LOGINRudá de Andrade
De vez em quando, acontecia de eu encontrar Helena com o marido e o filho. Nessas ocasiões, sentia uma coisa estranha, difícil de explicar. Era uma mistura de carinho com uma pontada incômoda de ciúme, embora eu não tivesse qualquer direito àquele sentimento. Gostava de vê-la bem, o problema era que, ao mesmo tempo em que ficava feliz por ela, uma parte egoísta de mim imaginava como seria fazer parte daquele mundo. Eu não queria tomar o lugar de ninguém. Não queria destruir uma família, nem sequer tinha certeza do que, exatamente, eu queria. Só sabia que, quando via Helena ao lado do marido, sentia alguma coisa apertar dentro do peito, e aquilo me irritava profundamente. Uma vez, eu estava caminhando com uma garota com quem saía na época quando avistei Helena do outro lado da rua. Ela estava com a família. Parei por um instante, sem perceber que havia diminuído o passo. — Que foi? — a garota perguntou. — Nada — respondi, ainda olhando na direção em que Helena estava. — Por que você parou do nada? — Achei… que conhecia alguém. Ela olhou na direção que eu encarava. — Quem? Aquelas pessoas? — Acho que é uma amiga do meu pai. Não menti, só não contei que aquela amiga havia acabado de prender minha atenção de uma maneira que nenhuma mulher conseguia naquele momento. — Você está estranho hoje, Rudá. — Só estou pensando na faculdade. Foi a desculpa mais rápida que encontrei e ela aceitou, para o meu alívio. Voltamos a andar como se nada tivesse acontecido, porém minha mente se recusava a esquecer Helena e o quanto ela estava linda. Quando ainda faltavam três períodos para a minha formatura naquela época, eu já tinha decidido onde queria trabalhar. Poderia procurar estágio em qualquer bom escritório da cidade. Minhas notas estavam entre as melhores da turma, eu levava a faculdade a sério e não tinha dificuldade para encontrar oportunidades. Mas havia apenas um escritório que realmente me interessava: o de Helena Cavalcanti. Uma noite antes da entrevista, eu não consegui dormir. Pensei nas perguntas que Helena poderia fazer, nas respostas que eu deveria dar. Cheguei a levantar da cama duas vezes para conferir meu currículo, mesmo sabendo que não havia absolutamente nada para corrigir. Eu nunca havia ficado tão nervoso antes de uma entrevista, queria que Helena me considerasse competente, que esquecesse que eu era filho do seu amigo. No dia seguinte, entrei naquele escritório decidido a controlar o nervosismo, mas não consegui. Quando a secretária anunciou minha chegada, senti o estômago apertar. Dali a poucos segundos, eu estaria sozinho com Helena Cavalcanti, todo o planejamento mental da noite anterior desapareceu. Durante a entrevista, ela perguntou sobre minha faculdade, minhas notas, objetivos e minha capacidade de lidar com pressão. Eu respondi tudo, ou tentei responder sem deixar evidente que estava prestando atenção mais nela do que na entrevista em si. Helena não facilitava. Era direta, exigente e inteligente. Quanto mais perguntas fazia, mais eu percebia que estava diante da profissional que imaginava. E, quando finalmente me ofereceu três meses de experiência, precisei me controlar para não sorrir como um garoto que acabara de ganhar um prêmio. Eu tinha conseguido a oportunidade que eu desejava. Agora eu poderia finalmente descobrir quem Helena Cavalcanti era fora do imaginário de um garoto que a admirava havia anos. Talvez aquela imagem que eu havia construído fosse apenas uma idealização alimentada pela distância e pela admiração. Eu queria que fosse exatamente isso. Pois se Helena fosse apenas uma mulher comum, eu poderia trabalhar ao lado dela, aprender, crescer profissionalmente e seguir minha vida. ** No dia seguinte, eu estava cedo novamente no escritório de Helena. Eu ainda estava tentando manter a postura profissional, mas era difícil esconder a satisfação. E, apesar de saber que a indicação do meu pai tinha aberto a primeira porta, dali em diante seria comigo. Helena me recebeu e chamou Lúcia, pedindo que ela me orientasse sobre a documentação necessária