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capítulo 5 Gabriela narrando...

last update publish date: 2026-08-27 01:51:30

nesse capítulo entra no ano de 1991

Já se passam meses desde que deixei meus filhos no orfanato, e cada dia que passa a angústia aumenta dentro do meu peito. Hoje, não consigo mais me conter. Entro na sala onde meu pai e minha mãe estão sentados, e falo com uma firmeza que eu mesma não sabia que tinha:

— Já basta! Não aguento mais essa situação. Meus filhos não podem ficar lá para sempre, crescendo longe de mim, sem saber de onde vieram nem quem é a família deles. Não sei o que fazem lá, como são tratados, e isso me mata de preocupação!

Meu pai, Otávio, o banqueiro, me olha com aquela seriedade de sempre, e responde sem levantar a voz, mas com toda a autoridade:

— Você se dá bem, Gabriela. Eles ainda estão ao seu alcance: você pode ir vê‑los quando quiser, levar o que precisam e saber que estão sendo bem cuidados. Se estivessem em outro lugar, nem isso teria. Agora, se quer mudar essa história, é preciso ter condições.E nunca mais você fica com homem de apenas uma noite, você poderá não ter a sorte que teve dessa vez ficar com os filhos.

Minha mãe, Helena, completa com mais suavidade, mas sem mudar o que foi decidido:

— É como seu pai diz. Não temos outra saída por enquanto. Tenha paciência.

Fico calada, sem argumentos que possam vencer a razão deles. Abaixo a cabeça e saio de casa, já com o coração querendo correr para onde eles estão.

Entendi! Vamos direto ao texto, sem comentários extras, já com o tempo avançando cinco anos depois, tudo no presente, como combinamos.

Já se passam cinco anos desde aquele dia em que deixei meus filhos no orfanato. Cinco anos que parecem uma eternidade, mas também trouxeram mudanças que eu não imaginava. A cidade continua a mesma, com as mesmas ruas de paralelepípedo, as mesmas fofocas, mas a minha vida já não é mais a mesma.

Eu vivo amargurada.

Continuo indo visitar Carolina e Pedro todos os finais de semana, sem falta. Eles já estão maiores, com cinco anos de idade, correndo pelo pátio, com a voz mais forte e as perguntas cada vez mais difíceis de responder. Ainda não entendem por que não podem morar comigo de uma vez, mas já se acostumaram a me ver chegar com as sacolas cheias de doces, roupas novas e histórias para contar.

Chego ao orfanato com uma cesta cheia de coisas gostosas: bolachas de manteiga, doce de leite, frutas maduras e pão fresquinho. Quando me veem, Carolina e Pedro correm para os meus braços, e por um instante toda a dor desaparece. Sento‑me com eles no banco do jardim, e enquanto comem, começam a fazer as perguntas que eu mais temo ouvir:

— Mãe, por que nós crescemos aqui e não na sua casa? — pergunta Carolina, olhando nos meus olhos.

— Quando é que nós vamos embora para ficar morando com você de verdade? — continua Pedro, com aquela esperança tão grande na voz. — Aqui é divertido, tem outras crianças, brincamos o dia todo… mas queremos dormir na sua cama, comer na sua mesa e ter você só para nós.

Seguro suas mãos, engulo o choro e respondo com toda a verdade que posso dar a eles:

— Meus amores, vocês vão poder vir morar comigo assim que uma dessas duas coisas acontecer: ou o pai de vocês aparecer e assumir a responsabilidade, ou eu me casar com alguém que aceite vocês como filhos e me dê condições de cuidar de todos nós. Até lá, eu venho aqui sempre que posso, trago o que vocês gostam e nunca esqueço de vocês, nem por um segundo.

Eles ficam pensativos, mas se aconchegam mais em mim, como se só a minha presença já bastasse por enquanto.

Depois de passar a tarde inteira com eles, volto para a cidade. Entro no supermercado para comprar alguns mantimentos para casa, e ao sair, esbarro quase de frente com um homem alto, de rosto sério mas com um olhar gentil.

Ele segura o meu braço com delicadeza para que eu não perca o equilíbrio, e logo abre um sorriso:

— Desculpa, não vi você aí… mas que sorte a minha de te encontrar. Você é linda, sabia? Não costumo ver moças como você por aqui. Me chamo Maurício Cabral.

Fico um pouco sem jeito, mas respondo educada:

— Obrigada. Me chamo Gabriela.

— Você mora por perto? — pergunta ele, curioso.

Aponto com a mão para a rua de cima:

— Sim, ali naquela casa grande, com o muro alto e o portão de madeira.

Ele olha para o lugar e solta uma risada de surpresa:

— Que coincidência! Então somos vizinhos quase. Eu moro na casa dos meus pais, logo ali na outra esquina, a que tem o jardim cheio de roseiras.

A ideia me agrada sem que eu perceba. Ter alguém por perto, uma possibilidade de mudar a minha vida e, quem sabe, um dia trazer meus filhos para casa… isso me faz pensar que talvez seja uma chance.

Ele não perde tempo e convida:

— Se não tiver compromisso, que tal sairmos hoje à noite? Podemos dar uma volta na praça, tomar um refresco, conversar um pouco.

Aceito sem pensar muito, pois sei que se eu quiser construir uma vida nova, preciso dar uma chance. Não é que eu esteja apaixonada — longe disso — mas é uma possibilidade que se abre, e eu agarro ela com esperança.

À noite, ele vem me buscar. Andamos devagar, conversamos sobre a cidade, sobre o trabalho dele, sobre coisas simples. Em certo momento, ele puxa‑me para mais perto e tenta beijar a minha boca. Automaticamente, viro o rosto, e ele acaba beijando apenas a minha bochecha.

Ele entende o recado, não insiste, mas com um pouco de brincadeira diz:

— Você é difícil, hein?

— Desculpa — respondo, um pouco envergonhada. — Ainda não estou acostumada. Mas já está tarde, tenho que voltar para casa antes das dez horas.

Ele me acompanha até a porta. Quando entro, meu pai já está esperando, com os braços cruzados:

— Uai, porque chegou cedo assim? Se quer arrumar marido, não pode tratar o homem desse jeito, menina! Não aguento mais ter você aqui dentro de casa, nessa situação. Trate de se comportar bem já está velha e é mãe, daqui a pouco ninguém te quer mais.Tomara que esse trouxa volte a te procurar novo. É o melhor caminho para resolver tudo.

Fico calada, ouvindo as palavras dele,fico chateada e entendo ele, mas no fundo eu sei: vou fazer o que for preciso para ter meus filhos de volta, mesmo que tenha que caminhar devagar, sem pressa e sem me entregar antes de ter certeza.

Eu não posso ter o luxo de brigar com mamãe e Papai,eles podem pegar meus filhos para mandar pra longe.

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