LOGINNa manhã seguinte, acordei com uma sensação estranha de tranquilidade que não sentia há anos. O sol entrava pelas janelas altas, aquecendo o ambiente, e pela primeira vez não havia vozes ríspidas, nem cobranças, nem o peso de ser sempre “menos” do que devia ser. Levantei‑me devagar, sentindo ainda um pouco de fraqueza, mas com o coração mais leve do que nos últimos dias. Mal sabia eu que aquele dia me mostraria uma realidade completamente diferente da que eu conhecia até ali.
Não demorou muito até que a porta se abrisse suavemente: era Dante, com aquele ar calmo e seguro que parecia carregar consigo onde quer que fosse. Trazia‑me roupas limpas e macias, de tecido bom e cortes confortáveis, nada que parecesse dado por piedade, mas sim algo preparado com cuidado. — Bom dia, Lira — saudou‑me com um sorriso sereno, mantendo‑se à distância respeitosa de sempre. — Se já se sente melhor, gostaria de lhe mostrar um pouco mais deste lugar, para que se sinta verdadeiramente à vontade enquanto fica conosco. Aceitei sem hesitar. Queria entender melhor onde estava, ver com os próprios olhos se toda aquela bondade era realmente verdadeira ou apenas uma aparência. Ao sair do quarto, percebi que a mansão era ainda mais ampla e bela do que imaginara: corredores compridos com quadros antigos e tapeçarias que contavam histórias antigas, janelas que abriam para jardins floridos e bem cuidados, onde o ar era puro e perfumado. Mas o que mais me impressionou não foi a riqueza, e sim o jeito como todos ali se tratavam uns aos outros — com respeito, alegria e confiança mútua. Encontrávamos pessoas por todos os lados: trabalhadores, guardas, moradores da alcatéia que vinham tratar de assuntos diversos. E em vez de olhares tortos ou comentários baixos, como eu estava acostumada, todos me cumprimentavam com sorrisos sinceros, acenavam com a cabeça em sinal de respeito e me desejavam bom dia como se eu pertencesse ali há muito tempo. Ninguém perguntava sobre o meu lobo, ninguém fazia menção alguma ao que eu não tinha. Parecia que simplesmente viam mim, e isso era suficiente. — Todos aqui sabem da sua presença, e todos estão felizes por tê‑la conosco — explicou Dante, como se lesse os meus pensamentos cheios de surpresa. — Nós não medimos o valor de ninguém pelo que carrega por dentro ou pela força que demonstra. Aqui, o que conta é o coração e a honestidade. Caminhamos até um jardim mais afastado, cheio de árvores frondosas e bancos de madeira onde alguém podia descansar à vontade. Ali, sentada a olhar para um canteiro de flores, estava uma jovem com cabelos castanhos claros e olhos doces, que se levantou ao nos ver aproximar, sorrindo com uma alegria simples e verdadeira. — Esta é a Bella — apresentou‑me Dante. — Ela mora aqui conosco há bastante tempo, e com certeza vai gostar muito de conhecer você. Cumprimentei‑a com timidez, mas logo percebi que havia algo de familiar nela, uma mesma espécie de suavidade e compreensão que eu conhecia bem. Não demorou muito para que ela própria me dissesse, com voz calma e sem qualquer traço de vergonha: — Também nunca despertei o meu lobo, Lira. Durante muito tempo achei que isso me tornava menor, até vir para cá e descobrir que sou muito mais do que isso — assim como você. Naquele instante, senti uma corrente forte de identificação e alívio percorrer‑me todo o corpo. Pela primeira vez na vida, encontrava alguém que sabia exatamente o que eu sentia, que carregara o mesmo peso nas costas, que ouvira as mesmas frases cruéis e que agora brilhava intensamente mesmo assim. Sentamo‑nos ali mesmo, conversando por longo tempo, e senti como se já a conhecesse há anos. Ela contou‑me como chegara até ali, como foi acolhida sem perguntas ou condições, e mostrou‑me que era possível ser feliz e respeitada, independentemente de tudo o que o mundo dizia que devíamos ser. Quando nos despedimos, sentia‑me mais forte e esperançosa do que em toda a minha vida anterior. Ao voltarmos para a parte principal da casa, o sol já começava a descer no horizonte, tingindo tudo de tons dourados e avermelhados. Dante acompanhou‑me até o meu quarto, desejando‑me uma noite descansada e dizendo que estariam