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As Cinzas da Nossa História
As Cinzas da Nossa História
Author: Aurélia

Capítulo 1

Author: Aurélia
Quando devolvi o acordo de divórcio já assinado, Nicole estava sendo levada para fora da sala de parto.

Gabriel me empurrou com urgência para passar e foi ao encontro dela.

Meu abdômen, que ainda não havia se recuperado, foi atingido em cheio com o impacto. A dor me fez empalidecer instantaneamente.

Mas ninguém se importou comigo. Todos estavam ao redor de Nicole, perguntando se ela estava bem e enchendo-a de atenção.

Apoiando-me na parede, caminhei lentamente de volta ao meu consultório.

Ao ver o relatório do aborto espontâneo sobre a mesa, meus olhos ficaram embaçados pelas lágrimas. Três dias antes do nascimento do sétimo filho bastardo de Gabriel, eu havia sofrido mais uma ameaça de aborto. Aquele também foi o terceiro filho que perdi.

Enquanto eu agonizava na mesa de cirurgia, sem conseguir encontrar um familiar para assinar o termo de consentimento por estado crítico, Gabriel acompanhava sua amante, prestes a dar à luz, ao grande teatro onde havíamos declarado nosso amor, assistindo a uma ópera.

E, no terceiro dia do meu resguardo, às três da madrugada, ele me tirou da cama do hospital. Só para que eu realizasse o parto de sua nova amante.

Com os olhos vermelhos, ele me arrastou até a porta da sala de parto, quase engasgando com a própria emoção.

— Marina, a Nicole ainda é muito jovem, não entende nada. Eu só confio em você.

Naquele momento, permaneci em silêncio e vesti o avental cirúrgico. Não briguei. Não fiz escândalo. Não praguejei nem o questionei como nas outras vezes. Também não chorei até perder as forças, nem preferi abandonar o jaleco branco e carregar a fama de médica sem ética a entrar naquela sala de cirurgia.

Em vez disso, eu mesma empurrei a amante do meu marido para a sala de parto, calma como se estivesse diante de uma paciente desconhecida.

Depois de dez anos ao lado de Gabriel, como eu poderia não perceber que, desta vez, ele havia se apaixonado de verdade?

Estendi a mão e acariciei suavemente a fotografia minha com Gabriel sobre a mesa. Seu rosto estava coberto de ferimentos. Um braço engessado, o outro envolvido em meus ombros. Ele sorria de forma despreocupada e radiante.

Com os dedos trêmulos, retirei a foto da moldura.

No verso, em letras grandes e vigorosas, estava escrito: "Gabriel protegerá Marina para sempre."

Naquele dia, eu tinha acabado de completar dezoito anos.

Meu pai, um viciado em jogo, havia me vendido para a zona de prostituição.

Para me salvar, Gabriel foi espancado até ficar coberto de ferimentos. Quebrou uma das mãos e nunca mais pôde praticar seu esporte favorito, basquete.

Mesmo assim, no hospital, ele me puxou para tirar uma foto juntos e comemorar meu aniversário.

Na época, ele me disse:

— Não tenha medo. De agora em diante, eu vou proteger você.

Passei os dedos pelo rosto dele na fotografia e murmurei:

— Gabriel, você me salvou uma vez. Eu paguei essa dívida fazendo o parto dos seus três filhos. Estamos quites.

Rasguei a fotografia em pedaços e a joguei na lixeira.

Alguém bateu à porta.

Gabriel entrou no consultório e percebeu imediatamente a moldura vazia.

— Onde está a nossa foto? — Ele não esperou pela minha resposta. Animado, me entregou o celular. — Marina, que nome você acha que devemos dar a esse bebê?

Quando vi o nome exibido na tela, senti como se uma mão apertasse meu coração com força, roubando-me o ar.

Aquele era um dos nomes que ele havia escolhido para o nosso primeiro filho depois de passar várias noites consultando dicionários.

Agora, aquele mesmo nome estava escrito na placa de homenagem da igreja, ao lado de uma vela acesa em sua memória.

Então, ele havia esquecido até mesmo o nome do nosso primeiro filho.

Observei seu rosto atentamente, vendo o sorriso em seus lábios, seu olhar gentil e o afeto de um pai contemplando o próprio filho. Seu semblante transbordava a alegria de ser pai mais uma vez.

Foi então que finalmente tive certeza. Ele realmente havia esquecido que nós já tivemos um filho.

Nosso bebê viveu neste mundo por trinta e sete dias, mas, devido a uma doença genética, nasceu frágil e não conseguiu sobreviver àquele inverno.

— Marina? — Percebendo meu silêncio, ele chamou meu nome. O sorriso em seu rosto enfraqueceu um pouco. Havia até um traço de desagrado. — Eu achei que você já tivesse aceitado isso. Já expliquei a situação inúmeras vezes. Minha identidade não me permite ficar sem herdeiros. Se você me ama, deveria me compreender...

Antes que terminasse de falar, eu o interrompi calmamente:

— Escolha este.

Ao ver o ponto para o qual meu dedo apontava, Gabriel ficou surpreso. Estava prestes a dizer alguma coisa quando um barulho repentino veio de trás dele.

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