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Capítulo:05

last update Data de publicação: 2026-09-03 01:20:51

Acordei bem cedo, quando o sol mal começava a pintar de cinza‑claro o céu lá fora. O sono já não vinha com facilidade, a mente cheia de pensamentos novos, perguntas sem resposta e uma estranha sensação de paz misturada a uma cautela que não me abandonava. Levantei‑me devagar, lavei o rosto com água fresca e decidi ir até à cozinha, esperando encontrar algo simples para comer e beber — afinal, gostava de ser útil, de não depender de ninguém para as coisas mais básicas, como sempre aprendi na minha antiga casa.

Caminhei pelos corredores silenciosos, admirando mais uma vez a calma e a beleza daquele lugar, até chegar a uma cozinha ampla, arejada e muito bem arrumada, onde o ar cheirava a farinha, ervas e madeira limpa. Olhei ao redor, mas não havia nada preparado sobre a mesa grande de madeira escura. Aproximei‑me do balcão, onde havia alguns utensílios arrumados, e perguntei com voz suave, pensando que alguém estivesse por perto:

— Com licença… gostaria de saber se já há algo para o café da manhã, ou se posso ajudar a preparar.

De trás de uma porta que dava para a despensa, surgiu uma mulher de cabelos escuros e olhos afiados, com expressão fechada e um olhar que pesou sobre mim como uma pedra. Vestia o mesmo tipo de roupa de serviço que Olívia, mas não havia nada de doce ou acolhedor no seu jeito de ser. Parou diante de mim, braços cruzados, e respondeu com uma grosseria que me deixou parada, sem saber como reagir:

— E quem é você para vir aqui dar ordens e perguntar o que fazemos ou deixamos de fazer? Não vê que não é bem‑vinda? Vá‑se embora e não atrapalhe o nosso trabalho!

Fiquei sem palavras, surpresa com tanta hostilidade gratuita — afinal, eu não tinha feito nada, nem sequer falara com ela antes. Antes que conseguisse responder ou sequer entender o que se passava, ouvi passos suaves aproximarem‑se, e logo Olívia apareceu ao meu lado, com o rosto sério, mas mantendo a calma que parecia ser a sua marca.

— Chega disso, Rafaela — disse ela firme, sem levantar a voz, mas deixando claro que não aceitaria aquele tratamento. — Não tem motivo nenhum para falar assim com a nossa convidada.

A mulher, que agora sabia chamar‑se Rafaela, cerrou os dentes, lançou‑me mais um olhar carregado de ódio e saiu apressada, batendo a porta com força atrás de si. Fiquei ali, ainda confusa e um pouco assustada, enquanto Olívia pousava uma mão suave no meu ombro, acalmando‑me de imediato.

— Peço desculpas por esse comportamento, querida — explicou ela, com um suspiro leve. — Ela se chama Rafaela, trabalha aqui há anos… e há muito tempo nutre um sentimento muito forte e não correspondido pelos nossos três alfas. Sempre esperou que um dia eles a escolhessem para fazer parte da sua vida e do seu lar. Quando você apareceu de repente, recebida com tanto cuidado e atenção, ela passou a ver‑a como uma ameaça, como alguém que veio tirar o lugar que acredita ser seu. Não ligue às suas palavras: nascem apenas de ciúme e de uma ilusão que ela mesma alimenta.

Assenti em silêncio, compreendendo melhor o que acontecera. Era estranho pensar que alguém me odiasse simplesmente por existir, mas infelizmente já conhecia bem esse tipo de sentimento — afinal, vira‑o crescer no coração da minha própria irmã gêmea durante toda a vida.

— Não se preocupe, não vou deixar que isso me afete — respondi, tentando sorrir de leve. — Agradeço‑lhe por me defender.

— Sempre farei tudo o que puder para que esteja bem aqui — garantiu ela, já se movendo com agilidade para pegar panelas e ingredientes frescos. — Agora sente‑se, que eu preparo um café da manhã que vai lhe dar ainda mais energia para o dia que temos pela frente.

