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Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele

Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele

Por:  Bolo de ArrozCompletado
Idioma: Portuguese
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Eu tenho um segredo. Toda vez que toco em alguém, consigo ver a imagem exata do rosto da pessoa que ela mais ama no mundo. Desde que Heitor Duarte se mudou para a casa ao lado, quando eu tinha apenas sete anos, o coração dele sempre pertenceu a mim. Aos dezoito, quando ele segurou a minha mão pela primeira vez, o rosto que apareceu foi o meu. Aos vinte e dois, quando me pediu em casamento, lá estava eu. E na nossa noite de núpcias, ao sentir seus lábios, a imagem continuava sendo a minha. Até que, na manhã do nosso terceiro aniversário de casamento, enquanto eu ajeitava o colarinho da sua camisa, a ponta dos meus dedos roçou de leve no seu pomo de adão. Fechei os olhos, levada pelo puro costume. Foi então que vi dois rostos. Um era o meu, mas o outro pertencia a uma mulher que eu nunca tinha visto na vida. Naquela mesma noite, a tela do celular do Heitor se iluminou com uma notificação. [Heitor, muito obrigada por ter ficado comigo hoje.] Vinte e um anos, cem mil toques. O primeiro erro.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Para celebrar o nosso aniversário de casamento, fiz questão de reservar uma mesa naquele restaurante com um mês de antecedência. Vesti o vestido vermelho que ele tanto elogiava e coloquei os brincos de pérola que ele mesmo havia me dado.

Eram seis da tarde, eu tinha acabado de me arrumar e estava de frente para o espelho, terminando de colocar os brincos, quando o meu celular tocou.

— Surgiu uma viagem de última hora, não vou conseguir voltar para casa hoje. — A voz dele soou com pressa, e a ligação caiu antes mesmo que eu pudesse falar qualquer coisa.

Aquela foi a primeira vez que ele encerrou uma chamada na minha cara.

Fiquei ali, parada, encarando meu próprio reflexo no espelho, com um dos brincos já colocado e o outro ainda solto junto ao pescoço.

Pouco tempo depois, a Melissa Soares me ligou e insistiu que eu não passasse a noite sozinha. Ela apareceu de carro no meu prédio e me arrastou para jantar em um bistrô sofisticado no centro. No entanto, assim que estacionamos na frente do lugar e eu levei a mão à maçaneta da porta, o meu corpo congelou.

Lá estava o Heitor, sentado a uma mesa perto da janela.

Do outro lado da mesa, havia uma garota que aparentava ter uns vinte e cinco ou vinte e seis anos, ostentando covinhas charmosas ao sorrir. Vi quando o Heitor esticou o braço e usou o polegar para limpar uma sujeirinha de chantilly do canto da boca dela.

Era o mesmo gesto carinhoso que ele costumava fazer comigo desde os meus dezoito anos.

A Melissa também viu a cena e abriu a boca, já fazendo menção de sair do carro para armar um barraco, mas eu agarrei a mão dela com força.

— Não faz isso, deixa para lá. — Pedi, com a voz embargada.

— Quem é essa mulher? — Ela esbravejou, revoltada.

— Eu não faço a menor ideia. — Respondi, sentindo um nó na garganta.

Ele só voltou para casa às onze da noite, trazendo um enorme buquê de rosas vermelhas, como fazia em todos os nossos aniversários. Depois de tomar banho, ele me abraçou por trás, apoiando o queixo no topo da minha cabeça.

— Karina, me desculpa mesmo pelo dia de hoje. Prometo que vou compensar você em breve. — Ele sussurrou.

Eu fechei os olhos. Na mesma hora, dois rostos começaram a piscar na minha mente, alternando entre o meu e o daquela mulher. Metade do espaço para cada uma.

Depois de vinte e um anos, essa foi a primeira vez que vi outra pessoa habitando o coração dele.

Esperei que ele adormecesse e, movida pela angústia, peguei o celular dele. A senha continuava sendo a data do meu aniversário. Ele nem sequer havia se dado ao trabalho de mudar. A conversa com uma tal de Teresa Santos estava fixada no topo do aplicativo.

O histórico mostrava que tudo começou há uns seis meses. O que antes eram apenas mensagens curtas sobre demandas do escritório foi, aos poucos, se transformando em conversas longas sobre o dia a dia. Os secos "recebido" deram lugar a carinhosos "boa noite".

Em uma das mensagens, ela dizia: [Hoje o meu dia foi péssimo, me deu uma vontade louca de comer um doce.]

E ele respondeu sem demora: [Vou passar na confeitaria aqui embaixo e levar um mil-folhas para você.]

Mais abaixo, ela reclamava: [Fui sozinha naquele restaurante que você recomendou e detestei a comida. Da próxima vez, você vai ter que ir comigo.]

A mensagem mais recente era de fato a daquela noite: [Heitor, muito obrigada por ter ficado comigo hoje.]

Devolvi o aparelho para o lugar e voltei a me deitar na cama, sentindo o peso do mundo nas costas. Ele se mexeu durante o sono, puxando-me para os braços dele por puro instinto, e resmungou algo indecifrável, ainda meio dormindo.

— Com quem você estava hoje mais cedo? — Perguntei num sussurro, quase sem esperanças.

Ele murmurou um "hum", apertando o abraço.

— Fui atender um cliente... — Respondeu com a voz arrastada de sono.

Não fiz mais perguntas.

Na manhã seguinte, antes de sair para trabalhar, ele depositou um beijo suave na minha testa.

— Meu amor, ontem foi impossível sair do trabalho, mas prometo que no fim de semana a gente vai dar uma escapada para um resort na serra, está bem? — Ele disse com um sorriso.

Era o mesmo sorriso de sempre, idêntico ao de todos esses anos. Fiquei o encarando em silêncio por alguns instantes antes de concordar com um aceno. Assim que a porta se fechou atrás dele, peguei aquele vestido vermelho, dobrei com todo o cuidado e o guardei no fundo da gaveta mais baixa do armário.

Na hora do almoço, a Melissa me ligou para saber como eu estava lidando com tudo. Houve um longo e pesado silêncio na linha antes que ela decidisse falar.

— Karina, você viveu só para esse homem desde que tinha sete anos de idade...

— É, eu sei bem disso. — Respondi, com a voz cansada.

— E o que você vai fazer agora?

Olhei pela janela. O céu estava de um azul impressionante, sem uma única nuvem para fazer sombra.

— Sinceramente, eu não sei.

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