para a contratação temporária. Ela não queria perder tempo com protocolos, porque já tinha uma viagem marcada para a quarta-feira seguinte, cerca de cento e cinquenta quilômetros dali, e precisava que eu estivesse preparado para acompanhá-la ao fórum. Enquanto Lúcia organizava os documentos, Helena voltou sua atenção para mim. — Rudá, primeiro de tudo, quero que você comece a se familiarizar com a minha rotina. Não apenas com o trabalho, mas com os pequenos detalhes de uma pessoa como eu. Assenti, totalmente focado em tudo que ela dizia. — Apesar de ser bastante independente em praticamente todos os aspectos da vida, existem algumas peculiaridades às quais você vai precisar se adaptar. — Certo. — Uma delas é que você se acostume a fazer pequenas interjeições quando eu terminar de falar. Um “hum”, um “sim”, um “entendo”... qualquer coisa que me permita saber que você continua prestando atenção. Eu não posso olhar para o seu rosto para perceber se você está acompanhando uma conversa. — Entendi. Ela deu um sorriso lindo que eu precisei me controlar para não sorrir de volta. — Viu? Exatamente isso. — Pode deixar, Dra. Helena. Não costumo perder a concentração quando alguma coisa me interessa. — Aí é que está o problema, Rudá. Quero sua atenção total inclusive quando o assunto não interessar. — Não se preocupe. Estarei sempre atento. — Espero que sim. — Ela fez uma pequena pausa. — Outra coisa importante é o contato físico. Para mim, é uma maneira de reconhecer quem está próximo. Preciso conhecer não apenas a voz de uma pessoa, mas também seus passos, seu cheiro, a maneira como se movimenta. Quando alguém passa muito tempo comigo, esses detalhes acabam se tornando referências. Isso me dá segurança. Eu assenti novamente. — Entendi. — Todos os meus assistentes passaram por isso. Não quero que você se sinta constrangido. — Como assim? Ela não me respondeu em palavras, mas sim ficou de pé. Eu acompanhei o movimento com os olhos. Apenas nesse momento eu entendi sobre o que ela estava falando. Helena estava diante de mim, e eu finalmente tive a oportunidade de observá-la sem a distância dos encontros ocasionais da cidade. A primeira coisa que pensei foi que ela era muito mais bonita do que eu lembrava… Muito mais. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros. A roupa elegante, sem ser exagerada, acompanhava as curvas do corpo de uma mulher adulta e segura de si. Ela tinha uma cintura marcada, quadris femininos e pernas longas que estavam escondidas sob o tecido da saia. Ela era muito atraente. Eu desviei os olhos, mas logo a olhei de novo. Aquilo era uma droga… Eu era um homem, tinha vinte e três anos, naturalmente perceberia uma mulher bonita perto de mim. O problema era que aquela mulher não era apenas bonita. Ela era sensual, cheirosa e estava muito perto de mim. Ainda não estava preparado pra isso. Helena continuava perto sem perceber a batalha silenciosa que acontecia a poucos centímetros dela. Estendeu a mão até encontrar o encosto da minha cadeira e tocou meus ombros. — Levante-se, por favor. Quando fiquei de pé diante dela, percebi que havia uma diferença de altura entre nós. Helena levantou uma das mãos e passou os dedos pelo topo da minha cabeça. — Naturalmente você é alguns centímetros mais alto do que eu. Os dedos dela desceram lentamente, numa avaliação cuidadosa que nada tinha de sedutora para ela. Era apenas a maneira como Helena conhecia fisicamente as pessoas que faziam parte da sua rotina. Para mim, porém, era difícil manter a cabeça no lugar. Ela tocou meu rosto, contornando minhas feições com a ponta dos dedos, depois passou pelas sobrancelhas, pelo nariz, e pelo queixo. Quando seus dedos chegaram à minha boca, ela fez apenas um breve contorno, reconhecendo a forma dos meus lábios. Meu corpo ficou rígido e eu me mantive parado, com medo que ela notasse alguma coisa. Ela estava tão perto de mim, com aquele perfume, o calor da sua mão e a voz tão próxima. — Que cor são seus olhos e cabelos? Demorei um segundo a responder. Engoli em seco. — Os dois são