LOGINCidade de “FT”, 14 de janeiro, terça-feira.
Minutos depois, a mulher tornou a abrir a porta.
→ Entre.
Seguiu a mulher por um estreito corredor.
Entraram numa espécie de sala de estar, com sofá, estante e tapete. Dali podia ver a cozinha. A porta que dava acesso ao lado sul da casa, no entanto, estava fechada.
Um homem alto e magro, que usava barba, apesar da calvície acentuada, estava sentado numa poltrona, diante da TV ligada.
Vestia-se completamente de branco. Devia ter mais de setenta anos. Não se levantou.
→ Sente-se, por favor → a mulher disse, baixinho.
Sentou-se no sofá.
A mulher sumiu na cozinha, em silêncio.
Viu-se sozinho com o ancião.
Não gostou do olhar dele. Parecia o olhar de um louco. Ou estaria enganado? Aguardou.
→ Meu nome é Sérgio→ ele disse, por fim, com sua voz anasalada e estranha →. Mas sou conhecido como “Pai Humberto”. Como se chama, filho?
→ Macto.
Ele desligou a televisão, acionando o botão do controle.
→ Assim fica melhor. O que o traz aqui, senhor Macto?
→ Estou investigando o assassinato de um homem. Ele morreu crucificado, na madrugada do último domingo. → Tirou a foto de “Ameba” do bolso e estendeu a mão: → Este homem. Gostaria de saber se ele frequentava sua casa.
O tal de Sérgio analisou a foto. Depois, a devolveu.
→ Não. Nunca vi esse homem. O senhor disse crucificado?
Teria captado um brilho esquisito nos olhos dele?
→ Sim.
→ Crucificado. Ou seja, pregado numa cruz, como nos tempos de Cristo. Morte lenta. Dolorosa. Meu Deus! O nosso mundo está sem controle. As pessoas estão enlouquecendo, perdendo a noção de humanidade. Quem teria coragem de fazer algo tão horrível?
→ É o que estou tentando descobrir.
→ Desculpe eu perguntar, senhor Macto, mas o que minha humilde casa tem a ver com esse horrível crime?
→ Aparentemente nada. Mas queria saber se uma mulher de nome Ana frequenta ou frequentava sua casa. → Guardou a foto.
→ Ana?
→ Mulher branca, alta, magra, com seios grandes e tatuagens. Gosta de se vestir de preto. Tem trinta e oito anos.
Pausa.
No que ele estaria pensando?
Por que a demora em responder?
→ Que eu me lembre, não → disse, enfim.
→ Não tem certeza?
→ Mais de sessenta pessoas frequentam minha casa, uma vez por semana. Dessas, somente umas vinte e poucas vem todas as semanas. As demais sempre são pessoas novas, que querem conhecer nossos trabalhos. Impossível decorar o rosto de todas.
→ E se eu trouxer uma foto dela?
→ Mesmo com a foto, asseguro-lhe que não é frequentadora assídua desta casa. Talvez tenha vindo, mas não em todas as semanas, entende? Se fosse assídua, eu teria lembrado dela.
→ O senhor lida com magia negra?
O ancião se mexeu na cadeira.
→ Magia negra? → Parecia surpreso.
→ Sim.
→ Claro que não. → Alteou o tom da voz, como que indignado: → Que pergunta absurda! Aqui é uma casa de candomblé. Sabe o que é candomblé, filho? Nada a ver com magia negra. → Baixou o tom da voz. → Alguém deve tê-lo orientado mal. Está indo pelo caminho errado, filho. Completamente errado.
Teria ficado zangado?
Ou seria apenas uma encenação? E por qual motivo?
→ Não quis ofendê-lo. Infelizmente sou obrigado a analisar todas as possibilidades, sem exceção → suspirou. → Com relação ao horário de funcionamento de sua casa, em que dia da semana o senhor realiza seus... rituais?
→ Todas as sextas-feiras, a partir das dez da noite.
→ Todas?
→ Todas. Sem exceção.
→ E vai até que horas?
→ Meia-noite. Às vezes uma. Depende do movimento → sentiu o incisivo olhar dele. → Sou suspeito, filho? Por que achou que essas pessoas frequentavam minha casa?
→ O senhor não é suspeito → mentiu, para não perder sua confiança nem deixá-lo ressabiado. → Fique tranquilo a esse respeito. Decidi visitá-lo simplesmente porque sua casa fica bem próxima da rua Marselhantes, local onde o casal costumava estar. Como a mulher, a tal de Ana, declarou que é adepta do Candomblé, achei que esta casa, por uma questão de logística, seria seu ponto de concentração. Pelo visto, terei que continuar procurando.
→ Com certeza sim.
Encarou o ancião. Perguntou-se se ele teria dito a verdade. Perguntou-se o que estaria se passando naquela mente caótica.
Não conseguiu pensar em mais nada para dizer.
Decidiu seguir em frente.
Levantou-se.
→ Peço desculpas pelas perguntas inconvenientes, mas isso faz parte da nossa rotina policial. → Entregou-lhe o cartão. → Agradeço-lhe pela atenção. Caso queira me dizer mais alguma coisa, basta ligar para esse número.
→ Tudo bem, filho. Entendo. Vou rezar para que encontre e puna o psicopata que cometeu esse bárbaro crime. Desejo-lhe boa sorte em sua missão. MÁRCIA!
Saiu da casa, acompanhado da mulher gorda.
Apreensivo.
Ciente de que algo não se encaixava.
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira. Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito. O médico também nada revelou. Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade. Curiosidade! A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido? Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Só foi saber das novidades
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Subitamente, um objeto foi colocado sobre seu rosto. Macio, mas que, naquele instante, o sufocava. O que seria? Um travesseiro??? Óbvio! Um discreto e eficiente travesseiro! Não recebeu uma facada nem um tiro. E muito menos uma pancada na cabeça. Por quê? Com certeza para parecer que teria morrido de parada cardíaca. Assim procedendo, não causaria suspeitas. Sim! Era um bom plano. O delegado Haroldo → apesar de enlouquecido → ainda não tinha perdido a inteligência.&nbs
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Isso porque, à meia-noite, depois que a enfermeira lhe aplicou uma injeção, recebeu uma inusitada e horripilante visita. A visita do demônio! Um homem entrou na sala. Usava o jaleco branco, típico dos médicos. No pescoço, um estetoscópio. Calça jeans. Sapatos pretos. Cabeça raspada. Bigode discreto. Óculos escuros. Manteve a luz apagada. Apenas a luz do corredor iluminava o quarto. Aproximou-se da cama. → Boa noite, Macto → ele murmurou, sério. Estremeceu, ao reconhecer aquela voz! Tentou gritar, mas nada sai
Cidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado. Não sonhou. Não teve pesadelos. A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente. Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram. Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos. Abriu, enfim, os olhos. Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas. Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrig
Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira. Sozinho! A dificuldade de respirar aumentava. Em delírio → com o cérebro atrofiado → já não sentia mais nada, não via mais nada, não pensava em mais nada. Sentiu o tenebroso manto da morte se acercando... o tétrico manto do verdugo negro... realizando um reconhecimento... analisando as possibilidades... cheirando seu corpo... cutucando sua alma... lambendo seu espírito... num frenesi alucinado!!! E não tinha forças para lutar contra ele! Seria o fim? O fim... o fim... o fim... As dores no estômago aumentaram! Urinou novamente
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira. Acordou nas trevas! Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus. A fazenda às escuras. A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico. Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol. Defecou na fralda. Foi obrigado a se acostumar com o fedor.