Pouco tempo depois, o aroma delicioso de pão quente, queijo fresco, mel e frutas doces invadiu todo o ambiente, e a mesa ficou cheia de coisas simples mas muito saborosas. Mal tínhamos acabado de arrumar tudo, quando entraram os três alfas juntos, como sempre faziam: caminhando lado a lado, com aquela harmonia e força que só eles pareciam ter. Olharam‑me logo de início, com atenção e carinho, certificando‑se de que eu estava bem, e cada um me cumprimentou com uma palavra amável e um olhar doce.

— Esperamos que esteja descansando melhor a cada dia — disse Enzo, puxando uma cadeira para se sentar perto de mim, com aquele sorriso iluminado que sempre trazia paz ao meu coração. — Temos uma boa notícia: Cora, a médica que cuida da saúde de todos nesta alcatéia, virá em breve fazer uma visita para examiná‑la direito, verificar se está tudo bem com o seu corpo e com a sua recuperação. Ela é muito competente e de total confiança.

— Não precisa ficar apreensiva com nada — acrescentou Dante, com a sua voz calma e segura. — Ela apenas quer ter certeza de que não ficou nenhum ferimento ou fraqueza do que passou na floresta. Tudo o que disser ou descobrir ficará só entre nós.

Conversamos tranquilamente enquanto comíamos, sentindo novamente como era bom ser ouvida e respeitada, sem cobranças nem pressas. Não demorou muito até que uma senhora de meia‑idade, com cabelos presos num coque firme e olhar inteligente e acolhedor, entrou na cozinha e se apresentou: era Cora. Depois de trocar algumas palavras gentis com todos, pediu‑me que a acompanhasse a um pequeno escritório ao lado, preparado para os seus atendimentos.

Ela foi muito cuidadosa e atenciosa em tudo o que fez: mediu a minha temperatura, ouviu o meu coração e os meus pulmões, verificou os meus reflexos e fez várias perguntas sobre como me sentia, o que comia, como dormia. Por fim, colheu uma pequena quantidade de sangue, guardando o frasco com atenção.

— Até onde posso ver de imediato, o seu corpo está reagindo muito bem — disse ela, com um tom pensativo, como se já tivesse notado algo que ainda não quisesse adiantar. — Não há ferimentos graves, nem sinais de doença aparente. Mas para ter uma certeza absoluta e ver tudo o que se passa dentro de si, preciso analisar esta amostra com calma e cuidado. Daqui a alguns dias trago‑lhe o resultado completo. Fique tranquila: não há motivo para alarme, apenas quero ter a certeza de que está realmente saudável por inteiro.

Saí dali um pouco mais aliviada, mas também curiosa: havia algo na forma como ela falava, na atenção que dedicava ao exame, que me fazia pensar que talvez ela já tivesse uma pequena ideia do que se passava comigo — embora mantivesse o segredo por respeito e cautela.

Quando contei aos três alfas o que ela dissera, Kaique deu um passo à frente, com um brilho alegre nos olhos, como se tivesse tido uma ideia excelente:

— Olha… já que tudo indica que está tudo bem, e para ajudar a esquecer por uns tempos qualquer preocupação ou cansaço… que tal irmos até à praia que fica a poucos quilômetros daqui? É um lugar calmo, de águas claras e ar puro, onde podemos caminhar, descansar e aproveitar o dia sem pressa nenhuma. Seria bom para todos nós, e especialmente para você, para que possa respirar um pouco mais livremente.

Olhei para eles, vendo o quanto realmente desejavam ver‑me feliz e à vontade. A ideia parecia‑me maravilhosa, algo que nunca me teria sido permitido ou oferecido na minha antiga vida. Assenti com um sorriso verdadeiro, que me chegou aos olhos:

— Eu adoraria ir com vocês.

Naquele momento, senti mais uma vez que, pouco a pouco, aquele lugar e aquelas pessoas estavam preenchendo os espaços vazios que existiam dentro de mim há tanto tempo — e pela primeira vez, não tive medo de deixar que isso acontecesse.

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Último capítulo

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