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CAPÍTULO 19

last update publish date: 2021-09-06 21:55:12

      Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira.

      Acordou nas trevas!

      Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus.

      A fazenda às escuras.

      A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico.

      Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol.

      Defecou na fralda.

      Foi obrigado a se acostumar com o fedor.

      Oxigênio! Seus pulmões careciam de ar!        

      Perdeu os sentidos de madrugada.

     

      Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira.

      Despertou com o dia já claro.

      Nuvens negras cobriam o céu. Chuva? O vento estava mais forte, mais antipático. Seriam oito horas? Nove?

      Seu estômago doía, bem como sua cabeça, suas mãos e seus pés. Sentiu cãibra nas coxas. Tontura. Sede! Náuseas! Vomitou sobre o próprio peito. Sentiu frio. Muito frio! Aproximação da morte?

      Arrepiou-se!

      Não conseguia respirar! Ou respirava com esforço, numa busca enlouquecida pelo ar, pela vida!

      Depois do meio-dia, um carro parou diante do prédio.

      Ergueu a cabeça e fixou os olhos fatigados. Seria alguém para tirá-lo desse sofrimento?

      Gemeu baixinho, de desânimo, ao perceber que...

      Ana desceu do veículo. Maldita Ana! Usava short curto e blusa vermelha, decotada. Os cabelos presos por um “rabo-de-cavalo”.

      Aproximou-se da cruz.

      → Oi, Macto!

      Não conseguiu mais erguer a cabeça. Era como se pesasse uma tonelada! Os lábios roxos e rachados. Sua visão... parcialmente comprometida. E piorando.

      → Tenho novidades → ela começou, sempre com o cínico sorriso nos lábios. → Matamos a mulher chamada Mônica. A da pensão, lembra? Com certeza nunca mais vai pronunciar a palavra “rasputin” na vida. Nunca mais. Quer saber como ela morreu? Não vou dizer. Não faz a menor diferença. Faz? Faz? → Deu três passos, postando-se a um metro da cruz. → Você está lindo, aí em cima. Um lindo zumbi. Pena que não tenhamos nos conhecido em outras circunstâncias. Mas continuando, coloquei minha mansão à venda. Estou saindo da cidade. Estou indo para um lugar mais tranquilo, digamos assim. A cidade de “FT...” está muito violenta. Chegaram ao cúmulo até de crucificar as pessoas, acredita? → Gargalhou, como se tivesse dito a melhor piada do mundo. Depois, ficou séria. → O delegado Haroldo vai esperar por mais três meses, antes de pedir demissão. Depois da sua morte, nosso grupo vai dar um tempo, até tudo esfriar. Iremos inaugurar nossas quatro empresas na segunda-feira. Ah, sim. Não sei se você desconfiou, mas matei meu marido, o bilionário César Trund Bass. O crime perfeito. Como fiz? Esse eu posso contar. Foi simples. Bastou administrar veneno em pequenas quantidades, aumentando as doses até lhe causar um infarto fulminante. Seu coração velho e nojento não suportou a pressão. E ninguém lembrou de fazer uma autópsia minuciosa, para encontrar o veneno. Na verdade, ninguém desconfiou de mim, uma pobre viúva apaixonada. Sim. Meu golpe do baú deu certo, pois fiquei rica. Os anos que tive que aguentar aquele velho nojento foram recompensados. → Seus olhos brilharam. → Infelizmente sou viciada em jogo e maconha. Jogo de baralho, entende? Para pagar as dívidas, tive que vender as fábricas, o iate e o resto.  Mesmo assim, ainda estava com dificuldades financeiras. Não consegui manter o meu alto padrão de vida. Estava na pior. Por sorte, conheci o “Pai Humberto” e o Haroldo. Por sorte, eles me convenceram a praticar o ritual de magia negra, com o sacrifício de uma vida humana. Oh, minha vida melhorou sensivelmente, depois disso. Você não tem ideia do quanto melhorou. → Sorriu. → Bem, gato, mas chega de papo. Chega de conversa fiada. Vim apenas para ver como você está. Recebi a missão de informar a turma sobre sua morte. Serei, obviamente, a última pessoa a vê-lo com vida. Não é charmoso? E pelo visto, você está ótimo! Maravilhoso! → Nova gargalhada. → Amanhã estarei de volta, ok? Te cuida. Beijos!

      E ela se foi, deslizando como uma serpente.

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