LOGINAcordo sobressaltada com um leve movimento na cama, bem ao meu lado.
Abro os olhos por um segundo, mas os fecho imediatamente ao perceber onde estou.
O teto alto, os lençóis de algodão egípcio absurdamente macios e o cheiro amadeirado que agora conheço tão bem dominam o ambiente.
Continuo de olhos bem fechados, fingindo um sono profundo, controlando a minha respiração para parecer o mais natural possível.
Só me permito mover um músculo quando ouço o som abafado do chuveiro sendo ligado no banheiro da suíte.
No segundo seguinte, a adrenalina dispara e sou inundada por uma onda de vergonha absoluta.
Agora, sem o efeito anestésico do álcool ou o calor do desejo que me possuiu na noite anterior, a realidade cai sobre a minha cabeça como um balde de água fria.
Eu dormi com o CEO da empresa onde minha melhor amiga trabalha.
Eu fugi com um homem que mal conheço.
Só de imaginar a possibilidade de encará-lo à luz do dia, de ter que manter uma conversa formal depois de tudo o que fizemos naquele quarto, sinto meu estômago revirar de pânico.
Levanto-me da cama em um salto silencioso, pisando descalça no chão frio.
Começo a procurar minhas roupas pelo quarto.
Meu vestido de seda verde está jogado perto da poltrona; as roupas íntimas, um pouco mais adiante.
Visto-me de forma apressada, lutando contra o zíper teimoso nas minhas costas, com o coração batendo tão forte na garganta que temo que ele possa ouvir do banheiro.
Seguro minhas sandálias de salto nas mãos para não fazer barulho e, no exato instante em que o som do chuveiro cessa, indicando que ele terminou o banho, escapo pela porta do quarto.
Corro pelo corredor e entro no elevador privativo, apertando o botão do térreo repetidamente como se isso fosse fazer o aparelho se mover mais rápido.
Quando as portas finalmente se abrem no saguão, saio quase correndo pelas portas de vidro do prédio. O ar frio da manhã de sábado atinge meu rosto.
Entro no primeiro táxi que vejo estacionado na avenida e desabo no banco de trás.
— Para onde, senhorita? — pergunta o motorista.
Dou o meu endereço com a voz trêmula e me encosto no banco, fechando os olhos.
Enquanto o táxi avança pelas ruas ainda vazias da cidade, minha mente repassa cada segundo.
Faço um apelo silencioso ao universo, quase como uma prece desesperada: por favor, que eu nunca mais cruze o caminho desse homem.
Ao chegar ao meu pequeno e caótico apartamento, o contraste é imediato.
Aqui estão as minhas telas empilhadas, meus pincéis sujos, a minha bagunça organizada.
Vou direto para o banheiro. Deixo que a água quente do chuveiro relaxe meus ombros tensos e, finalmente segura em meu próprio espaço, permito-me sentir o que vivi.
Sob o vapor do banheiro, recordo-me de cada toque dele, de cada sussurro rouco e de cada arrepio.
Permito-me reviver aquela intensidade em minha mente uma última vez, deixando que a água leve embora o perfume dele da minha pele, como uma despedida silenciosa.
Horas mais tarde, a inquietação no meu peito se transforma em uma onda avassaladora de inspiração.
Tranco-me no meu ateliê.
Misturo tinta azul-cobalto, preto e toques de prata na paleta.
Pego uma tela em branco e deixo que tudo flua através do pincel.
Cada pincelada vigorosa e caótica representa uma emoção que não consigo colocar em palavras.
É a minha forma de processar o que aconteceu e, ao mesmo tempo, deixar aquela noite para trás em minha mente, mas eternizada no tecido.
O dia passa de forma rápida.
Quando olho pela janela, já é noite.
Pela primeira vez em semanas, a tela à minha frente não estava mais em branco.
Eu ainda não sabia...
Mas aquela era apenas a primeira marca que Gabriel deixaria na minha vida.
