FAZER LOGINRaika
Depois daquela noite no Primeiro Bar eu resolvi dar um tempo. Passei o resto do fim de semana na casa da Stefanini, deixando o titio em paz. Vi ele sair sozinho, sem mulher nenhuma pendurada no braço, e me senti vitoriosa. Pequena vitória, mas vitória. Ele tinha fugido de mim, sim, mas também tinha fugido de qualquer outra. Isso significava alguma coisa. Eu sabia que não seria rápido. Eu era menor de idade. Eu era a sobrinha. Eu era o erro que ele não podia cometer. Mas eu também era paciente. E teimosa. E o que eu queria, eu conseguia. Kevin Dumont ia ser meu. Ia provar cada centímetro do meu corpo e depois se arrepender amargamente de ter demorado tanto. Dois meses depois eu estava puta da vida. Ele resistia como uma muralha. Nesses sessenta dias eu o vi pelado três vezes — saindo do banheiro, a toalha baixa demais na cintura, o corpo esculpido ainda molhado, o pau pesado contra a coxa. Ele me viu nua duas vezes: uma quando a toalha escorregou de propósito, outra quando eu “esqueci” de trancar a porta do banheiro. Nas cinco vezes o ar ficou denso, os olhos dele escureceram, a respiração mudou… e depois ele desviou o olhar, trancou a porta e me chamou de menina mimada e temperamental. Cabeça dura. Homem impossível. Hoje eu fazia dezessete. Meus pais alugaram um salão badalado, luzes baixas, pista de dança, open bar para os maiores, refrigerante e bolo para o resto. Eu escolhi um vestido preto curto, costas nuas, decote profundo o bastante para fazer qualquer homem engolir em seco. Cabelo loiro solto, batom vermelho, salto alto. Eu não queria parecer a aniversariante menininha. Eu queria parecer perigo. Os convidados foram chegando. Amigos, primos, colegas de escola. Eu sorria, agradecia, dançava um pouco, mas o olho não saía da porta. Kevin demorava. O relógio andava e o peito apertava. Será que ele não viria? Será que tinha medo de me ver de novo depois daquela noite no bar? Quando a porta se abriu, o coração disparou. Ele entrou com todo o charme de sempre: camisa preta, calça jeans escura, cabelo penteado para trás, barba por fazer. Pedrão ao lado, sorrindo. E do outro lado… uma mulher. Alta, morena, vestido justo, mão entrelaçada na dele. Que porra. Ele estava me esfregando outra mulher na cara. Na minha festa. No meu aniversário. A raiva subiu quente, amarga, quase doendo na garganta. Eu saí em direção a eles bufando, o salto batendo no piso como arma. — Que merda é essa, Kevin? A voz saiu baixa, mas carregada. Ele parou, os olhos cor de mel se abrindo de surpresa. Pedrão se adiantou rápido, me puxou para um abraço apertado e sussurrou no meu ouvido: — Parabéns. Não faça isso aqui. Depois vocês resolvem. Mostra que você é superior. Eu balancei a cabeça, engolindo a raiva só pela metade. Meu pai apareceu atrás de mim, a mão no ombro. — Que bom que chegou, irmão. Pensei que não viesse. Abraçou Kevin, depois Pedrão. O olhar curioso foi direto para a mulher. — E quem é essa bela moça? Kevin limpou a garganta. O olhar dele me encontrou por um segundo antes de responder. — Essa é Elena. Minha namorada. A palavra “namorada” entrou em mim como uma faca. Meu pai apertou a mão dela, minha mãe a abraçou. Elena sorriu educada, estendeu um presente embrulhado para mim. — Parabéns, Raika. Seu tio fala muito de você. Eu peguei o pacote sem tocar nela. Sem abraço. Sem sorriso de verdade. — Obrigada. Fiquem à vontade. Ela ainda completou, a voz doce demais: — Seu tio me disse que você era uma menina. Já vi que ele é daqueles protetores que ainda não percebeu que a sobrinha cresceu e virou um mulherão. Você é muito bonita. Eu olhei para Kevin e soltei um sorriso cínico. — É… às vezes eu acho que ele é cego. Virei as costas antes que a máscara caísse de vez. Fui direto para o jardim, sentei num banquinho escuro e abri o presente com dedos trêmulos de raiva. Um ursinho de pelúcia. Rosa. Fofo. De criança. O ódio subiu tão forte que os olhos arderam. Eu apertei o urso até as unhas entrarem no tecido e depois o arremessei no lixo mais próximo. — Vacalena — murmurei entre dentes. — Combinou com a cara. Sequei as lágrimas com a ponta dos dedos, respirei fundo e voltei para a festa. Eu era a anfitriã. Não ia fazer feio. Fui dançar com meus amigos, forçando o sorriso, forçando a alegria. Mas a cada dois minutos meu olhar escapava para a mesa dele. E toda vez que eu olhava, Kevin estava me olhando de volta. A namorada falava, ria, tocava o braço dele, e ele respondia mecânico, os olhos presos em mim. Eu não sou boba. Comecei a dançar diferente. Mais lento. Mais baixo. As mãos deslizando pelo próprio corpo: cintura, coxas, seios. O vestido subia um pouco a cada movimento. Eu rebolava de propósito, o olhar preso no dele. Vi o desconforto crescer. Ele se remexia na cadeira, apertava o copo, desviava o olhar e voltava a olhar de novo. A mandíbula travava. A namorada notou. Franziu a testa. Ele fingiu que não era nada. Quando ele se levantou e foi em direção aos banheiros, eu não pensei duas vezes. Saí da pista, o coração martelando, o vestido colado ao corpo suado. Segui o corredor