ログインEu ainda tinha a chave reserva do apartamento de Gia. Raramente a usava, embora sempre estávamos juntas no apaertamento dela, quando Max viajava a trabalho.
Assim que abri a porta, o aroma familiar de chá de camomila e o som baixo de uma playlist de indie pop me receberam. Jack e Maya, os dois gatos pretos de Gia, vieram de encontro aos meus pés, roçando os pelos macios nas minhas canelas molhadas. — Sarah? — Gia apareceu na porta da cozinha, segurando uma caneca. O cabelo cacheado estava preso num coque, e ela usava um moletom três vezes maior que ela. Ao ver meu estado, encharcada, com o rímel borrado e a garrafa de champanhe apertada contra o peito como se fosse um escudo, a expressão descontraída dela caiu por terra. — Meu Deus, Sarah! O que aconteceu? Ela jogou a caneca em cima da mesa e veio na minha direção, me puxando para dentro e trancando a porta. Soltei a garrafa sobre o balcão da entrada e me deixei desabar nos braços dela. O choro que eu tinha segurado durante todo o caminho de táxi finalmente explodiu em soluços dolorosos, encharcando o moletom seco da minha amiga. Gia não fez perguntas de imediato. Apenas me guiou até o sofá, me cobriu com uma manta felpuda e foi até a cozinha. Voltou com duas taças de vidro e, sem pedir licença, pegou a garrafa de champanhe que eu trouxera, tirando o lacre dourado com um estampido seco que ecoou pela sala pequena. — Toma — ela me entregou a taça transbordando com as bolhas douradas. — Agora me conta. Entre goles de espumante e fungadas, desabafei tudo. Contei sobre a porta entreaberta, a mulher sentada na mesa, a frieza assustadora nos olhos do Max e as palavras cruéis de que eu o havia "sufocado" e forçado a um noivado. Gia escutava tudo em silêncio, a mandíbula travada de raiva. Quando terminei, ela tomou um gole longo da própria taça, olhou bem nos meus olhos e disse, irritada: — Sabe de uma coisa? Foi a melhor desgraça que já te aconteceu. — Como assim? Minha vida acabou! — Não acabou, Sarah. Foi um livramento! — ela se aproximou, pegando na minha mão fria. — Imagina descobrir que esse encosto não valia nada depois de assinar um papel? Depois de gastar até o último centavo num casamento? Antes agora, com você jovem, linda e com a vida inteira pela frente, do que presa a um cara que nunca te mereceu. Suspirei, olhando para as bolhas subindo na minha taça. — Eu não trouxe essa bebida para chorar por ele — murmurei, dando uma risada fraca e amarga. — Eu comprei esse champanhe porque... eu fui contratada, Gia. Eu passei no processo da Global Corp. Eu ia comemorar isso com ele. Os olhos da Gia se arregalaram e ela deu um grito, quase derrubando a própria taça. — Você passou na Global Corp?! Sarah! Antes que eu pudesse reprimir, ela me puxou para um abraço apertado, me tirando quase do sofá. — A gente ainda vai comemorar, sim senhorita! — ela disse no meu ouvido, rindo levemente para aliviar o clima. — E me desculpa por não ser com o Max, mas eu te garanto que a minha companhia é infinitamente melhor e bem menos tóxica. Apertei os olhos, sentindo um misto de gratidão e pânico iminente. — E agora, Gia? O que eu faço? Não posso voltar para aquele apartamento. As minhas coisas estão lá. — Podemos ir lá amanhã, enquanto ele estiver trabalhando, pegaremos tudo o que é seu, e vem morar comigo — ela respondeu sem hesitar um segundo. — Ah, não... Gia, de jeito nenhum. Você acabou de sair de um relacionamento, tá organizando sua vida. Eu não quero atrapalhar a sua fase de solteira... — Que fase de solteira, doida? Eu tô no último ano da faculdade! Meu único 'romance' atual são duzentas páginas de TCC e duas monografias para entregar. Eu não tenho cabeça nem tempo para pensar em homem tão cedo. O quarto de hóspedes é seu pelo tempo que você quiser e precisar. Ponto final. Senti um nó na garganta. — Obrigada... Eu nem sei o que seria de mim sem você. — É para isso que servem as amigas — ela piscou, dando mais um gole na bebida. — E então, ansiosa para o novo emprego? Apoiei a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto. — Eu estava empolgadíssima até duas horas atrás. Agora... me sinto um