castanhos. — Desculpe, Rudá. Estou constrangendo você? Soltei o ar devagar, me sentindo um idiota por estar reagindo daquela forma. Era algo normal, algo comum para ela. Eu precisava manter a droga de uma postura decente. — Não. Só é diferente… Nunca passei por isso. Ela sorriu, um sorriso doce. Helena não parecia aborrecida comigo. — É compreensível. Depois continuou a avaliação, percorrendo meus braços e ombros, percebendo minha estrutura física, minha altura e o fato de que eu não era exatamente sedentário. — Você cuida do corpo — comentou. — Eu tento. — Faz algum esporte? — Faço musculação e costumo correr. Normalmente nas margens do rio. Tem uma pista perto da trilha. — Muito bem. Eu também gosto de correr, mas me aventuro apenas na esteira elétrica de casa. — Ela sorriu novamente. — Você deve ser um homem muito bonito. A frase me pegou desprevenido. Eu quase sorri com aquele elogio, mas consegui manter a postura. — Obrigado. — E parece cuidar bem de si mesmo. Olhos e cabelos castanhos, sim? — Sim, senhora. — Uma combinação interessante. Deve chamar bastante atenção. Soltei uma pequena risada. Apesar de não existir troca de olhares entre nós, eu desviei meus olhos dela. — Às vezes sim. — Você disse que não tem namorada, certo? — Sim. Ela parou por um instante, parecia pensativa. — É bem incomum. — Por quê? — Como eu disse, você é um rapaz muito bonito. Naturalmente poderia ter uma namorada. — Estou bastante focado na minha carreira no momento. Helena assentiu, se afastando de mim e voltando a se sentar. Naquele momento, eu senti falta daquele toque, da sua mão quente e macia em meu corpo. — Você pretende se casar algum dia? — Não penso nisso agora. — Por quê? — Como eu disse, tenho vinte e três anos, estou começando minha carreira e ainda tenho muita coisa para fazer antes de pensar em casamento. Talvez nem aconteça. Ela riu, balançando a cabeça negativamente. — Ah, os jovens… Você ainda pode mudar de ideia. Um dia você pode se apaixonar de verdade e descobrir que quer estar ao lado daquela pessoa. Casar, formar uma família... A imagem de Helena com o marido e o filho se tornou viva dentro da minha mente. Eu não gostei do que senti. — Talvez — foi tudo que eu respondi, querendo encerrar o assunto. — O importante é não fechar as portas para o amor. Às vezes, ele aparece quando menos esperamos. Eu fiquei olhando para ela, surpreso. Helena não fazia ideia do quanto aquela frase tinha acabado de me incomodar. Enquanto ela falava sobre amor como uma possibilidade distante e abstrata, eu começava a perceber que já sabia exatamente quem era a mulher que eu não deveria desejar. E ela estava sentada diante de mim, completamente alheia ao modo como eu a olhava.Rudá de AndradeNo domingo, acordei cedo para correr. Era um hábito antigo, sempre gostei de correr pela manhã, principalmente quando o tempo estava bom, e naquele dia o calor já prometia aparecer cedo. Vesti uma roupa leve, calcei o tênis e saí em direção à trilha que acompanhava o rio.Correr ali era diferente de correr em uma esteira. Eu podia sentir o ar fresco batendo no rosto, ouvir a água correndo ao lado da trilha e perceber o cheiro úmido e verde da vegetação. O silêncio nunca era completo, havia pássaros escondidos entre as árvores, pequenos animais se movimentando pelos arbustos e, vez ou outra, alguém passando pelo mesmo caminho.Eu gostava daquela sensação de liberdade. Era um dos poucos momentos
Helena Cavalcanti— Yuri, querido! Saia da piscina, você vai ficar resfriado desse jeito! Já está na hora de almoçarmos. Venha tomar banho!— Ah, mãe! Deixa mais um pouquinho, vai! Já sei nadar que nem um peixe! Olha só! Sem boia, mãe!Sorri, sentada à sombra, enquanto escutava o barulho da água sendo agitada pela pequena criatura que havia transformado minha casa em seu parque de diversões.— Eu não estou vendo, mas pelo barulho, está parecendo um golfinho! Venha logo, porque sem comida o golfinho afunda!A gargalhada de Yuri veio imediatamente da piscina.— Mãe!— Yuri, saia já dessa piscina! Obedeça à sua mãe! Ela já sabe que você está nadando sem boia.
