Share

Capítulo 3

Penulis: Bolo de Arroz
O relógio já marcava onze da noite, e Heitor continuava trancado no escritório, mergulhado no trabalho. Preparei um copo de leite quente e caminhei pelo corredor escuro. A porta estava entreaberta, deixando escapar o som da sua voz ao telefone. Era um tom tão suave, carregado de um carinho que eu não ouvia direcionado a mim há muito tempo.

— Pode dormir, a gente se fala amanhã. Também estou com saudade. — A voz dele ecoou pelo corredor.

Ao desligar e levantar a cabeça, ele me viu parada na soleira e congelou por uma fração de segundo.

— Por que você ainda está acordada a essa hora? — Perguntou ele, disfarçando a surpresa.

— Você sempre fala com esse tom doce com as suas funcionárias? — Questionei, sentindo um aperto no peito.

— Foi só uma conversa normal de trabalho, não começa a criar coisas na sua cabeça. — Ele rebateu, desviando o olhar.

Preferi o silêncio. Dei as costas e caminhei de volta para o quarto. Logo em seguida, o som da porta do escritório batendo e a tranca girando cortou o silêncio da casa. Aquilo era novidade, pois ele nunca, em todos os nossos anos juntos, havia fechado aquela porta.

Fiquei na cama esperando por ele. Vinte minutos se passaram até que ele finalmente entrasse no quarto e notasse meus olhos abertos.

— Heitor, preciso te contar uma coisa. — Comecei, sentando na beirada da cama. — Eu tenho um dom desde criança. Toda vez que toco na pele de alguém, consigo ver o rosto da pessoa que ela mais ama no mundo.

O movimento dele ao tirar o paletó parou no ar.

— Quando eu tinha sete anos e encostei em você pela primeira vez, o rosto que apareceu foi o meu. — Continuei, engolindo o choro. — Aos dezoito, quando você segurou a minha mão, era eu. No dia em que você me pediu em casamento, ainda era eu. Mas na manhã do nosso terceiro aniversário de casados, quando toquei no seu pescoço, surgiram dois rostos. O meu e o da Teresa.

O quarto mergulhou em um silêncio denso. Depois de um tempo, ele soltou uma risada seca e balançou a cabeça.

— Sua imaginação está indo longe demais. Ficar o dia todo trancada em casa está te fazendo mal, não acha? — Disse ele, voltando a guardar as roupas no armário.

— Não é uma piada. Cada palavra que saiu da minha boca é a mais pura verdade. — Afirmei.

O sorriso dele desapareceu num instante, dando lugar a uma expressão de impaciência.

— Karina, você deve estar exausta. Quer que eu marque uma consulta com um psiquiatra para você?

Levantei num pulo e agarrei o pulso dele.

— Deixa eu encostar em você, agora. Fecha os olhos e pensa na pessoa que você ama, que eu te provo quem está aí dentro.

Ele puxou o braço com força. O movimento não foi escandaloso, mas sim firme, como se meu toque o queimasse.

— Chega, Karina! Já chega! — A voz dele subiu um tom. — Se você tem algum problema com a Teresa, fala comigo. Ela tem namorado. Para de inventar loucuras, isso pega muito mal para ela.

Sem me dar tempo de responder, ele pegou o casaco de volta e saiu do quarto, batendo a porta. Fiquei ali, plantada no meio do caminho, com as mãos ainda no ar, segurando o vazio.

Eram quase duas da manhã quando ele voltou para a cama. O cheiro forte de cigarro impregnou o ar antes mesmo que ele se deitasse.

Fechei os olhos depressa, fingindo que estava dormindo profundamente. Ele se acomodou com muito cuidado e, pouco depois, passou o braço ao meu redor, puxando-me para o seu peito.

No escuro, mantive os olhos fechados e deixei o meu dom agir. O que vi destroçou o resto da minha esperança. Havia apenas um rosto nítido, o da Teresa. O meu havia sumido, apagado sem deixar rastros.

Com o peso do braço dele na minha cintura e a respiração quente batendo no meu pescoço, uma dor sufocante tomou conta de mim. Conhecia aquele homem há vinte e um anos e, pela primeira vez na vida, não encontrei nenhum vestígio meu dentro do coração dele. Deslizei bem devagar para fora daquele abraço. Ele resmungou um sonolento "fica quieta". Esperei a respiração dele ficar ritmada e virei de costas.

A luz da lua entrava pela fresta da cortina e iluminava a minha penteadeira. Era um móvel cheio das minhas coisas, detalhes do meu dia a dia que ele nunca sequer parou para olhar. O amanhecer já coloria o céu quando me levantei em silêncio. Juntei algumas roupas em uma mala pequena e me mudei para o quarto de hóspedes.

Durante o café da manhã, ele notou os meus chinelos parados em frente à porta do quarto de hóspedes.

— Por que você foi dormir lá? — Perguntou ele, dando um gole no café.

