MasukCidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado.
Não sonhou.
Não teve pesadelos.
A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente.
Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram.
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo.
Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos.
Abriu, enfim, os olhos.
Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas.
Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrigado a usar óculos escuros, enquanto sua visão não se restabelecia.
Soro. Injeções. Comprimidos.
Uma ligeira dor de cabeça.
Tomou um líquido avermelhado, a título de almoço.
Senta-se tonto e desorientado, porém lúcido.
A essa altura percebeu que havia escapado.
Escapara da crucificação!
Haveria felicidade maior que esta?
Às três horas de uma tarde de sol, alguém entrou no quarto.
Quem seria?
→ Boa tarde, parceiro. Já pode falar?
Não podia vê-lo, mas reconheceu a voz de Marcos, seu parceiro de grandes jornadas.
→ N-Não m-muito... → respondeu, após alguns segundos de intenso esforço. → Nem v-ver... mas... pos... posso... o-ouvir...
Ele se sentou numa cadeira e começou:
→ Ótimo. Fique ligado, que irei te contar uma história. É o seguinte: quando você não apareceu na delegacia e não respondeu as minhas ligações, percebi de imediato que algo de errado lhe havia acontecido. Decidi, então, seguir suas orientações. Na sexta-feira à tarde fui até a rua Galdino Press e fiquei de olho na mansão de número 1275. Não entre na mansão, você tinha dito. Lembra disso? Permaneci, portanto, dentro do carro, na expectativa de que algo acontecesse. Não precisei esperar muito. Para minha surpresa, vi um táxi parar diante da mansão. Sabe quem saiu do táxi? Não tive dificuldades em reconhecer o... delegado Haroldo. Isso mesmo. Perguntei-me, atônito, o que ele estaria fazendo ali. Estaria investigando o caso? Até então eu não desconfiava de nada. O sujeito entrou na mansão. Um troço estranho. Quarenta e cinco minutos depois, ele foi embora, em outro táxi. Esperei. Vinte minutos depois, um Fiat Punto vermelho saiu, com uma mulher ao volante. Fui atrás dela. E sabe para onde ela foi? Para o outro endereço que você havia me fornecido. Ela permaneceu na fazenda por cerca de uma hora. Depois que a mulher saiu, notei que tinha duas alternativas: ou continuava no encalço dela ou entrava na fazenda, para ver o que tinha ali de tão importante. Uma lembrança me induziu a decidir. O fato de que você, ao desaparecer, estava ali, nas proximidades daquela fazenda. A tua ligação para mim foi feita dali. Obviamente que eu precisava checar. Uma vez tendo tomado a decisão, entrei na fazenda. Percebi que o local estava deserto, sem nenhum caseiro ou vigia, o que era estranho. Parecia uma fazenda abandonada. Por que o dono ou a dona não se preocupou com isso, correndo o risco de ser roubado? Um troço realmente esquisito. Bem, mas sem entrar no mérito da coisa, realizei uma busca, até encontrá-lo, nos fundos do terreno, pregado numa cruz. Crucificado!
Pausa.
Ouviu Marcos respirar fundo, como que tentando manter o controle.
Ele continuou:
→ Nem queira saber, parceiro, como fiquei, quando o vi naquele estado. Suas feridas. Quase tive um troço! Meu Deus! Era uma cena grotesca e horripilante. Mas eu precisava fazer alguma coisa! Afinal, cada segundo perdido poderia significar tua morte. Liguei, então, para o inspetor Cardoso, contei a ele o que estava acontecendo a pedi reforços. Seguindo minha intuição de tira, disse-lhe para nada dizer ao delegado Haroldo. Sei lá. A imagem dele saindo da casa da mulher não me saída da mente. Algo me dizia que o delegado devia estar metido nessa sujeira. Ainda bem que não foi difícil convencer o inspetor Cardoso, que é um sujeito extremamente inteligente. Afinal, ele não conhecia muito bem o delegado Haroldo e, como eu, o considerava um homem estranho. Quer dizer, todos da delegacia consideravam o delegado um homem estranho. Liguei também para o Hospital Central, pedindo uma ambulância. Todos aqui chegaram meia hora depois. Ainda bem que tivemos tempo de salvá-lo, graças a Deus. Você é um homem de sorte, parceiro → sorriu.
Pausa.
Aproveitou para se ajeitar melhor na cama, por causa das dores nas costas.
→ Tudo bem, Macto?
