LOGINAs semanas seguintes passaram voando.
Quando finalmente me dou conta, já faz um mês — quatro semanas exatas — desde aquela fatídica noite.
Eu não me sentia tão inspirada há muito tempo.
Meu ateliê agora está caótico, porém vivo, cercado de novos quadros e telas secando por todos os cantos.
Em uma tarde silenciosa, posiciono-me diante de um cavalete com o pincel firme em mãos, pronta para começar uma nova pintura.
No entanto, no instante em que aproximo o pincel do rosto, o cheiro forte do solvente me atinge e sinto uma náusea avassaladora subir pela garganta.
O pânico é imediato.
Largo o pincel de qualquer jeito e corro para o banheiro, quase sem conseguir alcançar o vaso sanitário a tempo de colocar tudo para fora.
Depois de me recuperar, escovo os dentes e encaro meu próprio reflexo pálido no espelho.
Faço uma nota mental para desacelerar o ritmo.
— É só estresse — sussurro para mim mesma, tentando me convencer. — Excesso de trabalho e muitas horas seguidas respirando esse cheiro de tinta.
Preciso de uma pausa.
De repente, ouço o toque estridente do meu celular vindo do ateliê.
Caminho até a mesa e olho para a tela.
Um número desconhecido pisca no visor e, por um segundo absurdo, meu coração dá um salto e sinto um frio na barriga.
Sacudo a cabeça para espantar o pensamento ridículo e atendo.
Minha respiração falha, mas desta vez é de pura alegria.
Do outro lado da linha, a curadora de uma pequena, mas muito charmosa galeria de arte no centro da cidade, me faz um convite irrecusável: uma exposição individual em algumas semanas.
Olho ao redor, contemplando o resultado de todo o meu suor dos últimos dias espalhado pelas telas, e aceito a proposta sem pensar duas vezes.
— Esta é a sua chance de brilhar, Clara — repito para mim mesma em voz baixa, com um sorriso no rosto.
POV Gabriel De Luca
— Odeio fazer esse tipo de coisa. Não sei como você me convence a isso — sussurro minhas reclamações entre dentes para Victor, ajustando os punhos do meu terno enquanto fingo prestar atenção nas pessoas ao redor.
Mas a minha irritação morre no segundo seguinte.
Quase como se fosse puxado por uma força magnética, meu olhar é direcionado para o saguão principal do salão.
É ali que a vejo pela primeira vez.
Uma mulher deslumbrante.
Morena, de cabelos longos parcialmente presos de forma elegante, com cachos suaves que de alguma forma se tornam magnéticos em seu visual.
De longe, meus olhos mapeiam o seu vestido — uma peça de cor vibrante que desenha perfeitamente suas curvas e destaca de forma absurda o seu sorriso tímido e o tom de sua pele.
Engulo em seco, sem conseguir desviar os olhos dela por um único instante.
De repente, sinto uma vontade absurda de agradecer a Victor por ter me obrigado a vir a este evento.
Assim que nossas mãos se tocaram, todo o resto perdeu importância.
Ainda consigo lembrar da sensação daquele toque e da forma como ela desviou os olhos antes de fugir em direção ao bar.
Não consigo mais permanecer fingindo interesse em mais ninguém que me cumprimenta.
Minha mente gira em torno daquela mulher.
Durante as horas seguintes, meus olhos a buscam constantemente na multidão.
Assim que encontro uma brecha entre os acionistas, percebo que ela se retirou sozinha para a varanda privativa.
Sem pensar duas vezes, desvencilho-me das conversas e vou atrás dela.
Ao cruzar as portas de vidro, a vejo apoiada no guarda-corpo, observando a noite.
Ainda mais magnética do que antes.
Decido iniciar um diálogo antes que a coragem simplesmente desapareça.
Posso discursar para uma multidão, negociar com tubarões e comandar uma empresa inteira.
Mas, diante daquela mulher, pela primeira vez em muitos anos, eu simplesmente não sabia o que dizer.