— Tive insônia de madrugada. Fiquei com medo de ficar rolando na cama e te acordar. — Respondi, sem encarar seu rosto.

Ele soltou um "hum" desinteressado e voltou a focar os olhos na tela do celular. Nenhuma pergunta a mais. Nenhum sinal de preocupação.

No terceiro dia morando naquele quarto improvisado, o teste de farmácia mostrou duas listras cor-de-rosa. Fui ao laboratório fazer o exame de sangue logo em seguida, e o resultado confirmou uma gravidez de seis semanas.

Ao chegar em casa, peguei a imagem do ultrassom e guardei entre as páginas do meu diário. No espaço em branco da folha, escrevi uma única frase.

[Você chegou ao mundo bem na hora em que o coração do seu pai deixou de ser da sua mãe.]

Decidi ir até a empresa para dar a notícia. Assim que o carro de aplicativo parou na frente do prédio comercial, vi a cena que me tirou o ar.

Heitor estava abrindo a porta do carro para a Teresa. Ela entrou sorrindo no banco do passageiro, ocupando o assento que sempre foi o meu lugar. Antes de fechar a porta, ele espalmou a mão no teto do veículo para proteger a cabeça dela. Era um gesto de cuidado tão nosso, algo que ele costumava fazer só para mim.

— Moço, pode tocar de volta para o endereço de onde saímos, por favor. — Pedi ao motorista.

Senti a ponta do envelope com o laudo médico espetar a lateral da minha mão dentro da bolsa, mas não fiz nenhum esforço para descer.

Esperei por ele sentada no sofá da sala, no escuro. A porta se abriu no início da noite.

— Fui até o seu trabalho hoje cedo. — Anunciei do nada.

Ele continuou desamarrando os sapatos no hall de entrada, sem se abalar.

— E por que não subiu? — Indagou ele.

— Para quê? O que eu ia falar lá em cima? — Rebati.

Ele me olhou de relance, já com o rosto contorcido de irritação.

— Qual é o problema agora?

— Eu vi você abrindo a porta do carro para ela. Vi você protegendo a cabeça dela. Esse tipo de carinho era uma coisa exclusiva nossa.

Um suspiro longo e pesado escapou dos lábios dele.

— Karina, a Teresa é a minha assistente. Abrir a porta para ela é o mínimo de educação. Você não costumava ter esse tipo de atitude. Sempre foi uma mulher compreensiva, madura, que não criava caso por bobagem.

— Compreensiva? Então quer dizer que todos os cuidados que você tinha comigo podem ser distribuídos por aí para qualquer pessoa, e eu tenho que achar normal? Se eu achar ruim, sou imatura. É isso que você está dizendo?

Ele massageou o espaço entre as sobrancelhas, parecendo farto de tudo aquilo.

— O meu dia foi exaustivo. Não vou entrar em discussão com você hoje.

E com isso, ele virou as costas, entrou no escritório e trancou a porta. Houve um tempo em que eu engolia em seco e fingia não ver as pequenas falhas dele. Contudo, aquele esforço de manter as aparências tinha esgotado toda a minha energia.

Lanjutkan membaca buku ini secara gratis
Pindai kode untuk mengunduh Aplikasi

Bab terbaru

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 11

    No fim da tarde do último dia de exposição, eu estava sozinha bem no meio do salão vazio, observando a luz dos refletores incidir sobre o colar batizado de "O Primeiro Encontro". Na pequena placa de acrílico ao lado da joia, deixei gravada uma dedicatória em poucas palavras.[Dedicado ao moço que conheci aos sete anos. Ele morou no meu peito por muito tempo, mas acabou se mudando, e hoje essa casa abriga apenas a mim.]Fiquei ali parada por mais alguns instantes, absorvendo o silêncio, antes de dar as costas e caminhar em direção à saída. O céu lá fora já havia escurecido por completo, revelando as luzes amarelas dos postes recém-acesos na rua. Assim que cheguei ao estacionamento, avistei o carro dele parado perto da cancela. Heitor estava encostado na lataria, vestindo aquele mesmo sobretudo cinza de sempre, com uma postura exausta de quem já aguardava no frio há horas. Respirei fundo e fui até ele.— Karina. — Chamou ele, com a voz um pouco rouca pela brisa noturna.— Oi.— Eu passei

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 10

    Um ano se passou até que a minha exposição individual de design finalmente abrisse as portas. O evento foi batizado de "Sete Anos", com peças inspiradas na pureza da perspectiva infantil. O curador da galeria descreveu meu trabalho para a imprensa como algo delicado, porém carregado de força.Durante uma entrevista para uma revista de arte, a repórter me perguntou qual era o significado por trás dos recorrentes temas de mãos dadas nas minhas obras de joalheria.— Não existe uma metáfora complexa. É maravilhoso ter alguém para dar as mãos ao longo da vida, mas, se essas mãos não conseguem se segurar, a gente precisa aprender a caminhar sozinho. — Expliquei com um sorriso sereno.Assim que a matéria foi publicada, Melissa veio me contar que Heitor tinha comprado um exemplar da revista e o deixado na mesa de cabeceira dele, bem do lado da cama onde eu costumava dormir. O guarda-roupa dele continuava com uma metade vazia, com as roupas todas espremidas em um canto para não ocupar o espaço