lixo. Um nada. A energia simplesmente sumiu. Gia me olhou criticamente, colocou a taça na mesa de centro e se levantou num pulo. — Não vou deixar você passar a noite remoendo a traição daquele traste. A gente vai sair. Hoje. Agora. Já. — Gia, não... por favor. Eu só quero tomar um banho e me enfiar debaixo das cobertas. — Sem negociação! — ela me puxou pelo braço. — Nós vamos comemorar o seu emprego novo como você merece. Você vai tomar um banho quente, colocar uma roupa minha bem maravilhosa e a gente vai tomar uns drinks. Se você ficar aqui, vai acabar mandando mensagem para o Max ou chorando pelos cantos. E eu me recuso a deixar você estragar a sua vitória por causa dele. Eu tentei protestar mais umas duas vezes, mas conhecia a teimosia da Gia. Aceitei só para não estragar o ânimo dela e não transparecer o tamanho do meu desânimo. Uma hora depois, eu mal me reconhecia no espelho. Gia havia me emprestado um vestido justo de tricot preto com um decote sutil nas costas, combinado com uma jaqueta de couro e botas de salto. Meu cabelo estava seco, caindo em ondas volumosas, e a maquiagem que ela fez, escondia completamente as olheiras e os olhos inchados de choro. Fomos de aplicativo até o Velvet, um pub com iluminação baixa, paredes de tijolos expostos e uma ilha de bar em madeira escura no centro. O lugar estava cheio, com uma música alta tocando ao fundo. Gia já tinha trabalhado ali como bartender durante os primeiros anos da faculdade, então mal entramos e ela já estava trocando abraços e risadas com os funcionários. Conseguimos duas banquetas perto da pista e pedimos os primeiros drinks. Com a ajuda das luzes neon e da conversa animada, fui me permitindo relaxar um pouco. A dor no peito ainda estava lá, latente, mas o álcool começava a entorpecer as pontas dos meus pensamentos. Depois de um tempo, um cara alto de camisa xadrez se aproximou e começou a conversar com Gia. Não demorou muito para que ela me olhasse com um pedido tácito de desculpas, indo para a pista, onde os dois começaram a dançar juntos. Rindo da cena, acenei para ela e decidi ir ao banheiro antes de pedir outra rodada. O corredor dos banheiros era estreito e movimentado. Quando saí da cabine e dobrei a esquina para voltar ao salão principal, não percebi alguém vindo na direção oposta e me choquei com força contra um peito rígido como uma rocha. O impacto me fez dar dois passos para trás, quase perdendo o equilíbrio no salto. — Não olha para onde anda? — uma voz grave, profundamente irritada, cortou o barulho da música. Ergui os olhos, pronta para pedir desculpas, mas as palavras travaram na minha garganta por um segundo. O homem era ridiculamente bonito. Tinha maxilar marcado, cabelos escuros levemente desalinhados e olhos de um cinza-azulado. Mas sua expressão era de puro e absoluto mau humor. — Desculpe, eu não vi... — comecei, desconcertada. Ele nem me deixou terminar. Soltou um estalo de língua impaciente, passou a mão pelos cabelos, e me deu as costas resmungando algo que soou como "pessoas incapazes de prestar atenção no próprio caminho". Fiquei parada ali, boquiaberta com a grosseria. Observei o sujeito caminhar a passos largos até um canto mais afastado do pub. Ele foi direto ao encontro de um rapaz mais jovem, que estava encostado na parede conversando animadamente com uma garota. O homem ranzinza simplesmente o agarrou pelo braço, sem a menor delicadeza, e começou a arrastá-lo em direção à saída do pub, ignorando os protestos do garoto. Que cara desagradável, pensei, franzindo o cenho enquanto observava a cena de longe. O sujeito parecia o tipo de pessoa que odeia ver qualquer um se divertindo, e que faz questão de estragar a noite alheia só porque a dele deve ser uma lástima. Balancei a cabeça, tentando espantar a má impressão, e voltei para o salão. Gia ainda estava na pista, entretida na dança com o cara de xadrez. Sorri de canto de boca, sem querer atrapalhar, e fui até o balcão, me sentando em uma das banquetas vagas e pedindo mais um drink ao barman. Alguns minutos se passaram enquanto eu observava o gelo derreter no meu copo. De repente, um movimento