INICIAR SESIÓNEu tenho um segredo. Toda vez que toco em alguém, consigo ver a imagem exata do rosto da pessoa que ela mais ama no mundo. Desde que Heitor Duarte se mudou para a casa ao lado, quando eu tinha apenas sete anos, o coração dele sempre pertenceu a mim. Aos dezoito, quando ele segurou a minha mão pela primeira vez, o rosto que apareceu foi o meu. Aos vinte e dois, quando me pediu em casamento, lá estava eu. E na nossa noite de núpcias, ao sentir seus lábios, a imagem continuava sendo a minha. Até que, na manhã do nosso terceiro aniversário de casamento, enquanto eu ajeitava o colarinho da sua camisa, a ponta dos meus dedos roçou de leve no seu pomo de adão. Fechei os olhos, levada pelo puro costume. Foi então que vi dois rostos. Um era o meu, mas o outro pertencia a uma mulher que eu nunca tinha visto na vida. Naquela mesma noite, a tela do celular do Heitor se iluminou com uma notificação. [Heitor, muito obrigada por ter ficado comigo hoje.] Vinte e um anos, cem mil toques. O primeiro erro.
Ver másNo fim da tarde do último dia de exposição, eu estava sozinha bem no meio do salão vazio, observando a luz dos refletores incidir sobre o colar batizado de "O Primeiro Encontro". Na pequena placa de acrílico ao lado da joia, deixei gravada uma dedicatória em poucas palavras.[Dedicado ao moço que conheci aos sete anos. Ele morou no meu peito por muito tempo, mas acabou se mudando, e hoje essa casa abriga apenas a mim.]Fiquei ali parada por mais alguns instantes, absorvendo o silêncio, antes de dar as costas e caminhar em direção à saída. O céu lá fora já havia escurecido por completo, revelando as luzes amarelas dos postes recém-acesos na rua. Assim que cheguei ao estacionamento, avistei o carro dele parado perto da cancela. Heitor estava encostado na lataria, vestindo aquele mesmo sobretudo cinza de sempre, com uma postura exausta de quem já aguardava no frio há horas. Respirei fundo e fui até ele.— Karina. — Chamou ele, com a voz um pouco rouca pela brisa noturna.— Oi.— Eu passei
Um ano se passou até que a minha exposição individual de design finalmente abrisse as portas. O evento foi batizado de "Sete Anos", com peças inspiradas na pureza da perspectiva infantil. O curador da galeria descreveu meu trabalho para a imprensa como algo delicado, porém carregado de força.Durante uma entrevista para uma revista de arte, a repórter me perguntou qual era o significado por trás dos recorrentes temas de mãos dadas nas minhas obras de joalheria.— Não existe uma metáfora complexa. É maravilhoso ter alguém para dar as mãos ao longo da vida, mas, se essas mãos não conseguem se segurar, a gente precisa aprender a caminhar sozinho. — Expliquei com um sorriso sereno.Assim que a matéria foi publicada, Melissa veio me contar que Heitor tinha comprado um exemplar da revista e o deixado na mesa de cabeceira dele, bem do lado da cama onde eu costumava dormir. O guarda-roupa dele continuava com uma metade vazia, com as roupas todas espremidas em um canto para não ocupar o espaço
Melissa me contou que um ex-colega de trabalho dela presenciou a cena toda. Heitor chamou Teresa até o escritório dele, deixou a porta escancarada e, na frente de todos os funcionários da empresa, deu a notícia.— Teresa, você está demitida a partir de hoje. Quero que resolva toda a papelada da sua rescisão ainda esta tarde. — Disse ele com firmeza.A garota ficou paralisada. Seus olhos ficaram marejados em questão de segundos e ela gaguejou um "por quê", tentando entender o que estava acontecendo.— Você sabe muito bem o motivo. — Foi a única resposta dele.Teresa começou a chorar desesperadamente, e os soluços foram ficando tão altos que o andar inteiro conseguia ouvir. Aos prantos, ela começou a questionar tudo. Perguntou o que tinha significado aquela viagem à praia, os passeios românticos sob as árvores e os jantares naquele restaurante caro. Ela até jogou na cara dele que ele tinha prometido apresentá-la à família.Heitor a interrompeu sem nenhuma piedade:— Nunca mais apareça na
Ele finalmente assinou os papéis do divórcio. No entanto, fez questão de incluir uma condição extra. Realizou uma transferência de cinco milhões de reais para a minha conta bancária, alegando ser uma compensação financeira por todos os nossos vinte e um anos juntos. Recusei a oferta e devolvi cada centavo. Como se não bastasse, ele apareceu com outra exigência. Pediu um prazo de três meses antes de oficializarmos a papelada no cartório, implorando por uma chance de me reconquistar. Quando a Melissa me repassou essa história, o tom de voz dela era um misto de confusão e surpresa.— Ele me disse que te deve uma conquista de verdade, à moda antiga. — Contou ela, intrigada. — Afirmou que a vida inteira foi você quem correu atrás dele, dos sete aos vinte e oito anos de idade, e que agora chegou a vez de inverter os papéis. — Ele que faça o que bem entender da vida dele. — Respondi, dando de ombros com indiferença.No dia seguinte, os agrados começaram. Um buquê gigantesco de rosas vermelh






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