sempre por perto se eu precisasse de algo. Mais tarde, quando o silêncio começou a reinar, senti uma leve curiosidade e aproximei‑me devagar da porta do quarto que os três partilhavam — sem querer espreitar, apenas para entender melhor aquela ligação forte que os unia. Mesmo de fora, podia ouvir as vozes baixas e carinhosas, cheias de uma cumplicidade que raramente se vê entre pessoas quaisquer. — Sinto uma ligação com ela que não consigo explicar, que nunca senti por ninguém antes — dizia Dante, com a voz pesada de uma preocupação profunda. — É como se parte de mim estivesse fora do meu corpo, e só voltasse ao seu lado quando ela está perto. O medo de não sabermos cuidar dela, de a perdermos ou de ela nunca nos ver como algo mais do que salvadores… isso me consome por dentro. — Sentimos exatamente o mesmo — respondeu Kaique, com a sua firmeza habitual, mas suavizada por uma ternura que só existia quando falava com eles dois. — Ela é nossa, de uma forma que ainda não entendemos por completo. Mas vamos ter paciência, dar‑lhe todo o tempo que precisar. Ela está ferida até à alma, e não podemos exigir que confie ou se abra de um dia para o outro. — Ela vai ver — acrescentou Enzo, com a sua voz doce e cheia de certeza. — Vai perceber que não estamos aqui para tirar‑lhe nada, mas sim para lhe dar tudo o que ela merece e nunca teve. E o que temos entre nós… só vai ficar mais forte quando ela finalmente se juntar a nós. Ouvi então o som suave de abraços, de carinhos e palavras de apoio que trocavam entre si, confirmando o que eu já começava a suspeitar: aqueles três homens poderosos, capazes de comandar terras e vidas com autoridade, partilhavam também um amor profundo, verdadeiro e sem vergonha nenhuma — um laço que os tornava completos, mas que parecia ainda esperar por algo mais para ser perfeito. E por alguma razão que eu ainda não compreendia, pareciam acreditar que esse “algo mais” era eu. Afastei‑me devagar, com o coração aos saltos, sem saber muito bem o que pensar ou sentir. Mas uma coisa era certa: ali, naquela casa cheia de bondade e de amor verdadeiro, eu estava começando a descobrir que talvez não fosse tão vazia ou sem valor como me fizeram crer durante toda a minha vida. E pela primeira vez, senti vontade de ficar, de descobrir quem eu realmente era longe das sombras que me tentaram apagar.Nos primeiros dias depois do despertar, descobri rapidamente uma coisa: ter uma força imensa e sentidos que captam cada som, cada cheiro, cada movimento ao redor é maravilhoso… mas também pode ser terrivelmente embaraçoso quando ainda não sabemos lidar com tudo isso.Passei a vida toda a sentir‑me fraca, pequena e sem capacidade para quase nada — e de repente, parecia que havia uma energia enorme a correr‑me nas veias, pronta para sair a qualquer momento, mais forte do que eu conseguia controlar. Os primeiros acidentes aconteceram quase de imediato: ao tentar abrir uma porta comum, puxei a maçaneta com mais força do que pensava e arranquei‑a de vez, fazendo‑a cair no chão com um barulho enorme. Quando me assustei com um som inesperado, dei um passo rápido demais e esbarrei numa mesa de madeira maciça, que se partiu ao meio como se fosse feita de papel. Até mesmo ao tentar fechar uma janela com suavidade, acabei por empurrar com tanta potência que a estrutura inteira saiu das dobradiça
Quando voltei a mim, a primeira coisa que senti foi a suavidade dos lençóis de algodão e o calor de mãos grandes e firmes a segurarem as minhas com carinho. Abri os olhos devagar, ainda atordoada e com a cabeça a girar levemente, e vi‑me rodeada por eles: Dante, Kaique e Enzo estavam ali, sentados à volta da cama, com expressões de profunda preocupação, mas também de uma ternura que me acalmou imediatamente. Ao lado, Cora permanecia atenta, pronta para ajudar se precisasse.— Não se assuste, querida — disse Dante suavemente, acariciando‑me o dorso da mão com o polegar. — Está segura, estamos todos aqui consigo. Não há nada nem ninguém que possa magoá‑la novamente.Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos que ainda pareciam confusos e espalhados, mas uma pergunta queimava‑me nos lábios e não podia esperar mais:— Diga‑me… o que descobriu realmente? Quem foi capaz de fazer uma coisa destas comigo? E porquê?Cora assentiu com seriedade, aproximando‑se um pouco mais e mantendo‑se
