LOGINSamuel estava sentado no sofá, enquanto uma enfermeira fazia a coleta de sangue dele.Nesse momento, a porta do quarto se abriu. Roberto entrou do corredor, viu aquela cena e a mão dele deu uma leve parada no ar. Em seguida, ele fechou a porta com um gesto rápido e o rosto dele exibiu uma expressão difícil de disfarçar de empolgação e alívio.Ele caminhou até Samuel, todo animado, virou a cabeça e olhou para Fabiano. Logo depois, ele soltou um suspiro pesado.Cofrinho enfim tinha uma chance de salvação.Ninguém falou nada no quarto. Quando terminou a coleta, a enfermeira pressionou um chumaço de algodão na dobra do cotovelo de Samuel para estancar o sangue.— Eu mesmo seguro. — Disse Samuel, pegando o algodão.A enfermeira saiu do quarto levando o material.— Doeu? Quer que eu assopre? — A cabeça de Roberto se aproximou do braço dele.Samuel simplesmente colocou a outra mão no rosto dele, bloqueando o movimento, e falou com calma:— Não precisa, assopro espalha bactéria.— Você ainda e
Do lado de fora do quarto, alguém bateu na porta.Fabiano ergueu os olhos, e o olhar escuro se estreitou ainda mais.Ele tinha chegado.Rui entendeu o sinal de Fabiano e foi abrir a porta. Samuel apareceu na entrada do quarto, de terno preto, as feições suaves ainda marcadas pelo sereno ralo da manhã, a silhueta magra.Samuel deu alguns passos para dentro antes de enxergar Fabiano recostado na cama.Pelo pijama de hospital, ninguém dizia o quanto Fabiano estava ferido. Tirando alguns arranhões no rosto e a pele muito pálida, ele parecia o mesmo de sempre.Mas o simples fato de Fabiano estar recostado na cama já era suficiente para deixar qualquer um em alerta."O Fabiano não demonstra fraqueza se não for algo de vida ou morte. Ver ele encostado na cama é o lado mais vulnerável que eu já vi desse homem." Pensou Samuel, com as sobrancelhas bem desenhadas se contraindo. "Ele se machucou tanto assim?"Rui caminhou ao lado de Samuel até pararem diante de Fabiano. Ver dois amigos de longa da
Roberto sentiu a respiração travar por um instante:— Cada coisa dessas que você fez daria pena de morte. Você é… E você ainda mandou apagarem a memória dela!Fabiano abaixou os olhos. Nos olhos dele não havia o menor traço de emoção, só vazio:— Eu não tinha outra saída.— Teve, sim. — Rebateu Roberto. — Você não tinha só essa opção de apagar a memória dela. Você que não quis admitir, não quis encarar. Você podia ter deixado ela ir embora…— Impossível.Antes mesmo de Roberto terminar a frase, Fabiano já tinha negado.Roberto, no fundo, sabia que era exatamente assim. Caso contrário, por que Fabiano teria pensado em apagar a memória de Ivone?Para falar a verdade, nem Fabiano era o único. O próprio Roberto já tinha desejado poder apagar alguém da própria cabeça daquele jeito. Quando ele lembrava da cena que tinha acontecido no quarto de hospital de Ivone mais cedo, ele ainda sentia um arrepio de medo.— Antes disso tudo, ela já queria sair de Uíge. — Disse Roberto. — Com o ódio dos se
No meio da madrugada, Roberto estava de plantão ao lado da cama de Fabiano. Aquela família de três tinha deixado ele à beira da loucura.Ele se preocupava com o pai, se preocupava com a mãe, parecia que aquela agonia nunca ia ter fim.Se não fosse porque, no fim da tarde, quando saíram da sala de emergência, Ivone, ainda meio grogue, tinha murmurado que estava com dor, Fabiano não teria soltado a mão dela, e o médico não teria aproveitado a chance para separar os dois. Caso contrário, Roberto ia ter que cuidar de um em cada lado.— Ei, não se mexe! — Disse Roberto.Pelo canto do olho, ele tinha visto Fabiano acordar. Ele se adiantou, colocou logo as duas mãos nos ombros dele e o empurrou de volta na cama.E por que ele precisava usar as duas mãos? Justamente porque Fabiano tinha uma força desgraçada. Mesmo ferido daquele jeito, Roberto não tinha certeza de que conseguiria segurar ele.Os olhos de Fabiano ainda estavam completamente vermelhos, as veias de sangue estouradas no branco dos
A porta do quarto foi arrombada, e as vozes de Davi e Roberto ecoaram em gritos lá dentro.Roberto prendeu o fôlego.Aquela faca de fruta já tinha perfurado o peito de Fabiano. O sangue tinha atravessado o pijama de hospital, e toda a região do peito dele estava tomada de vermelho.Quanta força Ivone podia ter? Aquilo ali era totalmente Fabiano segurando a mão dela e enfiando a lâmina em si mesmo com força.Ele estava completamente louco.Os passos de Raul vacilaram. Ele ficou parado, encarando os dois em cima da cama, atônito:— Senhorita…Até Vera, que vinha logo atrás, ficou tão chocada com a cena que não conseguiu dar mais nenhum passo. Ela, por reflexo, se encolheu atrás da pessoa que parecia mais confiável ali do lado. Só que, assim que ela moveu o pé, a figura à frente dela se mexeu, e Rui já tinha avançado a passos largos.— Espera. — Disse Roberto, segurando. — Você não vai olhar primeiro para ver quem está com a faca? Você acha mesmo que consegue arrancar aquela faca da mão d
Os passos de Fabiano se aproximaram da cama, e ele pegou a meia tigela de mingau de aveia com leite que ainda estava em cima da mesinha.— O seu corpo está bem? — Perguntou Ivone primeiro.A mão de Fabiano, que segurava a tigela, ficou tensa por um instante. Ele fingiu naturalidade, segurou a colher e levou uma colherada de mingau até a boca dela.— Eu estou bem. — Disse Fabiano.— Que bom. — Murmurou Ivone. — Que bom.Ela própria não sabia se tinha respondido para Fabiano ou para si mesma.Ivone não comeu o mingau que Fabiano ofereceu. Ela levantou os olhos para encarar ele. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, e o olhar que ela lançou para ele não tinha nenhum traço de preocupação, só um ódio ainda maior do que antes.Ivone cerrou os dentes de repente. As lágrimas rolaram dos olhos inflamados. A voz abafada e rouca saiu arranhando a garganta:— Eu não estou preocupada com você. Eu só não quero ficar te devendo nada. Nem um pouco.— Você não precisa achar que me deve alguma coi