Sou arrancado bruscamente das minhas lembranças por Victor, que balança as mãos freneticamente diante do meu rosto.
Desvio os olhos da janela e o encaro com o meu semblante mais frio e inexpressivo possível.
— Você conseguiu alguma informação relevante sobre a mulher da festa? — pergunto com a voz mecânica, tentando a todo custo disfarçar a ansiedade que me consome há semanas.
— Não consegui absolutamente nada — Victor suspira, jogando-se na cadeira à frente da minha mesa. — Tentei sondar a Summer, mas ela só me revelou o que já sabemos: o primeiro nome. Procurei em redes sociais, sites de busca e simplesmente não há informações sobre nenhuma "Clara" que se encaixe no perfil dela. Já faz um mês e você ainda está preso nisso? Ela realmente te pegou de jeito, hein, meu amigo? — ele finaliza com um tom de voz provocativo e irônico.
— Entregue-me logo esses relatórios e volte ao trabalho — respondo, sentindo o maxilar trincar, irritado com o deboche dele. — Eu não o contratei para vir aqui rir de mim, e sim para me ajudar na direção desta empresa.
— Uau. Você realmente está perturbado por essa mulher — Victor solta uma risada baixa e irritante enquanto se levanta.
Antes que eu possa responder à altura ou expulsá-lo de vez, ele se retira da minha sala com passos rápidos, fechando a porta de vidro atrás de si e me deixando sozinho com a minha própria frustração.
POV Gabriel De LucaHá mais de vinte minutos estou ouvindo as reclamações incansáveis de Victor em meus ouvidos.Imediatamente me arrependo de ter aceitado vir com ele a esta exposição.— Ok, Victor, eu já entendi — digo, revirando os olhos ao sentir o carro desacelerar em frente a um prédio moderno e clean, com grandes portas e paredes de vidro que revelam algumas obras de arte e uma pequena multidão no interior.— Gab, eu te avisei desta exposição há mais de um mês, e você furou comigo todos os dias. As melhores obras já devem ter sido vendidas — meu amigo faz questão de repetir, como se eu já não estivesse ouvindo suas queixas diariamente há quatro semanas.— Eu já expliquei que minha agenda estava lotada. Você poderia ter vindo sem mim se estava tão interessado — saio do carro antes que ele tenha a chance de recomeçar o sermão.— Sabe, eu me sinto tão querido quando você descarta a minha companhia desse jeito — ele dramatiza, usando um tom falsamente ofendido. — Não vim sozinho po
Saímos do hospital sem trocar uma única palavra e vamos direto para o meu apartamento. Sum não me faz mais nenhuma pergunta.Ela apenas me ajuda a trocar de roupa, me cobre na cama e vai embora, levando consigo um milhão de dúvidas e uma pequena foto borrada da vida que começou a se formar em mim.No dia seguinte, só me levanto da cama para comer e ir ao banheiro.Estou tão entorpecida pela notícia que quase me esqueço do início da exposição.Às dezessete horas em ponto, Summer já está em casa para me ajudar a me arrumar.Ela escolhe cuidadosamente um vestido longo preto de seda com as costas nuas.Meu cabelo vai preso em um coque polido e baixo, e nos pés, uma bota de couro traz um ponto de descontração para o visual.Antes de sair, me pego olhando para o meu reflexo e, automaticamente, levo a mão à minha barriga ainda pequena.Com os olhos marejados, vejo pelo espelho Summer se aproximar.Ela apoia a mão sobre a minha, tão emocionada quanto eu.Os primeiros dias de exposição passam