Fez o sinal de positivo, sem levantar a mão.
Marcos prosseguiu:
→ Prendemos imediatamente a mulher. No interrogatório, jogamos verde, dizendo a ela que o delegado Haroldo também havia sido preso e que nos tinha revelado ser ela a única responsável pelas mortes. Fomos tão convincentes que ela, que não passava de uma vagabunda covarde, caiu no nosso golpe. Desmoronou emocionalmente, começou a chorar e confessou tudo. Falou tudo, tudo, inclusive sobre o assassinato de uma mulher chamada Mônica. Com base nas informações por ela prestadas, saímos à caça da quadrilha. Prendemos o tal de “Pai Humberto” e os demais. No entanto, não conseguimos achar o delegado Haroldo. Provavelmente a mulher, antes de ser presa, devia ter ligado para ele, avisando. Ou então o desgraçado, ao perceber a movimentação dos nossos colegas, na delegacia, devia ter investigado o que estava acontecendo. O certo é que, infelizmente, o miserável sumiu, escafedeu-se como um rato. Mas não se preocupe que logo, logo o encontraremos. Ele pagará com juros por todos os seus crimes.
Pausa.
Marcos se levantou.
→ Parceiro, contei minha história, vendi meu peixe, agora deixarei você descansar um pouco. O médico me disse que você receberá alta ainda nesta semana. Descanse bastante, pois o mérito da solução desse caso é todo seu. Se não fosse tua inteligência, aqueles escroques continuariam com suas matanças insanas. Parabéns! Até breve!
→ O-O... bri... ga... do...
Tentou sorrir, mas só emitiu uma careta de dor.
Marcos, então, saiu, aparentemente satisfeito.
Após a saída do policial, sentiu-se melhor. Tudo dera certo, no final das contas. A quadrilha que matou o “Ameba” e a Mônica estava presa, ele havia escapado da morte e a prisão do delegado corrupto seria uma questão de tempo.
O crime → como sempre → não compensou. Nem para a quadrilha e muito menos para o “Ameba”.
O bem prevaleceu e a paz foi restabelecida.
Feliz, pensou que teria uma noite maravilhosa, harmoniosa e proveitosa, depois de tantos dissabores, tantas dores, tantas emoções animalescas.
Hórrido engano!
O mal surgiu, para atormentá-lo!
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira. Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito. O médico também nada revelou. Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade. Curiosidade! A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido? Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Só foi saber das novidades
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Subitamente, um objeto foi colocado sobre seu rosto. Macio, mas que, naquele instante, o sufocava. O que seria? Um travesseiro??? Óbvio! Um discreto e eficiente travesseiro! Não recebeu uma facada nem um tiro. E muito menos uma pancada na cabeça. Por quê? Com certeza para parecer que teria morrido de parada cardíaca. Assim procedendo, não causaria suspeitas. Sim! Era um bom plano. O delegado Haroldo → apesar de enlouquecido → ainda não tinha perdido a inteligência.&nbs
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Isso porque, à meia-noite, depois que a enfermeira lhe aplicou uma injeção, recebeu uma inusitada e horripilante visita. A visita do demônio! Um homem entrou na sala. Usava o jaleco branco, típico dos médicos. No pescoço, um estetoscópio. Calça jeans. Sapatos pretos. Cabeça raspada. Bigode discreto. Óculos escuros. Manteve a luz apagada. Apenas a luz do corredor iluminava o quarto. Aproximou-se da cama. → Boa noite, Macto → ele murmurou, sério. Estremeceu, ao reconhecer aquela voz! Tentou gritar, mas nada sai
Cidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado. Não sonhou. Não teve pesadelos. A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente. Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram. Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos. Abriu, enfim, os olhos. Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas. Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrig
Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira. Sozinho! A dificuldade de respirar aumentava. Em delírio → com o cérebro atrofiado → já não sentia mais nada, não via mais nada, não pensava em mais nada. Sentiu o tenebroso manto da morte se acercando... o tétrico manto do verdugo negro... realizando um reconhecimento... analisando as possibilidades... cheirando seu corpo... cutucando sua alma... lambendo seu espírito... num frenesi alucinado!!! E não tinha forças para lutar contra ele! Seria o fim? O fim... o fim... o fim... As dores no estômago aumentaram! Urinou novamente
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira. Acordou nas trevas! Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus. A fazenda às escuras. A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico. Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol. Defecou na fralda. Foi obrigado a se acostumar com o fedor.