ao meu lado chamou minha atenção. O rapaz mais jovem, aquele que tinha sido arrastado para fora há pouco, passou marchando de volta para o pub, visivelmente furioso. Ele atravessou a pista e foi direto ao reencontro da garota com quem conversava antes, ignorando completamente tudo ao redor. Logo atrás dele, cruzando as portas de entrada, o homem rabugento reapareceu. Ele não foi atrás do rapaz dessa vez. Apenas parou a alguns metros de distância, com as mãos na cintura e encarando o jovem com um olhar de puro desprezo e irritação, resmungando sozinho. Em seguida, soltando um suspiro pesado que fez seus ombros baixarem milímetros, ele caminhou até o bar e se sentou na banqueta exatamente ao meu lado. Ele nem piscou para notar minha presença. Estava fixado no nada, exalando uma aura tão pesada que parecia fechar o ar ao redor da gente. Ele fez um sinal para o barman, pediu um uísque duplo sem gelo e virou o primeiro gole de uma vez só, fechando os olhos como se estivesse engolindo veneno, ou se punindo por estar ali. Olhei para ele de lado. Talvez pelo álcool no meu sangue, ou talvez porque meu dia já tivesse sido uma tragédia completa e eu estivesse com a tolerância zero para más energias, decidi quebrar o gelo. — Dia difícil? — perguntei. O homem nem se mexeu. Não virou o rosto, não piscou, nem sequer indicou que tinha ouvido minha voz. Continuou encarando o copo meio vazio, fingindo com todas as forças que eu era invisível. A mensagem era cristalina: ele não queria conversa com ninguém. Uma onda de irritação quente subiu pelo meu peito. Eu tinha acabado de pegar meu noivo me traindo na mesa do escritório. Ele não era o único no mundo com problemas. — Sabia que não custa nada responder? — soltei, com o tom de ironia, finalmente fazendo ele dar um leve movimento com a cabeça, embora ainda sem me olhar. — Você não é a única pessoa no mundo que teve um dia péssimo. Devia tentar ser mais simpático com quem não tem nada a ver com os seus problemas. Sem esperar por uma resposta, e nem querer uma, deixei alguns dólares no balcão pelo meu drink, me levantei da banqueta e saí de perto dele. Olhei ao redor da pista procurando por Gia para irmos embora, mas a luz piscante e a multidão densa dificultavam tudo. Ela e o cara do xadrez tinham simplesmente sumido.A presença de Oliver no acostamento da avenida congelou o tempo. Ele caminhou na nossa direção com passos firmes. Cada passada do seu sapato de couro contra o chão, fazia com que qualquer um notasse sua aura autoritária. Max soltou meu braço imediatamente, dando um passo involuntário para trás, mas tentando se recompor logo em seguida. A diferença entre os dois era brutal: Max, com o casaco desalinhado e a expressão descontrolada; Oliver, totalmente controlado em seu terno sob medida, exalando poder. — Quem é você? — Max peitou, inflamando o peito numa tentativa desesperada de parecer ameaçador, embora sua voz tenha falhado no final. — Isso é um assunto particular entre mim e a minha noiva. Não se mete! — Ex-noiva — corrigi imediatamente, dando dois passos para trás e ficando mais próxima de Oliver. O aroma amadeirado do seu perfume me envolveu, um contraste absurdo com o caos daquela calçada. Oliver nem se deu ao trabalho de olhar para Max no primeiro segundo. Seus olhos c
A segunda-feira começou com a chuva fina batendo contra os enormes painéis de vidro da Global Corp. O café da manhã com Gia tinha sido rápido, e a sensação de ter bloqueado o número do Max no fim de semana ainda me dava uma onda estranha de leveza, com uma pontinha de ansiedade. Ele tentara me ligar de outro número no domingo à noite, mas recusei sem hesitar. Eu não voltaria para aquele buraco. Cheguei à minha mesa às sete e quarenta. Ajustei a agenda, chequei as confirmações das reuniões e organizei as pastas da diretoria. Quando o elevador privativo abriu às oito em ponto, Oliver surgiu. Ele usava um terno cinza-escuro que acentuava seus ombros largos e o olhar atento. Passou pela minha mesa, mas desacelerou os passos assim que nossos olhos se cruzaram. — Bom dia, Sarah — disse ele, a voz grave cortando o silêncio do andar. — Bom dia, senhor Pattinson — respondi, me levantando ligeiramente. — A pauta da reunião das dez com o setor financeiro já está na sua mesa. Oliver p