Helena CavalcantiA viagem até Campo Lindo passou muito mais rápido do que eu esperava. Rudá dirigia com segurança, sem movimentos bruscos, e eu aproveitei as quase duas horas de estrada para conhecê-lo um pouco melhor. Falamos bastante sobre Direito, perguntei sobre a faculdade, os professores que mais admirava, aqueles com quem havia tido mais dificuldade, as disciplinas de que gostava e quais pretendia seguir profissionalmente. Ele tinha opiniões bastante definidas para alguém que acabara de se formar, e gostei de perceber que não respondia apenas o que imaginava que eu gostaria de ouvir.— E você pretende continuar em qual área? — perguntei.— Ainda não decidi completamente. Gosto da área empresarial, mas também gosto de Civil.
Rudá de AndradeEu pigarreei, tentando afastar o desconforto que aquele discurso sobre o amor havia provocado. Não queria discutir meu ceticismo com Helena, com certeza soaria como uma criança querendo provar que sabia mais da vida do que alguém que tinha o dobro da minha experiência. E eu não tinha culpa de nunca ter amado de verdade.Nunca havia sentido por nenhuma das mulheres com quem me envolvera aquilo que os livros, os filmes e as músicas insistiam em chamar de amor. Aquela coisa arrebatadora que fazia as pessoas perderem o sono, mudarem planos e acreditarem que haviam encontrado alguém indispensável à própria existência... isso nunca tinha acontecido comigo.E não me incomodava, pelo menos, até Helena começar a falar sobre aquilo como se o amor fosse um destino que todos nós deveríamos estar preparados para reconhecer. Talvez o problema fosse que eu não conseguia deixar de pensar na mulher que estava diante de mim enquanto ela falava. Era fácil ouvi-la, difí
Rudá de AndradeDe vez em quando, acontecia de eu encontrar Helena com o marido e o filho. Nessas ocasiões, sentia uma coisa estranha, difícil de explicar. Era uma mistura de carinho com uma pontada incômoda de ciúme, embora eu não tivesse qualquer direito àquele sentimento. Gostava de vê-la bem, o problema era que, ao mesmo tempo em que ficava feliz por ela, uma parte egoísta de mim imaginava como seria fazer parte daquele mundo.Eu não queria tomar o lugar de ninguém. Não queria destruir uma família, nem sequer tinha certeza do que, exatamente, eu queria. Só sabia que, quando via Helena ao lado do marido, sentia alguma coisa apertar dentro do peito, e aquilo me irritava profundamente.Uma vez, eu estava caminhando com uma garota com quem saía na época quando avistei Helena do outro lado da rua. Ela estava com a família. Parei por um instante, sem perceber que havia diminuído o passo.— Que foi? — a garota perguntou.— Nada — respondi, ainda olhando na dire
Rudá de AndradeEu mal consegui esconder a satisfação quando saí da sala de Helena Cavalcanti.Três meses… Era isso que eu tinha conseguido. Três meses para provar que merecia estar ali, ao lado dela. Não precisava de mais do que isso naquele momento. Eu sabia que meu pai tinha indicado meu nome, mas também sabia que Helena não era o tipo de mulher que contrataria alguém só para agradar um amigo. Se ela tivesse achado que eu não servia, teria dito na minha cara.E eu preferia assim. Não queria favor de ninguém, muito menos dela. O que eu queria era uma oportunidade.Desde que me formei em Direito, meu maior medo era justamente começar a carreira usando o sobrenome do meu pai. Alberto de Andrade era um empresário respeitado. Ser filho dele abria portas, eu sabia disso.Mas eu não queria passar por elas, queria conseguir entrar porque eu era capaz. E agora teria três meses para mostrar isso em um dos melhores escritórios. Se dependesse de mim, seriam três mese







