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Capítulo 4

Penulis: Bolo de Arroz
Pedi que ele arrumasse um espaço na agenda para me acompanhar ao hospital para fazer alguns exames. Ele concordou sem pestanejar. O problema veio na manhã seguinte, pouco depois das sete, em forma de mensagem no celular.

[Pintou uma viagem de negócios de última hora. Volto depois de amanhã. Se não estiver se sentindo bem, pede para o motorista te levar. Te amo, Heitor.]

Liguei de imediato, mas a chamada caiu direto na caixa postal. Decidi ligar para a recepção da empresa. A moça que atendeu garantiu que a agenda do Heitor não tinha nenhuma viagem marcada para aquela semana. Engoli o choro e pedi um táxi para o hospital.

O corredor da ala da maternidade parecia um desfile de casais apaixonados. De um lado, um marido se abaixava para amarrar os cadarços da esposa grávida. Do outro, um homem apoiava a mulher pelo braço, caminhando a passos lentos e cuidadosos. No meio daquela cena, eu era apenas uma sombra solitária.

No consultório, a médica avaliou os exames com uma expressão grave. O nível de progesterona estava despencando e o risco de perder o bebê era enorme. Ela ergueu os olhos dos papéis e perguntou se eu estava acompanhada. Respondi que assinaria o termo de consentimento sozinha. A médica me avaliou de cima a baixo.

— E onde está o seu marido numa hora dessas? — Questionou ela.

— Ele teve que viajar a trabalho. — Menti, com um gosto amargo na boca.

Ela guardou os papéis e não tocou mais no assunto.

Enquanto recebia o soro com a medicação na veia para tentar segurar a gravidez, peguei o celular e entrei no Instagram. Logo de cara, dei de encontro com um carrossel de fotos da Teresa. Eram imagens lindas de um pôr do sol na praia. A legenda foi como um soco no estômago.

[Alguém comentou que ver o mar ajuda a aliviar o estresse, então fui arrastada para cá hoje. Muito bom ser mimada pelo chefe.]

Rolei até a última imagem. No canto inferior direito da tela, havia uma mão masculina apoiada na mesa. No dedo anelar, brilhava uma aliança idêntica à que pesava na minha mão esquerda.

As dores fortes no pé da barriga começaram por volta das dez da noite. Chamei outro carro de aplicativo e corri para a emergência. As contrações me dobravam ao meio. Enquanto a enfermeira me colocava na maca a caminho do centro cirúrgico, fiz a pergunta que me assombrava.

— Eu perdi, não foi?

A enfermeira segurou a minha mão com pena.

— Infelizmente sim, querida. Vamos precisar fazer uma curetagem de emergência. Tem algum parente com você?

— Eu assino a papelada. — Sussurrei, deixando as lágrimas caírem.

O relógio marcava três da manhã quando a cirurgia acabou. Fiquei sentada no sofá gelado da sala de recuperação, discando o número dele dezenas de vezes. O aparelho continuava desligado. Sem forças para mais nada, enviei uma única mensagem.

[Heitor, aconteceu uma coisa grave. Volta para casa, por favor.]

O retorno dele só veio na tarde do dia seguinte. Ao atender, captei o barulho inconfundível de ondas quebrando ao fundo, misturado com o som de um motor de carro.

— Acabei de descer do avião. Qual é o problema? — A voz dele soou tranquila, alheia à minha desgraça.

Apertei a barriga ainda dolorida e forcei a voz a sair fria e vazia.

— Nada. Já resolvi tudo.

— Que bom. Chego em casa à noite. Vou levar uns frutos do mar para a gente jantar. — Disse ele, animado.

A noite caiu e a fechadura da porta da frente estalou. Eu estava no mesmo sofá do dia anterior, com as luzes apagadas. Ele acendeu o interruptor, resmungando sobre a escuridão, e largou uma sacola de mercado em cima da mesa de jantar.

— Comprei uns caranguejos frescos. Faço no vapor para o seu almoço de amanhã. — Comentou ele.

Fiquei calada.

Ele notou o clima pesado, caminhou até o meu lado e sentou no sofá. Reparando na palidez do meu rosto, esticou a mão para checar se eu tinha febre. Inclinei o corpo para o lado, fugindo do toque dele.

— Preciso conversar com você. Eu estava... — Respirei fundo, juntando as palavras. — Eu estava grávi...

O toque estridente do celular o interrompeu. Era o som personalizado que ele havia colocado apenas para as ligações da Teresa.

A atenção dele foi puxada como um ímã para a tela luminosa. Aquela mudança brusca de fisionomia, a preocupação disfarçada de pressa, era um filme repetido na minha cabeça. Ele ergueu um dedo, pedindo que eu calasse a boca, e atendeu a ligação no mesmo segundo.

— O que houve? — Perguntou ele, tenso.

A voz do outro lado soava manhosa e baixa. No entanto, com o silêncio fúnebre da sala, escutei cada sílaba.

— Heitor, acho que estou com febre. Meu corpo inteiro dói, não tenho força para nada... Você poderia...

— Já colocou o termômetro? Quanto deu? — Ele a interrompeu, a ansiedade vazando nos poros.

— Trinta e oito e meio.

Ele levantou num sobressalto, já caminhando em direção à porta de entrada enquanto dava as ordens.

— Fica tranquila, deita que eu já estou indo para aí.

No meio do caminho, ele pareceu lembrar da minha existência e virou o pescoço na minha direção.

— Karina, a Teresa está queimando em febre e mora sozinha, não tem quem ajude. Vou dar um pulo lá para ver como ela está e já volto. — Justificou ele, pegando as chaves. — Depois a gente termina essa conversa.

As palavras que formavam a notícia da morte do nosso filho morreram na minha garganta. Fiquei escutando o som apressado dos passos dele ecoando pelo corredor até se perderem no fechamento do elevador. O silêncio voltou a engolir a casa. Olhei para a mesa de jantar, onde os caranguejos mortos repousavam na sacola plástica molhada. Naquele instante, o último fio de amor e esperança que eu ainda nutria por ele quebrou de forma irreparável.

...

Na manhã seguinte, o sol já estava alto quando Heitor voltou para casa, andando a passos largos. Um pressentimento ruim martelava sua cabeça, uma angústia que ele não sabia explicar.

Ele abriu a porta com força. O apartamento estava vazio e silencioso. Seu olhar varreu a sala e cravou no papel dobrado em cima da mesa de centro.

Ao ler o laudo da curetagem de emergência, as pernas dele travaram, paralisando-o no meio do caminho.

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