POV Gabriel De LucaHá mais de vinte minutos estou ouvindo as reclamações incansáveis de Victor em meus ouvidos.Imediatamente me arrependo de ter aceitado vir com ele a esta exposição.— Ok, Victor, eu já entendi — digo, revirando os olhos ao sentir o carro desacelerar em frente a um prédio moderno e clean, com grandes portas e paredes de vidro que revelam algumas obras de arte e uma pequena multidão no interior.— Gab, eu te avisei desta exposição há mais de um mês, e você furou comigo todos os dias. As melhores obras já devem ter sido vendidas — meu amigo faz questão de repetir, como se eu já não estivesse ouvindo suas queixas diariamente há quatro semanas.— Eu já expliquei que minha agenda estava lotada. Você poderia ter vindo sem mim se estava tão interessado — saio do carro antes que ele tenha a chance de recomeçar o sermão.— Sabe, eu me sinto tão querido quando você descarta a minha companhia desse jeito — ele dramatiza, usando um tom falsamente ofendido. — Não vim sozinho po
Saímos do hospital sem trocar uma única palavra e vamos direto para o meu apartamento. Sum não me faz mais nenhuma pergunta.Ela apenas me ajuda a trocar de roupa, me cobre na cama e vai embora, levando consigo um milhão de dúvidas e uma pequena foto borrada da vida que começou a se formar em mim.No dia seguinte, só me levanto da cama para comer e ir ao banheiro.Estou tão entorpecida pela notícia que quase me esqueço do início da exposição.Às dezessete horas em ponto, Summer já está em casa para me ajudar a me arrumar.Ela escolhe cuidadosamente um vestido longo preto de seda com as costas nuas.Meu cabelo vai preso em um coque polido e baixo, e nos pés, uma bota de couro traz um ponto de descontração para o visual.Antes de sair, me pego olhando para o meu reflexo e, automaticamente, levo a mão à minha barriga ainda pequena.Com os olhos marejados, vejo pelo espelho Summer se aproximar.Ela apoia a mão sobre a minha, tão emocionada quanto eu.Os primeiros dias de exposição passam
— Boa tarde, senhorita Clara. Sou o Dr. Caleb e estou cuidando do seu caso — ele diz, de forma muito profissional. — Sua amiga me passou algumas informações sobre o seu histórico recente e eu gostaria de confirmar alguns pontos — ele continua, alternando o olhar apreensivo entre mim e Sum.Pelo canto do olho, noto as mãos de Summer começarem a tremer.— Certo, doutor, pode falar… — Minha voz sai tão fraca que mal a reconheço. Estou tão nervosa que sinto que vou vomitar.Agarro-me com força às bordas de metal da maca, tentando fazer a sala parecer um pouco mais estável sob os meus pés.— Você está com vinte e cinco anos, certo? — o Dr. Caleb pergunta, já com a caneta posicionada sobre a prancheta.— Sim…— É solteira, correto, senhorita Smith? — Essa pergunta vem com um pouco mais de ênfase, e ele me encara por cima dos óculos.— Sim… — respondo, engolindo em seco, sem entender onde ele quer chegar com aquilo.— Tem sentido essas ânsias e dores abdominais há quanto tempo?— Mais ou men
Victor não desiste fácil.Pouco depois de quase ser expulso da minha sala, ele entra novamente, desta vez com uma postura um pouco mais profissional, embora o brilho divertido ainda continue em seus olhos.— Tudo bem, chefe, prometo focar no trabalho agora — ele diz, apoiando as mãos na minha mesa de forma descontraída. — Mas, falando sério, tenho um convite maravilhoso para você — ele completa, com um meio sorriso — O dono de uma pequena galeria de arte no centro é um grande amigo meu e me ligou hoje cedo. Ele está organizando uma exposição para lançar uma artista nova.Encaro-o, sem entender onde ele quer chegar.— E o que eu tenho a ver com isso, Victor? Sabe que não tenho paciência ou tempo para ficar olhando para telas e fingindo que entendo de pinceladas.— Você precisa comprar algumas obras para decorar o novo saguão do hotel da De Luca Company, lembra? — ele argumenta, com um sorriso convencido. — É a oportunidade perfeita. Apoiar uma artista independente é excelente para o ma
As semanas seguintes passaram voando.Quando finalmente me dou conta, já faz um mês — quatro semanas exatas — desde aquela fatídica noite.Eu não me sentia tão inspirada há muito tempo.Meu ateliê agora está caótico, porém vivo, cercado de novos quadros e telas secando por todos os cantos.Em uma tarde silenciosa, posiciono-me diante de um cavalete com o pincel firme em mãos, pronta para começar uma nova pintura.No entanto, no instante em que aproximo o pincel do rosto, o cheiro forte do solvente me atinge e sinto uma náusea avassaladora subir pela garganta.O pânico é imediato.Largo o pincel de qualquer jeito e corro para o banheiro, quase sem conseguir alcançar o vaso sanitário a tempo de colocar tudo para fora.Depois de me recuperar, escovo os dentes e encaro meu próprio reflexo pálido no espelho.Faço uma nota mental para desacelerar o ritmo.— É só estresse — sussurro para mim mesma, tentando me convencer. — Excesso de trabalho e muitas horas seguidas respirando esse cheiro de
Acordo sobressaltada com um leve movimento na cama, bem ao meu lado.Abro os olhos por um segundo, mas os fecho imediatamente ao perceber onde estou.O teto alto, os lençóis de algodão egípcio absurdamente macios e o cheiro amadeirado que agora conheço tão bem dominam o ambiente.Continuo de olhos bem fechados, fingindo um sono profundo, controlando a minha respiração para parecer o mais natural possível.Só me permito mover um músculo quando ouço o som abafado do chuveiro sendo ligado no banheiro da suíte.No segundo seguinte, a adrenalina dispara e sou inundada por uma onda de vergonha absoluta.Agora, sem o efeito anestésico do álcool ou o calor do desejo que me possuiu na noite anterior, a realidade cai sobre a minha cabeça como um balde de água fria.Eu dormi com o CEO da empresa onde minha melhor amiga trabalha.Eu fugi com um homem que mal conheço.Só de imaginar a possibilidade de encará-lo à luz do dia, de ter que manter uma conversa formal depois de tudo o que fizemos naquel