Os passos de Oliver ecoaram pelo corredor como tiros. O passos lentos, firmes e pesados trazia a tensão que fez o ar do décimo quinto andar parecer instantaneamente rarefeito. A analista do financeiro, que há segundos flertava com August, murmurou uma desculpa esfarrapada e desapareceu por uma das portas laterais. August nem se deu ao trabalho de se recompor. Continuou apoiado na borda da minha mesa, ajeitando o copo de café na mão, com um sorriso debochado estampado no rosto enquanto via o irmão mais velho se aproximar. — O que você está fazendo aqui, August? — a voz de Oliver veio baixa, mas com a autoridade tão cortante que me fez encolher sutilmente na cadeira. — Vim visitar meu irmão favorito — August respondeu, ajeitando a postura e dando um gole no café. — E, de quebra, conhecer a nova contratação. Você tem um gosto excelente, Oliver. Ela é muito mais simpática que a anterior. Os olhos de Oliver faiscaram ao ouvir August se referir a mim. Ele não olhou para mim; mante
A frase dele reverberou dentro da cabine do elevador, fazendo o meu sangue congelar e subir direto para as minhas bochechas. Encarei o painel espelhado à nossa frente. No reflexo, os olhos cinza-azulados de Oliver estavam fixos em mim, carregados de uma ironia calma e divertidamente presunçosa. — Eu posso explicar... — comecei, engolindo em seco e me virando de frente para ele. — Naquela noite, a gente não se conhecia. Eu estava sozinha, no meio da madrugada, e... bom, achei que "Chloe" era uma camada segura de proteção caso você fosse um psicopata. Oliver soltou um riso baixo, um som grave e contido que fez meu estômago dar uma volta estranha. Ele ajeitou os punhos do paletó, sem tirar os olhos do meu rosto. — Um psicopata que te deu carona e esperou você entrar na estação de metrô para garantir que ficaria bem? — ele arqueou uma sobrancelha. — Exatamente — mantive o tom firme, embora por dentro estivesse me desfazendo de vergonha. — Pessoas cautelosas sobrevivem mais tem
A supervisora parecia pronta para fazer o discurso de apresentação, mas a voz do meu novo chefe cortou o silêncio do ambiente antes que ela dissesse uma palavra. — Na verdade, nós já nos conhecemos — Oliver disse, a voz grave e perfeitamente ritmada, com a postura confiante de quem tem controle absoluto do espaço. Um leve sorriso de canto surgiu em seus lábios, quase imperceptível para quem olhava de fora, mas claro o suficiente para fazer meu rosto queimar de calor. Chloe. Aquele sorrisinho irônico gritava o nome falso que eu tinha inventado no carro. — É um prazer conhecê-la, senhorita Wash — ele continuou, estendendo a mão para um aperto firme, seco e profissional. — Acredito que a equipe RH já tenha lhe mostrado o andar? — Ainda não, senhor Pattinson — a supervisora interveio, visivelmente sem jeito. — Estávamos esperando a primeira apresentação com o senhor para depois circular pelas áreas. — Não se preocupe, eu mesmo posso orientá-la com o básico mais tarde — Oliver
Parada na frente da porta metalizada do elevador, no saguão espelhado da Global Corp., meu coração errou algumas batidas dentro do meu peito. As portas duplas se abriram com um bipe suave e lá estava ele. Oliver. Ele vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado e carregava uma pasta de couro na mão. Não parecia tão mal-humorado quanto naquela noite no pub, mas ainda ostentava uma aura austera e inalcançável. Fiquei completamente desconcertada. O ar fugiu dos meus pulmões e a única coisa que consegui fazer foi dar um aceno rápido e tenso com a cabeça de ouvir ele me chamar de Chloe. Oliver retribuiu com um olhar atento e um leve inclinar de queixo, saindo do elevador e passando ao meu lado. Entrei rapidamente na cabine, me virando a tempo de vê-lo se afastar pelo saguão enquanto conversava com um homem mais baixo e com ar preocupado. Soltei um suspiro longo, sentindo o alívio lavar meu peito conforme ele desaparecia de vista. Apertei o botão do terceiro andar. O trajet







