Mag-log inHelena Cavalcanti
A viagem até Campo Lindo passou muito mais rápido do que eu esperava. Rudá dirigia com segurança, sem movimentos bruscos, e eu aproveitei as quase duas horas de estrada para conhecê-lo um pouco melhor. Falamos bastante sobre Direito, perguntei sobre a faculdade, os professores que mais admirava, aqueles com quem havia tido mais dificuldade, as disciplinas de que gostava e quais pretendi
Rudá de AndradeNo domingo, acordei cedo para correr. Era um hábito antigo, sempre gostei de correr pela manhã, principalmente quando o tempo estava bom, e naquele dia o calor já prometia aparecer cedo. Vesti uma roupa leve, calcei o tênis e saí em direção à trilha que acompanhava o rio.Correr ali era diferente de correr em uma esteira. Eu podia sentir o ar fresco batendo no rosto, ouvir a água correndo ao lado da trilha e perceber o cheiro úmido e verde da vegetação. O silêncio nunca era completo, havia pássaros escondidos entre as árvores, pequenos animais se movimentando pelos arbustos e, vez ou outra, alguém passando pelo mesmo caminho.Eu gostava daquela sensação de liberdade. Era um dos poucos momentos
Helena Cavalcanti— Yuri, querido! Saia da piscina, você vai ficar resfriado desse jeito! Já está na hora de almoçarmos. Venha tomar banho!— Ah, mãe! Deixa mais um pouquinho, vai! Já sei nadar que nem um peixe! Olha só! Sem boia, mãe!Sorri, sentada à sombra, enquanto escutava o barulho da água sendo agitada pela pequena criatura que havia transformado minha casa em seu parque de diversões.— Eu não estou vendo, mas pelo barulho, está parecendo um golfinho! Venha logo, porque sem comida o golfinho afunda!A gargalhada de Yuri veio imediatamente da piscina.— Mãe!— Yuri, saia já dessa piscina! Obedeça à sua mãe! Ela já sabe que você está nadando sem boia.
Helena CavalcantiA viagem até Campo Lindo passou muito mais rápido do que eu esperava. Rudá dirigia com segurança, sem movimentos bruscos, e eu aproveitei as quase duas horas de estrada para conhecê-lo um pouco melhor. Falamos bastante sobre Direito, perguntei sobre a faculdade, os professores que mais admirava, aqueles com quem havia tido mais dificuldade, as disciplinas de que gostava e quais pretendia seguir profissionalmente. Ele tinha opiniões bastante definidas para alguém que acabara de se formar, e gostei de perceber que não respondia apenas o que imaginava que eu gostaria de ouvir.— E você pretende continuar em qual área? — perguntei.— Ainda não decidi completamente. Gosto da área empresarial, mas também gosto de Civil.
Rudá de AndradeEu pigarreei, tentando afastar o desconforto que aquele discurso sobre o amor havia provocado. Não queria discutir meu ceticismo com Helena, com certeza soaria como uma criança querendo provar que sabia mais da vida do que alguém que tinha o dobro da minha experiência. E eu não tinha culpa de nunca ter amado de verdade.Nunca havia sentido por nenhuma das mulheres com quem me envolvera aquilo que os livros, os filmes e as músicas insistiam em chamar de amor. Aquela coisa arrebatadora que fazia as pessoas perderem o sono, mudarem planos e acreditarem que haviam encontrado alguém indispensável à própria existência... isso nunca tinha acontecido comigo.E não me incomodava, pelo menos, até Helena começar a falar sobre aquilo como se o amor fosse um destino que todos nós deveríamos estar preparados para reconhecer. Talvez o problema fosse que eu não conseguia deixar de pensar na mulher que estava diante de mim enquanto ela falava. Era fácil ouvi-la, difí
Rudá de AndradeDe vez em quando, acontecia de eu encontrar Helena com o marido e o filho. Nessas ocasiões, sentia uma coisa estranha, difícil de explicar. Era uma mistura de carinho com uma pontada incômoda de ciúme, embora eu não tivesse qualquer direito àquele sentimento. Gostava de vê-la bem, o problema era que, ao mesmo tempo em que ficava feliz por ela, uma parte egoísta de mim imaginava como seria fazer parte daquele mundo.Eu não queria tomar o lugar de ninguém. Não queria destruir uma família, nem sequer tinha certeza do que, exatamente, eu queria. Só sabia que, quando via Helena ao lado do marido, sentia alguma coisa apertar dentro do peito, e aquilo me irritava profundamente.Uma vez, eu estava caminhando com uma garota com quem saía na época quando avistei Helena do outro lado da rua. Ela estava com a família. Parei por um instante, sem perceber que havia diminuído o passo.— Que foi? — a garota perguntou.— Nada — respondi, ainda olhando na dire
Rudá de AndradeEu mal consegui esconder a satisfação quando saí da sala de Helena Cavalcanti.Três meses… Era isso que eu tinha conseguido. Três meses para provar que merecia estar ali, ao lado dela. Não precisava de mais do que isso naquele momento. Eu sabia que meu pai tinha indicado meu nome, mas também sabia que Helena não era o tipo de mulher que contrataria alguém só para agradar um amigo. Se ela tivesse achado que eu não servia, teria dito na minha cara.E eu preferia assim. Não queria favor de ninguém, muito menos dela. O que eu queria era uma oportunidade.Desde que me formei em Direito, meu maior medo era justamente começar a carreira usando o sobrenome do meu pai. Alberto de Andrade era um empresário respeitado. Ser filho dele abria portas, eu sabia disso.Mas eu não queria passar por elas, queria conseguir entrar porque eu era capaz. E agora teria três meses para mostrar isso em um dos melhores escritórios. Se dependesse de mim, seriam três mese







