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CAPÍTULO 24

last update publish date: 2021-09-06 22:03:09

      Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira.

      Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira.

      Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito.

      O médico também nada revelou.

      Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade.

      Curiosidade!

      A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido?

      Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira.

      Só foi saber das novidades quando Marcos chegou → depois do almoço → acompanhado do inspetor Cardoso.

      Ambos ficaram de pé, diante da cama.

      Só lhes via os vultos.

      Sombras que o cercavam!

      De repente, um deles começou a falar.

      → Em primeiro lugar, queremos lhe pedir desculpas. → Reconheceu a voz do inspetor, num tom de leve constrangimento. → Como já deve ter percebido, usamos você como isca, antevendo a possibilidade do Haroldo querer se vingar, antes de fugir. Era uma possibilidade remota e nem um pouco inteligente, mas não podíamos descartá-la. Afinal, sabíamos que o Haroldo estava louco, fora de controle e tinha raiva de você. Provavelmente achou que teria tempo para te matar e ir embora. Devia ter visto isso em algum filme policial, o imbecil. → Sorriu. → Portanto, sem te avisar, colocamos dois policiais, disfarçados de médicos, nas imediações do seu quarto, para observar a entrada de um possível suspeito. E não te avisamos para não te deixar ansioso e piorar teu estado. Essas são atitudes drásticas que, às vezes, somos obrigados a tomar. E mesmo assim, o plano do Haroldo quase deu certo. Quase deu certo porque os policiais, por uma infeliz coincidência, estavam tomando café, na cantina, lá embaixo, no momento em que o delegado entrava no seu quarto. Foram, inclusive, advertidos, pelo erro. Por sorte e por uma valorosa graça divina, após o café, eles decidiram fazer uma ronda e deram uma olhada no quarto, pelo vidro da porta. Viram, estarrecidos, um homem deitado em cima de você, numa posição estranha, e não tiveram dúvidas. O Haroldo, ao perceber que seu plano de vingança não deu certo, reagiu e levou dois tiros. Morreu, como só morrem os loucos. Foi-se. Dessa vez podemos lhe garantir: esse caso está definitivamente encerrado. → O inspetor tocou levemente sua mão. → Desculpe, parceiro. Iríamos pegar o Haroldo, mais cedo ou mais tarde. Ele não ficaria impune por muito tempo. Ainda bem que o pegamos antes que cometesse mais um crime. Ainda bem que o pegamos antes que matasse você, que é um policial eficiente e inteligente. No fim, o bem prevaleceu. A força da polícia prevaleceu.

      Silêncio.

      Tentou ficar com raiva, mas não conseguiu.

      Tentou lamentar sua sorte, mas não conseguiu.

      O que dizer?

      Sentia-se feliz, sim, em estar vivo, quando tudo o mais parecia perdido. Comovido, tentou proferir um sincero e benevolente “muito obrigado”.

      Todavia, só conseguiu fazer uma careta de dor.

                                                                FIM

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