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Capítulo 3

Author: EllenRoza
last update publish date: 2026-09-03 09:08:11

  A brisa fria da madrugada atingiu meu rosto assim que passei pelas portas de vidro do pub, fazendo meu corpo encolher dentro da jaqueta de couro. Peguei o celular no bolso para chamar um carro por aplicativo ou tentar falar com ela, mas a tela permaneceu completamente preta. Estava sem bateria. 

  Soltei um xingamento baixinho, encarando o visor inútil. Sem bateria, sem sinal da minha amiga e no meio de uma rua movimentada, minha única opção era esperar que algum táxi vago passasse por ali. Fiquei parada na calçada, sob a luz amarelada de um poste, cruzando os braços para afastar o frio e tentando não pensar na bagunça que minha vida tinha se tornado em menos de vinte e quatro horas.

  Instantes depois, o som alto da porta do pub se abrindo chamou minha atenção. Era ele. O homem do bar saía com passos largos e exasperados, ostentando exatamente o mesmo olhar irritado e a carranca fechada de antes.

  Desviei o olhar imediatamente, encarando o lado oposto da rua com um interesse repentino pelos letreiros luminosos dos estabelecimentos. A última coisa de que eu precisava era trocar farpas com o desconhecido ranzinza outra vez. Fiquei torcendo mentalmente para que um táxi surgisse do nada ou que Gia aparecesse dobrando a esquina, mas a rua permanecia vazia de ambos.

  Pelo canto do olho, vi quando o homem atravessou a rua em direção a um carro preto e elegante estacionado do outro lado. Ele destravou o veículo, mas, antes de abrir a porta para entrar, parou. Ele olhou na minha direção, parecendo hesitante. Por um segundo, achei que ele fosse ignorar a cena e ir embora, mas ele bateu a porta do carro com firmeza e caminhou de volta na minha direção, cruzando a rua a passos calmos.

  Ele parou a dois passos de mim no passeio.

  — Você precisa de uma carona? — a voz grave dele ecoou na calçada silenciosa.

  Encarei o rosto dele, surpresa pela abordagem direta. Arqueei uma sobrancelha, sem conseguir conter um pingo de sarcasmo.

  — Resolveu ser simpático agora? — perguntei, ajustando a bolsa no ombro. — Obrigada, mas não quero te incomodar.

  O homem soltou um suspiro contido. A expressão rígida dele suavizou-se só um pouco, o suficiente para parecer menos intimidante do que no bar.

  — Me desculpe pelo meu comportamento mais cedo — disse ele, a tom de voz firme, mas visivelmente sincero. — Eu estava... com a cabeça cheia. E não seria incômodo nenhum te dar uma carona.

  Voltei a encará-lo, medindo suas intenções. Ele vestia um terno escuro e tinha postura elegante, mas eu ainda era uma mulher sozinha no meio da madrugada.

  — Eu não tenho o hábito de aceitar carona de pessoas que não conheço — respondi de forma direta.

  Ele deu mais um suspiro pesado, passando a mão pelo queixo perfeitamente barbeado.

  — Meu nome é Oliver. Para onde você está indo?

  Dei um sorriso irônico.

  — Saber o seu nome não faz de você menos estranho, Oliver. Agradeço a oferta, mas prefiro esperar por um táxi.

  Para a minha surpresa, o canto dos lábios dele se curvou em uma risada fraca e rápida — a primeira demonstração de algo próximo a um senso de humor que vi nele.

  — Eu garanto que não sou um serial killer — ele disse, com uma leve ironia na voz. Em seguida, apontou para a rua vazia. — E, por aqui, vai ser bem difícil aparecer um táxi a esta hora da noite. É mais fácil pedir um motorista por aplicativo.

  Suspirei. Olhei para o meu celular totalmente descarregado na mão, depois para a rua deserta e, por fim, para o carro preto estacionado do outro lado. Ele tinha razão. Eu estava sem bateria e sem opções, e continuar ali parada na garoa não ia me levar a lugar nenhum.

  — Tá legal — cedi, soltando o ar devagar. — Eu aceito.

