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Capítulo 4

Author: Sua Sombra
Os socorristas não demoraram a chegar. Após receber um curativo rápido e improvisado, Maitê correu apressada pelos corredores do hospital até o quarto de sua mãe. No instante em que cruzou a porta, no entanto, seu coração pareceu parar. A enfermeira-chefe já estava com as mãos firmes no tubo de oxigênio de Laura, prestes a desconectá-lo dos aparelhos.

— Parem! Tirem as mãos dela agora mesmo! — O grito ecoou desesperado, enquanto ela avançava em defesa da mãe. O lábio inferior de Maitê sangrava pela força com que o mordia, e sua voz tremia de fúria e pânico. — Eu sou a esposa do Nathan, e este hospital pertence à família Ribeiro! Quem deu autorização para tocarem na minha mãe?

A enfermeira recuou um passo, exibindo uma expressão de evidente constrangimento.

— Senhora Ribeiro, esta foi uma ordem direta do seu marido. Somos apenas funcionários, não podemos desobedecer a uma diretriz da diretoria. Quem sabe a senhora não tenta conversar com o senhor Nathan?

Com as mãos trêmulas, Maitê discou o número do marido. A chamada foi atendida no segundo toque, trazendo de imediato o tom gélido e irritado que ele sempre reservava a ela.

— Qual é o problema agora? — Indagou ele, sem esconder a impaciência.

Ela engoliu em seco, lutando contra as lágrimas que já embaçavam sua visão.

— Nathan, você prometeu que deixaria minha mãe em paz se eu me ajoelhasse. Eles estão tentando desligar os aparelhos dela agora. Por favor, você poderia intervir...

— Não! — Cortou ele, com a frieza de quem descarta lixo. — A Liliana pode não ter se machucado desta vez, mas a sua postura tem sido inaceitável, e eu continuo muito insatisfeito. E pode ficar tranquila, pois eu já me informei com a equipe médica. É só tirar o tubo, a sua mãe não vai morrer tão fácil assim.

— Mas ela teve morte cerebral! Os médicos avisaram que... — A voz de Maitê falhou em um soluço agoniado.

Do outro lado da linha, Nathan franziu a testa, sem o menor pingo de empatia para lidar com aquele drama.

— Pouco me importa o diagnóstico dos médicos. A Liliana precisa descansar agora, e eu vou ajudar ela a dormir. Chega dessa conversa.

O som da chamada encerrada ecoou no quarto como um golpe. Sem outra alternativa, a enfermeira-chefe suspirou, abriu as mãos em sinal de impotência e puxou o cabo do respirador. O monitor cardíaco de Laura reagiu em questão de segundos, emitindo um apito agudo e contínuo. Pacientes em estado de morte cerebral não respiram por conta própria; a máquina era o único fio que ainda a prendia a este mundo.

— Não! Pelo amor de Deus, não façam isso!

Maitê se debateu com todas as forças, mas os braços firmes dos enfermeiros a contiveram. Lhe restou apenas assistir, paralisada pelo terror, enquanto o corpo de sua mãe sofria espasmos violentos sobre os lençóis brancos antes de ceder à imobilidade total e ao silêncio.

O médico plantonista declarou o óbito pouco depois. Três minutos. Foi esse o tempo exato que o universo levou para arrancar de Maitê a última pessoa da família que ainda tinha no mundo. E o assassino por trás daquela crueldade era o mesmo homem que, um dia, jurou no altar protegê-la por toda a vida.

Naquele mesmo instante, o celular de Maitê vibrou com uma notificação do Instagram. Era uma postagem nova nos Stories de Liliana, a foto de um exame de ultrassom.

[Parabéns ao Nathan, que vai ser papai!]

A primeira pessoa a curtir e comentar foi Joana, a própria sogra de Maitê.

[Você é maravilhosa, Liliana! Bastaram algumas tentativas e o bebê já está a caminho. Muito diferente daquela inútil da Maitê, que não serve nem para dar filhos. Semana que vem, fale para o Nathan trazer você para jantar aqui em casa.]

A resposta da amante veio logo em seguida, recheada de emojis de corações e carinhas envergonhadas.

Um sorriso amargo e carregado de ironia despontou nos lábios de Maitê.

"Elas, sim, parecem nora e sogra." pensou consigo mesma.

Com as lágrimas manchando o atestado de óbito que apertava contra o peito, ela se encolheu em um banco frio do necrotério e ficou ali, velando a própria solidão até os primeiros raios de sol despontarem.

Faltavam vinte e oito dias para que o período de espera do divórcio chegasse ao fim.

A semana seguinte passou como um borrão cinzento. Sozinha, Maitê cuidou de todos os trâmites do funeral. A preparação do corpo, a cerimônia no crematório e o enterro das cinzas. Todo o processo levou sete dias intermináveis.

Sete dias nos quais Nathan nem sequer pisou em casa.

Por outro lado, o feed de Liliana bombava com atualizações diárias. Era o Nathan acompanhando a ultrassonografia, o Nathan escolhendo o berço do bebê em uma loja de grife, e o Nathan comprando roupinhas e lembrancinhas na igreja. Cada sonho que Maitê um dia havia compartilhado e planejado com o marido estava sendo realizado com outra mulher.

No nono dia após a assinatura do pedido de divórcio, o telefone de Maitê tocou. Para sua surpresa, a tela exibia uma enxurrada de mensagens de Nathan. O tom, como de costume, era de pura cobrança e autoritarismo.

