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CAPÍTULO 13

last update publish date: 2021-09-06 21:50:10

      Cidade de “FT”, 14 de janeiro, terça-feira.

      Minutos depois, a mulher tornou a abrir a porta.

      → Entre.

      Seguiu a mulher por um estreito corredor.

      Entraram numa espécie de sala de estar, com sofá, estante e tapete. Dali podia ver a cozinha. A porta que dava acesso ao lado sul da casa, no entanto, estava fechada.

      Um homem alto e magro, que usava barba, apesar da calvície acentuada, estava sentado numa poltrona, diante da TV ligada.

      Vestia-se completamente de branco. Devia ter mais de setenta anos. Não se levantou.

      → Sente-se, por favor → a mulher disse, baixinho.

      Sentou-se no sofá.

      A mulher sumiu na cozinha, em silêncio.

      Viu-se sozinho com o ancião.

      Não gostou do olhar dele. Parecia o olhar de um louco. Ou estaria enganado? Aguardou.

      → Meu nome é Sérgio→ ele disse, por fim, com sua voz anasalada e estranha →. Mas sou conhecido como “Pai Humberto”. Como se chama, filho?

      → Macto.

      Ele desligou a televisão, acionando o botão do controle.

      → Assim fica melhor. O que o traz aqui, senhor Macto?

      → Estou investigando o assassinato de um homem. Ele morreu crucificado, na madrugada do último domingo. → Tirou a foto de “Ameba” do bolso e estendeu a mão: → Este homem. Gostaria de saber se ele frequentava sua casa.

      O tal de Sérgio analisou a foto. Depois, a devolveu.

      → Não. Nunca vi esse homem. O senhor disse crucificado?

      Teria captado um brilho esquisito nos olhos dele?

      → Sim.

      → Crucificado. Ou seja, pregado numa cruz, como nos tempos de Cristo. Morte lenta. Dolorosa. Meu Deus! O nosso mundo está sem controle. As pessoas estão enlouquecendo, perdendo a noção de humanidade. Quem teria coragem de fazer algo tão horrível?

      → É o que estou tentando descobrir.

      → Desculpe eu perguntar, senhor Macto, mas o que minha humilde casa tem a ver com esse horrível crime?

      → Aparentemente nada. Mas queria saber se uma mulher de nome Ana frequenta ou frequentava sua casa. → Guardou a foto.

      → Ana?

      → Mulher branca, alta, magra, com seios grandes e tatuagens. Gosta de se vestir de preto. Tem trinta e oito anos.

      Pausa.

      No que ele estaria pensando?

      Por que a demora em responder?

      → Que eu me lembre, não → disse, enfim.

      → Não tem certeza?

      → Mais de sessenta pessoas frequentam minha casa, uma vez por semana. Dessas, somente umas vinte e poucas vem todas as semanas. As demais sempre são pessoas novas, que querem conhecer nossos trabalhos. Impossível decorar o rosto de todas.

      → E se eu trouxer uma foto dela?

      → Mesmo com a foto, asseguro-lhe que não é frequentadora assídua desta casa. Talvez tenha vindo, mas não em todas as semanas, entende? Se fosse assídua, eu teria lembrado dela.

      → O senhor lida com magia negra?

      O ancião se mexeu na cadeira.

      → Magia negra? → Parecia surpreso.

      → Sim.

      → Claro que não. → Alteou o tom da voz, como que indignado: → Que pergunta absurda! Aqui é uma casa de candomblé. Sabe o que é candomblé, filho? Nada a ver com magia negra. → Baixou o tom da voz. → Alguém deve tê-lo orientado mal. Está indo pelo caminho errado, filho. Completamente errado.

      Teria ficado zangado?

      Ou seria apenas uma encenação? E por qual motivo?

      → Não quis ofendê-lo. Infelizmente sou obrigado a analisar todas as possibilidades, sem exceção → suspirou. → Com relação ao horário de funcionamento de sua casa, em que dia da semana o senhor realiza seus... rituais?

      → Todas as sextas-feiras, a partir das dez da noite.

      → Todas?

      → Todas. Sem exceção.

      → E vai até que horas?

      → Meia-noite. Às vezes uma. Depende do movimento → sentiu o incisivo olhar dele. → Sou suspeito, filho? Por que achou que essas pessoas frequentavam minha casa?

      → O senhor não é suspeito → mentiu, para não perder sua confiança nem deixá-lo ressabiado. → Fique tranquilo a esse respeito. Decidi visitá-lo simplesmente porque sua casa fica bem próxima da rua Marselhantes, local onde o casal costumava estar. Como a mulher, a tal de Ana, declarou que é adepta do Candomblé, achei que esta casa, por uma questão de logística, seria seu ponto de concentração. Pelo visto, terei que continuar procurando.

      → Com certeza sim.

      Encarou o ancião. Perguntou-se se ele teria dito a verdade. Perguntou-se o que estaria se passando naquela mente caótica.

      Não conseguiu pensar em mais nada para dizer.

      Decidiu seguir em frente.

      Levantou-se.

      → Peço desculpas pelas perguntas inconvenientes, mas isso faz parte da nossa rotina policial. → Entregou-lhe o cartão. → Agradeço-lhe pela atenção. Caso queira me dizer mais alguma coisa, basta ligar para esse número.

      → Tudo bem, filho. Entendo. Vou rezar para que encontre e puna o psicopata que cometeu esse bárbaro crime. Desejo-lhe boa sorte em sua missão. MÁRCIA!

      Saiu da casa, acompanhado da mulher gorda.

      Apreensivo.

      Ciente de que algo não se encaixava.

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