  Oliver fez um sinal sutil com a mão para que eu fosse na frente. Atravessamos a rua em silêncio. Ao chegarmos ao veículo, ele se adiantou, segurou a maçaneta e abriu a porta do passageiro para mim com um gesto cortês. Entrei no estofado de couro macio e cheiroso, e ele fechou a porta com cuidado antes de dar a volta e assumir o banco do motorista.

  O motor deu partida com um zumbido silencioso e potente. O ar-condicionado suave logo começou a afastar o frio da minha pele.

  — Qual é o endereço? — Oliver perguntou, mantendo os olhos atentos no retrovisor enquanto tirava o carro da vaga.

  — Você pode me deixar perto da estação de metrô mais próxima, por favor — respondi, sem querer entregar a localização exata da casa da Gia para um desconhecido.

  Ele apenas assentiu com a cabeça, sem questionar ou insistir para saber mais.

  O trajeto seguiu em um silêncio absoluto. O interior do carro era confortavelmente isolado do ruído da cidade, e eu mantive meu olhar fixo na janela, observando os pingos de chuva deslizarem pelo vidro conforme cruzávamos as avenidas iluminadas.

  Poucos minutos depois, Oliver reduziu a velocidade e encostou o carro a alguns metros da entrada iluminada de uma estação de metrô. Destravei o cinto de segurança e segurei a maçaneta da porta.

  — Obrigada pela carona — disse, virando-me para ele antes de sair.

  Ele se apoiou no volante, olhando para mim com os olhos cinza-azulados atentos.

  — Você ainda não me disse o seu nome.

  Dei um meio sorriso, balançando a cabeça de leve.

  — A gente provavelmente nunca mais vai se ver na vida — falei, e, sem pensar muito, soltei o primeiro nome que me veio à cabeça: — Sou a Chloe.

  Oliver encarou meu rosto por um breve segundo, como se soubesse que aquilo era uma mentira improvisada, mas não me desmentiu.

  — Bom, "Chloe"... se por acaso a gente voltar a se ver, prometo que não vou ser um babaca outra vez.

  — Apenas não seja um babaca com ninguém — respondi, no mesmo tom leve. — Boa noite, e obrigada, mais uma vez. 

  Abri a porta, saí do carro e a fechei firme atrás de mim, dando-lhe as costas imediatamente. Caminhei a passos rápidos em direção às escadas rolantes que levavam ao interior da estação.

  Antes de descer o primeiro degrau, me virei por um segundo por mera curiosidade. O carro preto continuava ali, parado junto à guia, com as luzes acesas no escuro da rua. Oliver estava esperando, demorando para arrancar, como se quisesse garantir com os próprios olhos que eu realmente entraria na estação antes de ir embora. Por algum motivo, aquilo não me incomodou. Eu poderia me irritar, ou temer que ele me seguisse e fizesse alguma coisa comigo. Mas, sequer essas coisas se passaram na minha cabeça.

  Engoli em seco, e dei um aceno para ele, para saber que já podia ir embora e não precisava ficar ali. Ele retribuiu, levemente, com a cabeça. Em seguida, deu o fora dali. 

  Quase quarenta minutos depois, estava no prédio de Gia. Usei a chave reserva para abrir a porta e entrei rapidamente, sentindo um leve alívio.

  Procurei por Gia pelo apartamento, ela não estava. Encontrei o carregador e o deixei recebendo recarga, enquanto ia para a cozinha sedenta por um copo de água. Ao voltar, liguei o aparelho e esperei alguns minutos. Assim que a tela se iluminou e carregou os ícones, liguei para Gia. Tocou uma, duas vezes, e nada. Ela não atendeu. Enviei em uma mensagem avisando que já tinha voltado para o apartamento. 

  Antes de deixar o celular na mesa de novo, verifiquei se tinha alguma ligação perdida. De Max. Mas não havia nada. Suspirei frustrada e fui para o quarto. Tirei a roupa e vesti algo mais confortável para dormir, pensando em Oliver, o que me deixou inquieta. Nós nunca mais no veremos, provavelmente. Foi o que eu disse para ele. No entanto, comecei a me pergunta como seria se o encontrasse de novo. A cidade era grande, mas é como dizem: o mundo é pequeno. 

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