, os dois pares de olhos passeando rapidamente entre Gabriel e Liz com uma curiosidade que não se esforçava muito para ser discreta.— Que coincidência — disse Amanda, o tom cordial demais para ser inteiramente sincero. — Não sabia que você frequentava esse lugar.— Descobri recentemente — respondeu Gabriel, a voz cuidadosamente neutra.Amanda voltou os olhos para Liz, avaliando-a com um sorriso educado que não alcançava completamente os olhos.— Olá — disse, estendendo a mão. — Amanda. Uma amiga antiga do Gabriel.— Liz. — Ela apertou a mão, sem perceber nada além de uma cordialidade um pouco tensa, o tipo de tensão que qualquer pessoa poderia atribuir a um simples reencontro entre conhecidos.— Vocês têm bom gosto para bares — completou Amanda, voltando-se novamente para Gabriel, e então, com uma leveza calculada que escondia perfeitamente a farpa por trás das palavras, acrescentou: — Fico feliz em ver que você c
O celular vibrou sobre a mesa de cabeceira, e Liz demorou um segundo inteiro para acreditar no que estava vendo na tela. Leu a mensagem duas vezes, depois uma terceira, como se as palavras pudessem se desfazer se ela piscasse rápido demais. Sentiu aquele frio na barriga que não vinha havia tempo, uma mistura estranha de alívio e nervosismo, como quem finalmente solta o ar depois de segurar a respiração por dias sem perceber.A pontinha de esperança que ela tinha se esforçado tanto para apagar durante a semana inteira ressurgiu com uma força quase indecente, como uma brasa que, ao ganhar ar de novo, incendeia mais rápido do que qualquer um esperava.Ela digitou a resposta antes mesmo de se dar tempo para pensar demais — porque pensar demais, ela sabia, era exatamente o tipo de coisa que a faria apagar tudo e escrever outra coisa mais cautelosa, mais segura, mais de acordo com aquelas regras invis&iacut