[Para onde você levou a sua mãe? Acha mesmo necessário escondê-la daquele jeito só porque eu fiz uma brincadeira?]

[Minha mãe tem toda a razão, você está muito mal-acostumada. Traga a sua mãe de volta para o hospital agora. Não faça ela sofrer só para tentar me atingir.]

Diante daquela demonstração bizarra de ignorância e egoísmo, Maitê digitou apenas uma frase curta como resposta: [Não é mais preciso.]

Aquelas poucas palavras foram o suficiente para ferir o ego do homem. Na mesma noite, Nathan invadiu a mansão a passos pesados. Ele agarrou o pulso de Maitê com força, os olhos brilhando de raiva contida e os dentes cerrados.

— O que diabos isso significa? Como assim não é mais preciso? Vai me dizer que quer cortar laços comigo agora, é isso? Pois fique sabendo que eu não vou tolerar esse seu...

— Meus parabéns! — Maitê o interrompeu, a voz soando apática e com um brilho de escárnio dançando em seus olhos. — Fiquei sabendo que você vai ser pai.

A surpresa fez com que Nathan soltasse o braço dela na mesma hora. Uma sombra de culpa cruzou seu rosto e ele se jogou no sofá, desconcertado. Segundos depois, contudo, a expressão tensa deu lugar a um sorriso de quem acreditava ter desvendado um grande mistério.

— Ah, então foi por isso... Você tirou a sua mãe do hospital porque descobriu sobre a gravidez da Liliana, não é? Você está com ciúmes, com medo de eu te ignorar por causa do bebê, e armou esse teatrinho todo para chamar a minha atenção. Escuta aqui, Maitê, você não precisa fazer nada disso. A Liliana pode até ter um filho, mas você sempre será a minha única esposa. E isso não vai mudar até o dia em que morrermos.

Satisfeito com a própria linha de raciocínio, ele abriu um sorriso prepotente. Como quem joga migalhas a um cachorro, tirou do bolso do paletó uma pulseira de pedras vermelhas e estendeu na direção dela.

Maitê conhecia aquela joia muito bem. Era uma peça exclusiva de leilão, um modelo único no mundo, que também havia protagonizado os Stories de Liliana dias atrás. A amante, porém, havia achado o design ultrapassado e havia postado um vídeo jogando a pulseira no lixo, com uma legenda cruel: [Um horror. Só mulher velha usaria um negócio desses.]

Ao perceber o olhar fixo e vazio da esposa, Nathan interpretou a reação como puro choque de felicidade e continuou falando:

— Considerando todo o seu esforço para me agradar, vou te dar uma recompensa. Temos um jantar de família na casa dos meus pais amanhã. Esteja pronta, você vai comigo.

Uma ruga de irritação marcou a testa de Maitê. Ela já abria a boca para recusar a oferta quando o homem disparou outra pergunta, com um tom de leve curiosidade:

— A propósito, o que era aquela papelada que você me fez assinar outro dia? Que tipo de compra era aquela? Eu não recebi nenhum aviso no cartão de crédito.

O coração de Maitê deu um salto no peito. Seus dedos se curvaram em punhos por instinto.

"Ele não leu os papéis." concluiu ela, um misto de alívio e descrença lavando sua alma. "Ele não faz a menor ideia de que assinou o próprio divórcio."

Que assim fosse. Ao menos, quando chegasse a hora de ir embora em definitivo, ela não precisaria suportar as chantagens e os escândalos dele.

Com esse pensamento reconfortante em mente, ela relaxou a postura e mascarou suas emoções, respondendo com um dar de ombros displicente:

— Não foi nada de mais. Era um item de luxo, mas acabei mudando de ideia e cancelei a encomenda.

A resposta convenceu Nathan por completo. Ele a analisou de cima a baixo, notando as roupas simples e o rosto sem maquiagem. Um calor repentino tomou conta de seu peito. No entanto, antes que pudesse articular qualquer flerte, o toque de seu celular quebrou o clima. O nome de Liliana piscava na tela.

— Nathan, querido... — A voz manhosa vazou pelo alto-falante. — O bebê está muito agitado hoje, me deixando enjoada. Vem logo para cá cuidar de mim.

Num reflexo condicionado, Nathan ergueu os olhos para a esposa, esperando a explosão iminente. No passado, bastava uma ligação daquela mulher para que Maitê fizesse um escândalo tremendo. Ela choraria, gritaria e exigiria que ele ficasse em casa, ou o empurraria porta afora com violência, batendo a porta na cara dele para mostrar toda a sua frustração.

Mas o teatro aguardado não aconteceu. Em vez de lágrimas ou berros, Maitê apenas virou as costas em um silêncio absoluto. Apoiou a mão no corrimão da escada e começou a subir os degraus, oferecendo ao homem apenas a visão de uma silhueta frágil e indiferente.

— Maitê! — Bradou ele, tomado por uma irritação inexplicável ao ser ignorado daquela forma. — Você ficou surda? A Liliana acabou de pedir para eu ir cuidar dela e da criança.

Ela confirmou com um aceno leve de cabeça, sem sequer interromper a caminhada escada acima.

— Eu ouvi. Pode ir, dirija com cuidado.

O silêncio que se seguiu no andar de baixo foi ensurdecedor. Nathan congelou no lugar, desorientado pela calma profunda daquela mulher que antes parecia viver em função dele. O choque foi tão grande que ele só voltou à realidade quando os protestos aborrecidos de Liliana soaram mais altos pelo celular.

— Estou a caminho. — Murmurou ele, ainda atordoado, e correu para fora da mansão.

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