LOGINCidade de “FT”, 14 de janeiro, terça-feira.
Naquela noite, visitou o bar Lintox.
Conversou com o dono. Mostrou a foto de “Ameba”.
→ Lembro dele, sim.
Ele havia se afastado da cabine do “caixa”. Conversavam sentados numa mesa, num recinto dos fundos. Estendeu uma cédula, que o homem pegou.
→ Vinha sozinho?
→ Geralmente sim. Só uma vez veio acompanhado de duas mulheres e um homem. Todos usavam roupas brancas, no estilo dos enfermeiros, entende?
→ Pode descrevê-los?
→ A primeira mulher era branca, alta e gostosa. Tinha uns peitões de respeito. A segunda era branca, baixa e magra. As duas não eram bonitas de rosto. Simpáticas, sim. Bonitas, não. O homem era alto e forte. Moreno. Usava bigode. Sentaram e tomaram cerveja, exceto a mulher alta, que tomou Martini.
“Esse tem memória fotográfica. Um analista de rostos. Provavelmente teve problemas com a Lei. Daí a precaução.”
→ Lembra o dia?
→ Uma sexta-feira. Há trinta ou quarenta dias, creio.
→ Só beberam?
→ Sim. Chegaram por volta das dez horas da noite. Não demoraram mais que uma hora no local.
→ Sei. Tem algo mais a me dizer?
→ Não.
→ Ok. Obrigado.
Saiu e seguiu para a rua Galdino Serpp.
Cidade de “FT”, 14 de janeiro, terça-feira.
Parou o Corsa perto do muro, do lado direito.
Havia feito a manobra, deixando a frente do veículo voltada para a saída. Parou na frente da mansão de número 1278.
Sem sair do veículo, ficou de olho na mansão de número 1275, localizada do lado esquerdo da via.
Terceira casa.
Olhou o relógio 22h35min.
Esperou.
Sem saber o que iria encontrar.
Seguindo apenas seu instinto.
Cidade de “FT”, 15 de janeiro, quarta-feira.
A uma hora da madrugada, desistiu.
Nada viu, de estranho.
Ninguém entrou ou saiu da mansão de número 1275.
Nenhum som. Nenhuma luz. Nenhuma balbúrdia.
Enfastiado, respirou fundo e abandonou o local.
Mal chegou em casa, tomou banho e dormiu.
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira. Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito. O médico também nada revelou. Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade. Curiosidade! A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido? Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Só foi saber das novidades
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Subitamente, um objeto foi colocado sobre seu rosto. Macio, mas que, naquele instante, o sufocava. O que seria? Um travesseiro??? Óbvio! Um discreto e eficiente travesseiro! Não recebeu uma facada nem um tiro. E muito menos uma pancada na cabeça. Por quê? Com certeza para parecer que teria morrido de parada cardíaca. Assim procedendo, não causaria suspeitas. Sim! Era um bom plano. O delegado Haroldo → apesar de enlouquecido → ainda não tinha perdido a inteligência.&nbs
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Isso porque, à meia-noite, depois que a enfermeira lhe aplicou uma injeção, recebeu uma inusitada e horripilante visita. A visita do demônio! Um homem entrou na sala. Usava o jaleco branco, típico dos médicos. No pescoço, um estetoscópio. Calça jeans. Sapatos pretos. Cabeça raspada. Bigode discreto. Óculos escuros. Manteve a luz apagada. Apenas a luz do corredor iluminava o quarto. Aproximou-se da cama. → Boa noite, Macto → ele murmurou, sério. Estremeceu, ao reconhecer aquela voz! Tentou gritar, mas nada sai
Cidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado. Não sonhou. Não teve pesadelos. A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente. Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram. Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos. Abriu, enfim, os olhos. Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas. Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrig
Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira. Sozinho! A dificuldade de respirar aumentava. Em delírio → com o cérebro atrofiado → já não sentia mais nada, não via mais nada, não pensava em mais nada. Sentiu o tenebroso manto da morte se acercando... o tétrico manto do verdugo negro... realizando um reconhecimento... analisando as possibilidades... cheirando seu corpo... cutucando sua alma... lambendo seu espírito... num frenesi alucinado!!! E não tinha forças para lutar contra ele! Seria o fim? O fim... o fim... o fim... As dores no estômago aumentaram! Urinou novamente
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira. Acordou nas trevas! Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus. A fazenda às escuras. A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico. Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol. Defecou na fralda. Foi obrigado a se acostumar com o fedor.