— Boa tarde, senhorita Clara. Sou o Dr. Caleb e estou cuidando do seu caso — ele diz, de forma muito profissional. — Sua amiga me passou algumas informações sobre o seu histórico recente e eu gostaria de confirmar alguns pontos — ele continua, alternando o olhar apreensivo entre mim e Sum.Pelo canto do olho, noto as mãos de Summer começarem a tremer.— Certo, doutor, pode falar… — Minha voz sai tão fraca que mal a reconheço. Estou tão nervosa que sinto que vou vomitar.Agarro-me com força às bordas de metal da maca, tentando fazer a sala parecer um pouco mais estável sob os meus pés.— Você está com vinte e cinco anos, certo? — o Dr. Caleb pergunta, já com a caneta posicionada sobre a prancheta.— Sim…— É solteira, correto, senhorita Smith? — Essa pergunta vem com um pouco mais de ênfase, e ele me encara por cima dos óculos.— Sim… — respondo, engolindo em seco, sem entender onde ele quer chegar com aquilo.— Tem sentido essas ânsias e dores abdominais há quanto tempo?— Mais ou men
Victor não desiste fácil.Pouco depois de quase ser expulso da minha sala, ele entra novamente, desta vez com uma postura um pouco mais profissional, embora o brilho divertido ainda continue em seus olhos.— Tudo bem, chefe, prometo focar no trabalho agora — ele diz, apoiando as mãos na minha mesa de forma descontraída. — Mas, falando sério, tenho um convite maravilhoso para você — ele completa, com um meio sorriso — O dono de uma pequena galeria de arte no centro é um grande amigo meu e me ligou hoje cedo. Ele está organizando uma exposição para lançar uma artista nova.Encaro-o, sem entender onde ele quer chegar.— E o que eu tenho a ver com isso, Victor? Sabe que não tenho paciência ou tempo para ficar olhando para telas e fingindo que entendo de pinceladas.— Você precisa comprar algumas obras para decorar o novo saguão do hotel da De Luca Company, lembra? — ele argumenta, com um sorriso convencido. — É a oportunidade perfeita. Apoiar uma artista independente é excelente para o ma
As semanas seguintes passaram voando.Quando finalmente me dou conta, já faz um mês — quatro semanas exatas — desde aquela fatídica noite.Eu não me sentia tão inspirada há muito tempo.Meu ateliê agora está caótico, porém vivo, cercado de novos quadros e telas secando por todos os cantos.Em uma tarde silenciosa, posiciono-me diante de um cavalete com o pincel firme em mãos, pronta para começar uma nova pintura.No entanto, no instante em que aproximo o pincel do rosto, o cheiro forte do solvente me atinge e sinto uma náusea avassaladora subir pela garganta.O pânico é imediato.Largo o pincel de qualquer jeito e corro para o banheiro, quase sem conseguir alcançar o vaso sanitário a tempo de colocar tudo para fora.Depois de me recuperar, escovo os dentes e encaro meu próprio reflexo pálido no espelho.Faço uma nota mental para desacelerar o ritmo.— É só estresse — sussurro para mim mesma, tentando me convencer. — Excesso de trabalho e muitas horas seguidas respirando esse cheiro de
Acordo sobressaltada com um leve movimento na cama, bem ao meu lado.Abro os olhos por um segundo, mas os fecho imediatamente ao perceber onde estou.O teto alto, os lençóis de algodão egípcio absurdamente macios e o cheiro amadeirado que agora conheço tão bem dominam o ambiente.Continuo de olhos bem fechados, fingindo um sono profundo, controlando a minha respiração para parecer o mais natural possível.Só me permito mover um músculo quando ouço o som abafado do chuveiro sendo ligado no banheiro da suíte.No segundo seguinte, a adrenalina dispara e sou inundada por uma onda de vergonha absoluta.Agora, sem o efeito anestésico do álcool ou o calor do desejo que me possuiu na noite anterior, a realidade cai sobre a minha cabeça como um balde de água fria.Eu dormi com o CEO da empresa onde minha melhor amiga trabalha.Eu fugi com um homem que mal conheço.Só de imaginar a possibilidade de encará-lo à luz do dia, de ter que manter uma conversa formal depois de tudo o que fizemos naquel