estreito que levava aos banheiros masculinos. O salto ecoava. Eu estava a poucos metros da porta quando uma mão forte me agarrou pelo braço e me puxou para dentro de uma sala escura ao lado. A porta bateu. A tranca girou. Antes que eu pudesse gritar, Kevin me prensou contra a parede. O corpo dele inteiro colado no meu. Uma mão no meu pulso, acima da cabeça. A outra na minha cintura, os dedos apertando a pele nua das costas. O cheiro dele — madeira, perfume, um pouco de uísque — me invadiu. A respiração quente bateu no meu rosto. Os olhos cor de mel estavam pretos de raiva e de outra coisa que nenhum dos dois queria nomear. — O que você pensa que está fazendo? — a voz saiu rouca, baixa, perigosa. Eu sorri, o peito subindo e descendo rápido demais contra o peito dele. O volume duro da calça jeans pressionava minha barriga. Eu senti. Ele sentiu que eu senti. Nenhum dos dois recuou. — Dançando no meu aniversário, titio. Ou agora dançar também é proibido para menininhas? A mão na minha cintura apertou mais. Os dedos desceram um centímetro, tocando a curva do quadril. Eu arquejei. O som saiu sem eu querer. Kevin fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se controlando, e depois os abriu de novo, mais escuros ainda. — Para com isso, Raika. Você não sabe o que está brincando. — Eu sei exatamente — sussurrei, inclinando o rosto até nossos narizes se tocarem. — E você também sabe. Por isso trouxe a Vacalena. Por isso me deu um ursinho de pelúcia. Por isso foge toda vez que eu me aproximo. Porque você quer. E odeia querer. Ele soltou um som baixo, quase um gemido engolido. A mão que segurava meu pulso afrouxou só o suficiente para os dedos deslizarem até entrelaçar os meus contra a parede. O polegar dele roçou a parte de dentro do meu pulso, sentindo o batimento acelerado. Eu levantei o queixo. Nossas bocas ficaram a um sopro de distância. O calor entre nós era insuportável. O vestido preto parecia fino demais. A calça dele, apertada demais. Do lado de fora, a música da festa continuava. Risadas. Alguém chamando meu nome ao longe. Nada disso importava. Só o corpo dele me prendendo na parede, o pau duro pressionando minha barriga, a respiração irregular batendo na minha boca e o olhar que finalmente, depois de dois meses, parou de mentir. Kevin inclinou a cabeça. Os lábios quase tocaram os meus. Quase. A porta da sala tremeu com uma batida forte. — Kevin? Está aí? — A voz de Elena ecoou do corredor, doce e desconfiada. Ele recuou como se tivesse levado um choque. A mão soltou a minha. O corpo se afastou. O ar frio invadiu o espaço que ele deixou. Eu fiquei colada na parede, o peito arfando, os lábios formigando de um beijo que não aconteceu, a calcinha encharcada sob o vestido preto. Kevin passou a mão pelo cabelo, a respiração ainda pesada, os olhos escuros me encarando uma última vez com uma mistura de fome, raiva e medo. Depois virou o rosto, destrancou a porta e saiu sem dizer uma palavra, deixando-me sozinha no escuro com o gosto do quase na boca e o coração batendo tão forte que eu sentia o eco no fundo da garganta.Bárbara Eu só queria segurar meu filho nos braços e finalmente sentir que a tempestade tinha acabado, mas as contrações rasgavam meu corpo, o medo de algo dar errado ainda latejava e a memória de tudo o que eu tinha sido ameaçava roubar a pureza daquele momento. As dores vinham em ondas brutais. Eu gritava. Anderson dirigia como um louco, uma mão no volante e a outra apertando a minha com força. Cada contração era uma faca quente atravessando a barriga. Eu não entendia como ninguém tinha me avisado que doía daquele jeito. O carro parou em frente ao hospital. Anderson me pegou no colo. Vi o desespero nos olhos dele enquanto os enfermeiros me colocavam na maca. Ele ficou do lado de fora da sala de parto, as mãos no cabelo, andando de um lado para o outro. Dentro da sala eu gritava, chorava, xingava o mundo. O médico repetia: — Faz força, mamãe. Estamos quase lá. Calma. Calma? Se ele falasse aquilo mais uma vez eu ia pular da mesa. Empurrei com tudo o que restava de mim. Um grito fin
Anderson O que a Liza quer agora? Depois de anos sumida, ela escolhe exatamente o momento em que eu finalmente respirei. No carro, vi o olhar de Bárbara mudar quando o nome apareceu na tela. Ela não perguntou nada, mas o silêncio dela foi pior que qualquer acusação. Eu não podia explicar. Não agora. Não ia estragar o que a gente tinha acabado de construir. Chegamos em casa. Bruna e Léo esperavam na sala com sorrisos. Cumprimentei rápido e fui direto para o escritório. Tranquei a porta, sentei na cadeira e disquei o número com a mão já trêmula. — O que você quer? A voz dela saiu doce e venenosa ao mesmo tempo. — Oi, Anderson. Quanto tempo, não é? Vejo que depois de matar a minha irmã você está bem feliz. Até casou de novo. O estômago revirou. — Some da minha vida. Eu fiquei anos preso nisso. Eu não matei a Sabrina. Passei muito tempo sem ser feliz. Agora encontrei alguém e quero viver. Ela riu baixo, cruel. — Você realmente acredita que o filho que essa Bárbara espera é seu?
