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Capítulo 3

Penulis: Sheid
last update Tanggal publikasi: 2026-10-13 20:23:29

O Pimenta & Sal ficava numa travessa tranquila da Vila Madalena, entre uma loja de discos e um ateliê de cerâmica, e só abria para o almoço às onze e meia. Às oito e quinze da manhã, porém, já cheirava a coentro fresco, alho dourando e pão de queijo saindo do forno.

— Você chegou cedo — gritou Marcinha do fundo da cozinha, sem se virar. — Está fugindo de alguém?

— Estou fugindo de uma casa. — deu uma risadinha sem humor.

— Entendi. Vai pegar o avental, que a escarola não se lava sozinha.

Marcinha tinha trinta e quatro anos, uma tatuagem de colher de pau no antebraço direito, farinha permanente nos cotovelos e a voz de quem passou a vida inteira falando por cima de coifas. Eram amigas desde os dezenove anos, desde o curso técnico de gastronomia onde Lavínia chegara de ônibus lotado, com marmita e bolsa parcial, e Marcinha a adotara no primeiro dia com a frase "você corta cebola melhor que metade dessa turma, senta aqui". Marcinha abrira o bistrô sozinha, com empréstimo e teimosia, e dois anos antes oferecera a Lavínia duas horas por manhã de bancada, sem pressão, sem fogão de verdade, sem chef nenhum gritando atrás. Era o mais perto que Lavínia chegava, agora, da vida que tinha sonhado.

Amarrou o avental, lavou as mãos e começou a escaldar tomates. As mãos sabiam o caminho. O resto do corpo nem tanto: depois de quarenta minutos em pé, uma pontada baixa e aguda subiu pelas costas e a obrigou a apoiar a mão na bancada. Sempre a deixava com o coração apertado.

— Senta — disse Marcinha, já ao lado dela, com um banquinho.

— Estou bem. — Insistiu Lavínia.

— Está pálida. Senta. — Ordenou.

Lavínia sentou. A cicatriz pulsava por baixo da blusa, aquele relógio surdo que marcava as mudanças de tempo e os dias ruins. Marcinha puxou outro banco, pousou os cotovelos nos joelhos e olhou-a como só as amigas de longa data olham: sem pena, sem rodeio.

— Você já falou com ele ou só com a cebola?

— Como você sabe da cebola? — Lavínia sorriu

— Eu não sabia. Chutei. — Marcinha riu da própria sorte. — Falou?

— Ontem.

— E?

— Ele disse que depois dos exames.

— Hum. — Marcinha estalou a língua. — Esse homem é uma geladeira com GPS: gelado e sempre sabe onde você está.

Lavínia não conseguiu segurar o riso, e o riso virou, sem aviso, um soluço curto que ela engoliu a tempo. Marcinha esperou. Era uma das raras pessoas que sabiam esperar.

— Ele não é mau, Mar. É esse o problema. Se fosse mau, eu tinha ido embora no primeiro mês. Ele me dá tudo. — Uma lágrima escorreu. —  A minha mãe tem uma casa com telhado novo e cozinha de azulejo. O Tobias está no último ano de Engenharia e nunca viu um boleto da faculdade. Eu tenho fisioterapia três vezes por semana, plano de saúde, carro, apartamento, e um homem que me pergunta todo dia se eu tomei os remédios.

— Parece o paraíso.

— É uma conta que não fecha. — Lavínia olhou para as mãos. — Parece pagamento com juros. Ele paga como quem tem medo de que a dívida cobre mais. Nunca é por mim, entende? É sempre por ele. Para ele conseguir dormir. Cada presente, cada boleto, cada beijo na testa é um pedacinho do pagamento de uma coisa que eu nunca cobrei. E eu, no meio disso, virei... — Procurou a palavra. — Invisível.

— Você ficou com raiva dele?

— Não. Fiquei com raiva de mim. — Respirou. — Eu achei que, se eu aguentasse tempo suficiente, a culpa iria virar outra coisa. Que de tanto cuidar, ele ia acabar... — A frase morreu sozinha.

Marcinha pegou a mão dela e apertou, sem dizer nada. Do lado de fora, um caminhão de entrega manobrava, e o barulho do motor cobriu o silêncio entre as duas.

Foi nesse silêncio que o celular de Lavínia vibrou no bolso do avental.

Ela o puxou com o cuidado. A tela acendeu: Chef Beto Fontenele. Uma mensagem, sem foto, sem emojis. Beto nunca usava emojis.

“Saiu o regulamento do Étoile Nouvelle, pequena. Inscrições até 30 de junho. Lyon, edição de outono. Prêmio: bolsa de dois anos na escola e estágio em casa com estrela. Me liga hoje. Sem enrolar.”

O mundo diminuiu de tamanho. Lavínia releu a mensagem uma vez. Duas. A terceira leitura já era só um ritual, os olhos passando pelas palavras sem precisar delas.

Étoile Nouvelle.

Quatro anos antes, já como sous-chef do Fontenele, ela fora selecionada para a final. Entre mil e duzentos candidatos do mundo inteiro, seis brasileiros e, entre eles, ela: a filha de uma costureira da zona leste que aprendera a fazer molho com o que tinha na geladeira. Chef Beto, que fora seu mentor desde o primeiro estágio, chorara de orgulho na cozinha do restaurante. A carta de convocação chegou em papel espesso, com selo de cera e letras douradas, e dizia que a final aconteceria em outubro, em Lyon.

A cirurgia foi marcada para a mesma semana.

Lavínia guardara a carta numa caixa de sapatos, no fundo do guarda-roupa de inverno, entre meias de lã que ninguém usava num país quente. Nunca a mostrou a ninguém. Nunca contou a André. Para ele, a vida dela antes da doença era um rascunho, um período vago em que ela "trabalhava em restaurante". Ele sabia que ela cozinhava. Mas não sabia o que tinha sido interrompido.

— Quem é? — perguntou Marcinha curiosa e preocupada com a expressão da amiga.

— O Beto.

— Aquele Beto?

— Aquele Beto. — Assentiu.

— E o que ele quer?

— Nada. — Ela passou o polegar sobre a tela, apagando a mensagem. Depois, em vez de bloquear o aparelho, abriu a conversa de novo e digitou, devagar, com o coração batendo de um jeito que ela não sentia havia anos: Me manda o regulamento completo. Hoje.

Enviou e guardou o celular.

— Lavínia. — Marcinha levantou uma sobrancelha. — Você acabou de sorrir.

— Não sorri.

— Sorriu. Eu vi. Parecia você na juventude.

Lavínia desviou o olhar para a bancada, para os tomates escaldados, para a pele solta que cedia sob a faca. Voltou ao trabalho sem responder. Mas por baixo do avental, pela primeira vez em meses, a dor nas costas pareceu um pouco menor.

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