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 9

    Melissa me contou que um ex-colega de trabalho dela presenciou a cena toda. Heitor chamou Teresa até o escritório dele, deixou a porta escancarada e, na frente de todos os funcionários da empresa, deu a notícia.— Teresa, você está demitida a partir de hoje. Quero que resolva toda a papelada da sua rescisão ainda esta tarde. — Disse ele com firmeza.A garota ficou paralisada. Seus olhos ficaram marejados em questão de segundos e ela gaguejou um "por quê", tentando entender o que estava acontecendo.— Você sabe muito bem o motivo. — Foi a única resposta dele.Teresa começou a chorar desesperadamente, e os soluços foram ficando tão altos que o andar inteiro conseguia ouvir. Aos prantos, ela começou a questionar tudo. Perguntou o que tinha significado aquela viagem à praia, os passeios românticos sob as árvores e os jantares naquele restaurante caro. Ela até jogou na cara dele que ele tinha prometido apresentá-la à família.Heitor a interrompeu sem nenhuma piedade:— Nunca mais apareça na

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 8

    Ele finalmente assinou os papéis do divórcio. No entanto, fez questão de incluir uma condição extra. Realizou uma transferência de cinco milhões de reais para a minha conta bancária, alegando ser uma compensação financeira por todos os nossos vinte e um anos juntos. Recusei a oferta e devolvi cada centavo. Como se não bastasse, ele apareceu com outra exigência. Pediu um prazo de três meses antes de oficializarmos a papelada no cartório, implorando por uma chance de me reconquistar. Quando a Melissa me repassou essa história, o tom de voz dela era um misto de confusão e surpresa.— Ele me disse que te deve uma conquista de verdade, à moda antiga. — Contou ela, intrigada. — Afirmou que a vida inteira foi você quem correu atrás dele, dos sete aos vinte e oito anos de idade, e que agora chegou a vez de inverter os papéis. — Ele que faça o que bem entender da vida dele. — Respondi, dando de ombros com indiferença.No dia seguinte, os agrados começaram. Um buquê gigantesco de rosas vermelh

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 7

    Os papéis do divórcio finalmente foram entregues no escritório dele. Fiz questão de enviar por carta registrada e guardei o comprovante de rastreio, mas não houve qualquer reação da parte dele. Quando a Melissa me ligou, a voz dela soava carregada de uma ansiedade muito maior que a minha.— Ele ainda não assinou nada? — Perguntou ela, impaciente.— Não. — Respondi de forma serena.— E você não foi cobrar? Não está nem um pouco desesperada com essa enrolação? Fiquei observando pela janela os plátanos do lado de fora, cujas folhas já estavam espalhadas pelo chão. — Melissa, o acordo é muito claro. — Expliquei, soltando um suspiro leve. — Assim que passar o período de reflexão de trinta dias, o divórcio entra em vigor de forma automática. Por mais que ele tente empurrar com a barriga, não tem muito para onde fugir.Do outro lado da linha, um silêncio pesado se instalou antes que a voz dela ressurgisse num tom mais brando. — O Carlos me confidenciou que ele está péssimo. Anda com a bar

  • Até Que Outra Mulher Apareceu No Coração Dele   Capítulo 6

    Aproveitei a viagem de trabalho dele para tirar tudo que era meu daquele lugar. Já havia alugado um apartamento novo com antecedência, encaixotado todas as minhas coisas e contratado uma transportadora de mudanças. Em questão de três horas, esvaziei seis anos de memórias construídas a dois.Levei as minhas roupas do closet, os meus cosméticos da penteadeira, o livro deixado pela metade na mesa de cabeceira, o meu copo de água e os pequenos grampos de cabelo. Guardei a nossa certidão de casamento que ficava na gaveta. Da cozinha, tirei o avental que eu tinha comprado, as minhas tigelas e os meus talheres. Até o vaso de jasmim que eu cultivava na varanda foi comigo.Quando Melissa chegou para dar uma força, ela parou no meio da sala de estar e olhou ao redor.— Você vai deixar tudo isso para trás? — Indagou, observando os móveis restantes.— Vou deixar tudo.— E aquele sofá? Você demorou mais de seis meses escolhendo até encontrar o modelo ideal.Encarei o móvel por alguns segundos antes

Bab Lainnya
Jelajahi dan baca novel bagus secara gratis
Akses gratis ke berbagai novel bagus di aplikasi GoodNovel. Unduh buku yang kamu suka dan baca di mana saja & kapan saja.
Baca buku gratis di Aplikasi
Pindai kode untuk membaca di Aplikasi
DMCA.com Protection Status