Os dias seguintes passaram‑se numa calma que eu já começava a achar que seria eterna, como se finalmente tivesse encontrado um porto seguro onde as tempestades do passado não pudessem mais chegar. Bella, que se tornara a minha melhor amiga e confidente, apareceu uma manhã com os braços cheios de livros de capas coloridas e atraentes, os olhos brilhando de alegria ao me entregar tudo.— Sei que gosta de ler, e pensei que talvez gostasse de conhecer estas histórias — disse ela, sorrindo docemente. — Falam de amores fortes, de laços que o tempo não destrói e de pessoas que encontram o seu lugar exatamente onde menos esperavam. Espero que goste tanto quanto eu gostei.Agradeci‑lhe com o coração cheio de gratidão, e nos dias que se seguiram mergulhei de cabeça naquelas páginas, vivendo cada aventura ao lado das personagens, sentindo as suas alegrias e as suas dores como se fossem minhas. Eram histórias belas, cheias de paixão, entrega e fidelidade, e por vezes me pegava a suspirar, desejan
Os dias iam passando de forma calma e leve, e eu acabava perdendo a noção de datas e horários — pela primeira vez na vida, não havia cobranças, tarefas obrigatórias nem a sensação de estar sempre atrasada ou fora do lugar. Por isso, quando acordei naquela manhã, nem sequer lembrei‑me de que era o dia em que completava mais um ano de vida.Para mim, aquela data deixara de ter qualquer significado há muito tempo. Lembrava‑me bem de quando éramos pequenas: os aniversários eram sempre comemorações duplas, bolos grandes, presentes para as duas, atenção dividida igual. Mas com o tempo, tudo mudou pouco a pouco, até que restou apenas o aniversário de Lívia. As festas, os parabéns, os presentes, as palavras de carinho — tudo passou a ser dirigido exclusivamente a ela. Eu continuava ali, ao lado, quase invisível, ouvindo os parabéns como se fossem para uma pessoa estranha, e ninguém nunca mais mencionou que eu também nascera naquele mesmo dia.Acostumei‑me a isso. Aprendi a não esperar nada, a
O caminho até a praia foi curto, mas pareceu durar uma eternidade de tão ansiosa que eu estava. Sentada ao lado de Enzo na parte de trás da carruagem, com Kaique na frente guiando os cavalos e Dante ao seu lado observando a paisagem, eu não conseguia parar de olhar pela janela, vendo as árvores darem lugar a dunas claras e ao brilho imenso do mar que se perdia no horizonte, azul profundo e cheio de luz.Fazia tanto tempo que não ia até uma praia… a última vez ainda era muito pequena, mal conseguia me lembrar dos detalhes, só de uma coisa: naquela época, meus pais ainda nos levavam às duas, a mim e a Lívia, segurando nossas mãos com a mesma ternura, falando conosco com o mesmo carinho. Ainda não havia diferenças visíveis, ainda não tinham escolhido quem seria “a filha perfeita” e quem seria apenas uma sombra ao lado dela.Naquele dia, fomos iguais, e brincamos juntas sem que ninguém nos dissesse que uma valia mais do que a outra. Parecia uma história de outra vida, tão distante que qua
Acordei bem cedo, quando o sol mal começava a pintar de cinza‑claro o céu lá fora. O sono já não vinha com facilidade, a mente cheia de pensamentos novos, perguntas sem resposta e uma estranha sensação de paz misturada a uma cautela que não me abandonava. Levantei‑me devagar, lavei o rosto com água fresca e decidi ir até à cozinha, esperando encontrar algo simples para comer e beber — afinal, gostava de ser útil, de não depender de ninguém para as coisas mais básicas, como sempre aprendi na minha antiga casa.Caminhei pelos corredores silenciosos, admirando mais uma vez a calma e a beleza daquele lugar, até chegar a uma cozinha ampla, arejada e muito bem arrumada, onde o ar cheirava a farinha, ervas e madeira limpa. Olhei ao redor, mas não havia nada preparado sobre a mesa grande de madeira escura. Aproximei‑me do balcão, onde havia alguns utensílios arrumados, e perguntei com voz suave, pensando que alguém estivesse por perto:— Com licença… gostaria de saber se já há algo para o caf