Bárbara Eu só queria viver aqueles dias em Angra como uma mulher comum, amada e segura, sem o fantasma do passado soprando no meu ouvido, mas a felicidade ainda era recente demais e qualquer sombra — como o nome de uma mulher desconhecida no celular do meu marido — bastava para fazer o peito apertar de medo. Quando o carro parou em frente à pousada, quase perdi o fôlego. O mar estava colado no horizonte, azul-escuro batendo nas pedras. As árvores inclinadas pelo vento carregavam o cheiro de sal e terra molhada. Anderson observava meu rosto com um sorriso discreto. — Este lugar é um paraíso — murmurei, ainda de boca entreaberta. — Você merece muito mais, querida. Ele me beijou com calma, depois desceu a cabeça e pousou os lábios sobre a barriga de quatro meses. O bebê se mexeu, como se respondesse. Anderson riu baixo contra a minha pele. — Agora vamos para o quarto. Não vamos desperdiçar nem um segundo. O beijo no meu pescoço me arrepiou inteira. Ri e deixei que ele me guiasse.
Bárbara Eu só queria atravessar aquele corredor de cabeça erguida, dizer “aceito” sem a voz falhar e começar uma vida limpa ao lado do homem que me escolheu apesar de tudo, mas o peso do passado, a ausência da minha mãe e o medo de que a felicidade ainda pudesse ser arrancada de mim faziam meu coração bater como se eu estivesse prestes a cair. Olhei para o espelho e quase não me reconheci. Os olhos brilhavam. A maquiagem estava impecável, o cabelo preso em um coque baixo com alguns fios soltos emoldurando o rosto. A barriga já aparecia debaixo da camisola de seda. Seis meses. Um filho. Um futuro que eu nunca tinha ousado sonhar. A porta se abriu. Léo entrou primeiro, o sorriso largo, os olhos marejados. — Amiga, sua maquiagem e seu cabelo estão um arraso. Ele pegou minha mão e me fez girar devagar. Logo atrás veio a Bruna. Ela parou, levou a mão à boca e depois se aproximou, colocando a palma quente sobre minha barriga. — Está ainda mais linda grávida, mana. Mamãe com certeza est
Bárbara Eu só queria sobreviver mais um dia sem desmoronar, cuidar da minha irmã e da sobrinha e nunca mais precisar vender o corpo, mas o homem que eu tinha mandado embora continuava aparecendo, a dor da morte da minha mãe ainda latejava e o desejo que eu não conseguia matar me empurrava de volta para os braços dele. Anderson estendeu a mão. Eu aceitei. Quando fiquei de pé, ele me puxou para um abraço. O corpo dele era sólido, quente, familiar. Eu não aguentei. Enterrei o rosto no peito dele e apertei com força, como se pudesse absorver a proteção que eu não sentia desde o enterro da minha mãe. Fiquei ali segundos a mais do que deveria. As buzinas atrás de nós nos arrancaram daquele momento. Saímos do meio da rua e fomos até a praça. Léo chegou correndo, o rosto preocupado. — Você está bem, Bárbara? Se machucou? — Estou bem. Me leva pra casa, por favor. Anderson segurou meu braço antes que eu andasse. — Eu preciso falar com você. Esse tempo que você sumiu eu quase enlouqueci. P
Bárbara Eu só queria cuidar da minha mãe até o fim e finalmente deixar para trás a vida que me envergonhava, mas a morte dela, o dinheiro que acabou e o vazio que Anderson deixou no peito me empurraram de volta para a mesma escuridão de onde eu tinha tentado escapar. Fechei a porta atrás dele com as mãos tremendo. Anderson saiu de cabeça baixa, sem olhar para trás. Eu me encostei na madeira fria e desmoronei. O choro veio alto, feio, descontrolado. Eu tinha me iludido. Acreditei, nem que fosse por algumas horas, que um homem como ele podia me ver como algo além de um corpo alugado. Que idiota. Enxuguei o rosto com a manga da camisa e respirei fundo até o peito parar de arfar. Não ia ficar ali me lamentando. Eu ainda tinha uma mãe doente esperando por mim. Em menos de uma hora estava pronta. Mala grande, porque pretendia ficar meses. Fechei a porta da casa pela última vez naquela temporada e saí decidida. A viagem foi longa. Cada quilômetro me afastava dele e me aproximava do único l







